Será que dessa vez a bicicleta terá o lugar que merece?

Os dois candidatos à Prefeitura de Jundiaí foram convidados pelo grupo Pedala Jundiaí para participarem de uma “bicicletada” especial no domingo (16). Os dois estiveram presentes. Mas a postura de cada um foi diferente.

Enquanto Pedro Bigardi assinou a carta-compromisso com a modalidade sustentável e não motorizada e depois pedalou ao lado dos pouco mais de 20 ciclistas que compareceram ao evento, Luiz Fernando Machado apenas assinou a carta, com ressalvas anexadas ao próprio documento, e seguiu para outro compromisso ao lado do deputado federal e ex-prefeito, Miguel Haddad.

O prefeito Pedro Bigardi disse que o maior avanço que teve neste mandato foi a aprovação do plano cicloviário já na Câmara Municipal de Jundiaí, através do Plano Diretor:

“Nós teremos agora a destinação de recursos. Nós temos 10% do fundo de contrapartida que é para calçadas e para implantação do plano cicloviário. A partir desses dois elementos vamos conseguir destravar a questão da ciclovia para avançar na cidade. Tenho certeza absoluta que agora nós vamos dar um passo adiante no próximo governo”.

Fortalecer o plano da bicicleta é sempre uma alternativa muito boa para a cidade pois o trânsito fica com maior fluidez com a retirada de carros das ruas e também promove uma maior qualidade de vida para as pessoas.

Luiz Fernando Machado se diz envolvido no tema: “Vou assinar a carta de compromisso e espero nos próximos 4 anos, se eleito prefeito, contribuir para que a cidade avance, já que nos últimos quatro anos só a burocracia avançou e nada saiu do papel”, lembra o candidato tucano que se comprometeu em dar continuidade aos projetos descritos pelo prefeito Pedro Bigardi.

O candidato do PSDB disse que fez ressalvas para assinar a carta-compromisso para não se comprometer com o que não poderá ser cumprido.

Após as falas, apenas o prefeito Pedro Bigardi participou da pedalada com os secretários Vanderlei Victorino (BA), Daniela da Camara e muitos ciclistas urbanos. O percurso teve início na Argos com destino à ciclofaixa da Avenida dos Ferroviários.

O Pedala Jundiaí nasceu em 2009 através de jovens que queriam utilizar a bicicleta como meio de transporte, porém viram que não era seguro. A partir daí começaram a se aprofundar em medidas públicas para a conscientização da população e para mostrar aos gestores que é possível utilizar a bicicleta como meio de transporte.

“Nós entendemos que a bicicleta é um meio de transporte e não somente para o lazer. Conseguimos desenvolver um caminho para inserir a bike na cidade através de conscientização. Vamos mostrar para os gestores da cidade que é possível e que o espaço da cidade pode ser planejado com uma visão integrada da cidade com a bicicleta, intermodal inclusive, com justiça espacial entre os meios de transporte motorizado e não motorizado e principalmente com a sociedade civil, mostrando assim que o uso da bicicleta é uma alternativa boa, não tanto perigosa” ressalta Gianlucca Hernandez, um dos organizadores do evento e membro do Pedala Jundiaí.

Relato do Pedala Jundiaí sobre ação com candidatos a Prefeito

O coletivo Pedala Jundiaí realiza passeios ciclísticos em Jundiaí desde abril de 2009. Já realizou uma série de cobranças, reuniões e debates com governantes e cumpre um importante papel de mobilizar cicloativistas e ciclistas em torno da pauta da mobilidade sustentável. Só com políticas públicas a bicicleta poderá ser uma opção de transporte efetiva.

Nossa ação é inspirada na critical mass (https://pt.wikipedia.org/wiki/Massa_Cr%C3%ADtica_(evento)) que realiza ações deste tipo em todo o mundo.

Pedimos que a bicicleta seja inserida como modal pois ela traz benefícios para a saúde, para o meio ambiente e para as cidades (convivência, melhoria na mobilidade, ocupação nas ruas, comércio de rua, diminuição com investimentos e gastos com saúde pública em longo prazo, etc.)

Entre 2009 e 2012 e entre 2013 e 2016 poucas ações concretas foram tomadas, isso quer dizer que apesar de planejamento e projetos terem sido feitos, seguem em campo teórico, no papel.

De fato, poucas realizações aconteceram neste período que ficou mais marcado por algumas ações pontuais para incentivar a bicicleta como meio de lazer (ciclovias nos parques, ciclofaixa, aluguel de bicicletas no Parque da Cidade) e por planejamento e legislação (plano diretor cicloviário, uso do EIV para financiar ciclovias, leis de incentivo aprovadas na Câmara).

Ressaltando ainda que participamos ativamente da construção do Plano Diretor Participativo e do plano diretor cicloviário, tendo inclusive eleito um representante (suplente) no Conselho de Política Territorial.

Ambos os últimos governos (Miguel Haddad e Pedro Bigardi), bem como Luiz Fernando (que teve milhões de reais de emendas parlamentares enquanto deputado) não priorizaram o financiamento de medidas concretas (sinalização, adaptação dos terminais, ciclovias e ciclorrotas).

Jundiaí tem uma quantidade grande de ciclistas, mas está provado por inúmeras cidades do mundo que é a construção de infraestrutura e de segurança para o uso que faz com que as pessoas deixem seus carros em casa. Ninguém quer se arriscar nas ruas hoje.

Ou seja, temos plena convicção de que a solução deve sim partir da gestão pública e a demora na implementação faz com que os atuais cicloativistas desistam ou fiquem desanimados.

Mas há um grupo de persistentes. Este coletivo, reunido no Pedala Jundiaí, mantém sua cobrança e, a cada eleição, tem cobrado os candidatos e registrado seus compromissos. Desistir é o caminho certo para que nada mude.

Nós seguimos engajados e convidamos os dois candidatos a Prefeito que estão no segundo turno para assinarem uma carta compromisso com metas e pedalarem conosco, com o objetivo de simbolizar seu compromisso.

E como foi?

Pedro Bigardi e Luiz Fernando já haviam se comprometido com ciclovias em 2012.

Como Prefeito e como Deputado, não destinaram recursos do orçamento ou de emendas para viabilizar estas ações.

Neste ponto, cabe mais responsabilidade ao Prefeito que teve mais recursos disponíveis.

Os dois renovaram seus compromissos nestas eleições.Ambos assinaram a carta compromisso para acalmar o trânsito, adaptar os terminais, construir rotas e ciclovias e implementar o plano diretor cicloviário.

No entanto, Luiz Fernando fez ressalvas que parecem soar como “investirei se a situação econômica da Prefeitura possibilitar”.

Embora seja uma postura sensata (argumento esse que é repetido por muitos governantes), sabemos que o volume de recursos necessários para sinalizar vias, “pintar” trechos e dar a manutenção mínima, além de instalar paraciclos nos terminais é baixa.

Não queremos “tudo para ontem” ou de “uma vez” e já reiteramos nossa intenção de contribuir com soluções e pensar alternativas de financiamento.

Sabemos que há uma crise econômica grave no país e que os próximos anos serão difíceis, por isso nos preocupa tal resposta. Mesmo com dificuldades econômicas, sabemos que muito pode ser feito e esperamos que seja.

Só Pedro Bigardi pedalou com os cicloativistas.Luiz Fernando embora presente no evento, entregando a carta de compromissos assinada, não pedalou, justificando ter outros compromissos assumidos para o mesmo horário.

Foi a primeira vez que um candidato a prefeito pedalou com os cicloativistas. Trata-se de uma vitória.

Mesmo assim, esperamos que, independentemente do resultado da eleição, o próximo prefeito, além dos deputados e vereadores aceitem nossos convites e pedalem mais vezes conosco.

Passaremos a convidá-los todo mês pois uma coisa ficou clara nestes últimos sete anos e meio: os governantes não sabem a realidade de quem pedala hoje na cidade. Se soubessem, fariam algo para proteger as vidas dos ciclistas.

Acreditamos que apenas pedalando, tendo experiência prática, e ouvindo quem pedala e quem tem estas experiências há algum tempo, os responsáveis por tornar a cidade ciclável e segura serão capazes de cumprir com o compromisso assumido.

Foto de abertura by Rodolfo Zanetta

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