A cidade resiste e luta para não perder centro de pesquisas

Uma área que protege a Serra do Japi, forma uma paisagem e uma construção únicas na cidade e ainda por cima abriga um dos mais importantes centros de pesquisa no Estado de São Paulo.

Estamos falando do Centro de Engenharia e Automação (CEA), do Instituto Agronômico, que na noite de quinta-feira, 26, reuniu técnicos, políticos e moradores em um debate e também ato de defesa contra a intenção de desativação dos seus trabalhos e venda da área pelo governo estadual.

Estiveram por ali parlamentares como os vereadores Antonio Carlos Albino e Wagner Ligabó ou gestores de planejamento do atual governo, Sinésio Scarabello Filho, ou do governo anterior, Daniela da Camara.

Mas o destaque foram os pesquisadores de áreas como agronomia, história e meio ambiente convidados pelo Núcleo de Estudos Adamastor Fernandes, que coordenou o evento.

Afinal, desde 1969 esse centro de pesquisa acumula centenas de inovações para melhorar a agricultura familiar característica da região (e que não é o alvo dos pacotes tecnológicos pagos das multinacionais) e também participou da origem de projetos bem sucedidos como o Circuito das Frutas ou o Jardim Botânico, entre muitos outros.

Sua paisagem, entre o Aeroporto de Jundiaí de um lado e a Coca-Cola e o Eloy Chaves de outro, abriga pontos de recarga de água, manchas de mata e uma ligação entre a Serra do Japi e a região da bacia do rio Jundiaí nos arredores do Distrito Industrial. Isso pelo lado ambiental.

Pelo lado histórico, abriga um desenho do conjunto de construções de inspiração modernista, que incluiu até um cinema em outros tempos e que está em fase de avaliação de tombamento em Jundiaí.

De acordo com os pesquisadores, o CEA-IAC tem apenas 20% de seu orçamento proveniente dos recursos públicos estaduais, com os outros 80% viabilizados em parcerias com a iniciativa privada. Mesmo tendo sido cortado desde 1995 da faixa de 100 para a faixa de 35 pesquisadores, tem nestes veteranos uma produtividade reconhecida por quase sete publicações aprovadas anuais para cada um – e o número de pesquisas em andamento é semelhante.

É inclusive pesquisador do CEA um dos representantes brasileiros na ISO (International Standard Organization), que gera padrões de segurança e eficiência de máquinas e práticas de trabalho.

Isso coloca a questão da área também dentro da discussão sobre o desmonte da estrutura de pesquisa científica que vem de vários anos e se tornou mais aguda no atual momento de crise com reflexos também na Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp) e no corte de unidades agrônomas agora ampliadas com unidades florestais.

Para muitas intervenções no evento, o governador Geraldo Alckmin está sendo mal assessorado nesse assunto. Esses vários motivos colocam nas mãos dos jundiaienses uma oportunidade de tentar corrigir essa situação.

Tanto a cidade de Jundiaí como o próprio Estado de São Paulo devem muito de seu desenvolvimento aos centros públicos de pesquisa – e a pasta inteira de agricultura, por exemplo, nem aparece especificada no orçamento estadual porque não atinge 1% do total.

Os próprios pesquisadores do CEA afirmam que o processo não está permitindo a renovação de suas linhas de pesquisa e dos laboratórios com novas gerações. Sem eles, Jundiaí não perceberia de imediato essa perda, mas a ausência de um núcleo de estudo e inovação afetaria o ecossistema de inteligência coletiva da comunidade.

Fora isso, admitem que o local poderia ser mantido ainda com a abertura para ONGs ou faculdades públicas como a própria Fatec.

Existem iniciativas já tomadas como o reconhecimento do local como uma Zona de Proteção Ambiental, no Plano Diretor, ou o tombamento de parte do conjunto edificado, em tramitação no Conselho do Patrimônio Cultural (Compac).

Mas ainda é preciso que o maior número possível de entidades da sociedade civil se manifeste junto ao Governo do Estado de São Paulo para mostrar a importância da área para Jundiaí.

O próprio prefeito Luiz Fernando Machado já se manifestou, enquanto ainda era deputado estadual, pela importância do CEA e tem mantido esse posicionamento no governo.

A próxima oportunidae para os jundiaienses apoiarem essa luta de todos é em uma audiência pública que será marcaa pelo Compac depois da análise do processo marcada para reunião do dia 7 de fevereiro.

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1 comment

  1. Paula Pereira

    Obrigada à equipe Oa pela qualidade da matéria. Somente um jornalista que realmente esteve presente durante toda a palestra poderia trazer tantos dados e informações de extrema relevância. Estão de parabéns!