A reflexão de Pedro Bigardi depois de seus 100 dias fora do governo

Por Pedro Bigardi

Avaliação de 100 dias de governo já virou tradição no Brasil. Passei por isso em 2013, meu primeiro ano como prefeito. O destaque da época foi a entrega do PA Central. Fizemos a reforma do prédio e o equipamento passou a funcionar como um apoio importante ao Hospital São Vicente. O detalhe é que o prédio estava programado para ser demolido e no lugar dele ser contruído um estacionamento para o Hospital Regional. Não permitimos tal absurdo.

Mas resolvi falar dos meus primeiros 100 dias em 2017, fora do governo. Faço isso com a vantagem de não ser apegado ao Poder (e não sou mesmo). Aprendi com um amigo, que já se foi, que poder é verbo e não substantivo. Eu posso, Tu podes, Nós podemos… Não tive crises por não ser reeleito, minhas decepções são outras. Mas nesse tempo procurei avaliar e refletir, além é claro me defender de intermináveis ataques do novo governo.

Entendo que deixei um legado (vou falar na primeira pessoa para assumir os erros também em primeira pessoa). Um legado de realizações, de inovações e da busca de um novo modelo de convivência entre as pessoas.

Realizações

Como servidor público acompanhei diversos governos e tenho convicção que fiz um dos governos mais realizadores da história.

Obras como as Alças da Anhanguera (mérito do meu governo), quatro UPAs, duas pontes no Vetor Oeste, a conclusão do túnel na ponte São João iniciada no governo Miguel Haddad, 2500 moradias populares, mais de 50 escolas ampliadas e reformadas, quatro novos parques e 60 novas praças, 15 Unidades Básicas de Saúde ampliadas e reformadas, o bilhete único, tarifa de 1 real aos domingos, viaturas novas para Guarda Municipal, batalhões da Polícia Militar no Caxambu e Praça dos Andradas, três novos centros esportivos, 1,5 milhão de metros quadrados de asfalto, estação de tratamento de esgoto no bairro dos Fernandes, funcionalismo muito valorizado, 2500 vagas em creches, uniforme escolar gratuito, sexta no Centro, Virada Cultural, Feira da Amizade, varejões noturnos, etc.

Cometi alguns erros, que se evidenciaram após o início da crise econômica no País a partir de 2014. Faltou um redimensionamento do programa de ações com a crise, resultando em obras não concluídas. Fazer a UPA do Vetor Oeste funcionar seria essencial para a viabilização do sistema de UPAs que agora está sob risco.

Por outro lado, “perdi a briga” da burocracia do BRT (sistema rápido e moderno de transporte) e não consegui fazer a contratação da obra como também não apresentei o projeto adequadamente à cidade para que ela se apropriasse dele. Infelizmente o BRT também está em risco.

Inovação

O desenvolvimento econômico de Marcelo Cereser (ex-secretário de Desenvolvimento Econômico) aliou ações importantes, como o Desenvolve Jundiaí e o Emprega Mais, com a inovação. O Parque Tecnológico, a Lei de Inovação e o Conselho de Tecnologia vão permitir um avanço importante. Patinamos na execução da obra do Parque Tecnológico devido à queda de recursos no Município e no Governo do Estado.

Cito ainda a parceria Brasil–Alemanha para tratamento do lixo na cidade, projeto iniciado que, se tiver continuidade, pode trazer benefícios inéditos no Brasil. Faltou um plano de resíduos que consolidasse as iniciativas em curso.

Uma nova convivência

Aprendi com duas mulheres que era necessário um novo modelo de convivência na cidade. É utópico? Talvez.

A Margarete (Bigardi), presidente do Fundo Social, uma pessoa com visão altamente humanizada, insistia o tempo todo que devíamos buscar uma nova convivência na relação das pessoas na cidade em tudo que fizéssemos. E assim buscamos fazer.

Paralelamente, a Daniela da Camara, secretária de Planejamento e Meio Ambiente, trouxe um outro olhar em relação aos espaços públicos e uma nova visão de cidade.Também humanizada. Recuperação do patrimônio cultural como a Ponte Torta, o Escadão, o urbanismo caminhável. E o novo Plano Diretor, que venceu a velha prática de ressetorizações que enriqueceram alguns esquecendo o coletivo. Parece que a cidade respirou essa nova convivência.

Não me lembro de ocorrências em qualquer grande evento que ocupou ruas ou espaços públicos, muitas vezes de forma espontânea.

Quando a crise econômica se transformou em recessão e a crise política em decepção faltou fazer os enfrentamentos necessários. Achei que bastava uma boa gestão com os aspectos citados acima. Faltou uma visão política mais profunda pra fazer o bom debate.

Errei pela ausência de uma boa comunicação e aproximação com as pessoas e não me refiro apenas ao marketing tradicional.

Enfim, apoiado nos 100 dias de reflexão e com a certeza de que, apesar de alguns erros, fiz um governo realizador e voltado para as pessoas sigo embalado pela letra do samba que recebi de um amigo:

Diz a letra: “reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Feliz páscoa!

Pedro Bigardi é jundiaiense, engenheiro civil, deputado estadual (2009 a 2012) e prefeito de Jundiaí (2013 a 2016)