Ciclovias e Pedestres – uma questão mobilidade ou mudança de paradigma?

Por Daniela da Camara Sutti Observo, pela internet, um movimento dos ciclistas da cidade, através do movimento Pedala Jundiaí, gente inteligente e crítica, pela segurança no trânsito e, consequentemente, a discussão para implantação do Plano Cicloviário, parte importante do Plano Diretor, no que diz respeito à mudança do paradigma de mobilidade. Mas o que é mobilidade na cidade? Acredito que depois de 10 dias em viagem por cidades europeias referências em mobilidade posso dizer na pele: Mobilidade é integração e educação. Não existe mobilidade pautada no individual. A mobilidade nas cidades é coletiva e intermodal. Mas o que quer dizer isso? É algo complexo, que demanda questões muito difíceis de serem efetivadas? Não. Requer vontade política, projetos de qualidade, planejamento estratégico discutido com a população e começar a implantar com o horizonte de onde se pretende chegar e em quanto tempo, de acordo com o orçamento. Passei por Amsterdã, na Holanda, Copenhague, na Dinamarca, Malmo na Suécia. Vi que as soluções são simples, efetivas. Mas que dependem de uma política pública que esteja no cerne da cidade que se pretende chegar. Nestas cidades, acreditem, é possível não ter carro. As coisas funcionam. As pessoas se respeitam. São generosas e educadas. E o governo encara estes investimentos como prioridade na qualidade de vida das pessoas – não se trata apenas de ir e vir. E não pode ser. Trata-se de como viver. E de qual qualidade de vida estamos falando? Em Amsterdã, uma cidade de quase 900 mil pessoas e muitas, muitas bicicletas, além do VLT (veículo leve sobre trilhos) compõe grande parte do deslocamento diário. Mas some-se a isso o metrô, trem e barco (a cidade possui muitos canais). E, claro, o pedestre. Muita gente na rua. E as bicicletas possuem preferência e lugar definido, como ciclorrotas, mas nada segregado. É pintura de piso e sinalização vertical e horizontal. 80% é educação e respeito no trânsito, reconhecendo que aquele modal tem prioridade. Assim como o pedestre. Em Copenhague, uma cidade mais cosmopolita, com quase 2 milhões de habitantes, grandes e largas avenidas, com ciclorrotas de similar característica a Amsterdã – sinalização vertical e horizontal, pintura de piso e muita educação no trânsito – está no aprendizado da escola, certamente. Pode entrar no metrô com a bike? Pode. Pode construir uma ponte exclusiva para pedestres e ciclistas, que “abre”para a passagem de barcos mais altos algumas vezes por dia? É necessário. Pois, com ela há indução da revitalização da área do Porto, antes, degradada. E gente na rua revitaliza. Aqui, poder é direito que o cidadão tem e exerce, em sua plenitude. Em Malmo, na Suécia, uma cidadezinha com quase 300 mil habitantes, mais próxima do porte da cidade de Jundiaí, é impressionante como as bicicletas e pedestres convivem com muita harmonia, em espaços compartilhados . Espaços às vezes, delimitados por uma “linha branca”, do piso. Ficamos aqui dois dias, mas impressiona como se percebe a cidade e a mobilidade de forma a incorporar a atenção de “estamos no local dos pedestres”? Porque as bicicletas transitam...e são muitas. É preciso atenção para saber aonde andar para não invadir os espaços. Todos se respeitam. Cruza-se a cidade com uma bicicleta. Um simples exemplo: as escadas nos parques são adaptadas para que se possa descer os degraus com as bicicletas. Presenciei, passando por uma escolinha de crianças, muitas e muitas bicicletinhas estacionadas – isso é educação a longo prazo. E quanto custa isso? Pouco, muito pouco. As bicicletas aqui são como os sapatos do pedestre – vão para todo lugar. E podem entrar em todo lugar. Percebe-se que o investimento nesta política publica de mobilidade, na busca da integração e todos os modais formam um modo de vida: um modo de vida para todos, desde pequenos. E que os investimentos públicos dão conta de mais e cada vez mais prover melhorias e avanços. Mas não há nada de absurdo ou complexo – a complexidade está em tornar possível dar o passo da mudança de paradigma. Depois, é cumprir as metas pactuadas. Foi desta forma que estas cidades percorreram, ao longo dos anos, a implantação deste modelo de excelência em mobilidade, beneficiando a todos, ao longo do tempo. Jundiaí precisa colocar em prática a discussão sobre o Plano de Mobilidade ainda em 2017, discutir e pactuá-lo com a sociedade e, para que haja a integração dos modais. Junto com ele, o Plano Cicloviário, já constante no Plano Diretor. Isso é Planejamento territorial, estratégico, com foco nas pessoas, na busca de um resultado que as torne mais felizes – e que seja contínuo. Para aqueles que dizem que o que está nas cidades da Europa não servem para Jundiaí, ressalto que os bons, efetivos e qualificados exemplos nos servem, ao menos, para refletir sobre a nossa realidade. Podem nos mudar para melhor ou para pior. A escolha é sempre nossa. E a sua, qual é? Daniela da Camara Sutti e arquiteta e urbanista. Foi secretária de Planejamento e Meio Ambiente do governo municipal de 2013 a 2016.