A cidade precisa olhar para o futuro e evitar que os erros se repitam

A cidade vive a grande oportunidade de olhar para seu desenvolvimento e fazer uma escolha por um caminho saúdável ou repetir os erros que já foram cometidos no passado, comprometendo assim irremediavelmente sua qualidade de vida.

Ao elaborar pela primeira vez um Plano Diretor Participativo, Jundiaí permite que os diversos atores da sociedade sentem à mesma mesa para expor suas contradições, suas diferentes maneiras de compreender o caminho do desenvolvimento.

A construção do novo Plano Diretor, que vai nortear o desenvolvimento da cidade nos próximos 10 anos, chega perto de sua etapa final, quando será enviado à Câmara Municipal, depois de dois anos de debates, reuniões e audiências públicas.

Durante o segundo Fórum do Plano Diretor Participativo, realizado dia 3 de outubro de 2015, o arquiteto e urbanista, Kazuo Nakano, tocou em um ponto fundamental da discussão: a cidade tem que fazer uma escolha, da mesma forma que fez na década de 70 e decidiu preservar a Serra do Japi.

E Nakano tem um respeitável currículo para dizer o o que disse.

Graduado e mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, doutor em Demografia pelo Núcleo de Estudos Populacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Estruturas Urbanas e Ambientais pela USP e pós-graduado em Gestão Urbana e Ambiental pelo Instituto for Housing and Urban Development (IHS).

Trabalhou no Ministério das Cidade e no Instituto Polis, foi diretor do Departamento de Urbanismo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo e um dos responsáveis pela elaboração do Plano Diretor Participativo em Jundiaí.

O senhor compara o movimento que houve na cidade na década de 70 pela preservação da Serra do Japí com o momento atual, onde se discute a cidade dos próximos anos na elaboração do Plano Diretor Participativo. Por que o senhor faz essa comparação?

O planejamento urbano é um processo de escolhas e tomadas de decisão. Então, por exemplo, aqui em Jundiaí, na década de 70, a sociedade jundiaiense tomou uma decisão importantíssima que foi a preservação da Serra do Japi.

O grande geógrafo Aziz Ab’Saber classifica e entende a Serra do Japi como um castelo de águas. Porque na Serra do Japí você tem uma série de nascentes de rios e córregos que se dirigem ao Rio Jundiaí.

E lá trás a sociedade decidiu preservar, instituir leis para proteger e recuperar a Serra do Japí. E hoje a gente está colhendo benefícios dessa decisão lá trás. Então a gente tem hoje as águas de Jundiaí preservadas, essas nascente preservadas.

Hoje a gente vive um momento em que a bacia hidrográfica do Rio Jundiaí-Mirim, que é o principal manancial de águas que abastece a cidade, está sob risco porque está acontecendo um processo de ocupação, de urbanização, lançamento de esgoto, perda de cobertura vegetal. Isso pode diminuir a quantidade de água do Rio Jundiaí (Mirim) e poluir.

Então, esse é o momento que a gente tem que se mirar nessa sociedade jundiaiense da década de 70, que decidiu proteger e preservar a Serra do Japi, pra fazer a mesma coisa: recuperar e proteger a bacia do Jundiaí-Mirim.

E por que está acontecendo isso na Bacia do Jundiaí-Mirim? Quais os principais fatores que ameaçam essa água do Jundiaí-Mirim?

Um dos fatores mais importantes também é fruto de uma decisão de planejamento urbano e de política urbana que foi tomado no começo da década de 80 e que hoje a gente vê que foi uma decisão equivocada.

Que foi a de ampliar o perímetro urbano abrangendo uma boa parte da bacia do Jundiaí-Mirim e permitindo que se instalassem loteamento urbanos de uma maneira fragmentada, de uma maneira desorganizada, precária e irregular.

Então esses loteamentos que foram sendo implantados em vários pontos da bacia hidrográfica do Jundiaí-Mirim é que hoje provocam esse risco de perda de cobertura vegetal, de lançamento de esgoto sem tratamento nos rios, nos córregos.
Então, você vê que decisões certas levam a resultados bons. Decisões erradas podem levar a perdas e resultados ruins.

Hoje se está discutindo um novo Plano Diretor. É possível se reverter essa situação ou pelo menos planejar um futuro diferente pra cidade?

Exatamente. O planejamento urbano aqui no Brasil ele tem sempre que estar tentando recuperar o prejuízo e arrumar os erros do passado e tentar evitar que esses erros se repitam no futuro e apontar um caminho mais correto, um caminho que a gente acredita que seja mais frutífero pro futuro.

Então, hoje a prática do planejamento urbano é essa: olhar para o passado, corrigir as distorções, olhar para o futuro evitar que os erros aconteçam e se repitam e apontar rumos bons pra cidade.

Foto de abertura: Marcos Fernandes