Como entender os movimentos sociais de 2013. Um olhar histórico

Para entender o momento de eclosão social e manifestações pelo qual o País passa, revisitamos o melhor dos conteúdos já publicados que analisavam o Brasil e seu povo que, no máximo, estava cochilando

Quem poderia prever a eclosão de protestos pelo País com essa magnitude e intensidade  – e neste exato momento? Explicações sociológicas, filosóficas, psicológicas, econômicas e políticas das mais variadas tentam dar conta desse fenômeno que se forja nas redes sociais, ocupa as ruas e perpassa todas as classes, faixas etárias, etnias, crenças, tribos e preferências partidárias e apartidárias.

O Brasil acordou, mas dizem que a periferia nunca dormiu.  Que jogaram Mentos na geração Coca-Cola.  Que se exige educação, saúde e trasporte no padrão Fifa. Que o povo unido não precisa de partido.

Enfim, o Brasil conquistou protagonismo entre indignados, primaveras e ocuppies do mundo. As ruas viraram caldeirões de causas, as mais variadas, quase todas legítimas. Quinze minutos de fama na linha da História ou amadurecimento sem volta da jovem democracia? Aonde isso vai dar?

Se o futuro é complexo demais para ser previsto, sinais no passado recente já indicavam o que mais cedo ou mais tarde encontraria seu ponto de fervura. Página22 captou e capturou alguns desses movimentos. Quando, por exemplo, entrevistou o jornalista e cientista político Sérgio Abranches. Vejam o que ele disse já em setembro de 2010:

“Penso o contrário dos meus colegas cientistas políticos: eles acham que é preciso fortalecer os partidos, eu acho que tem que acabar com eles.  Porque é uma velha tecnologia institucional para um tipo de política que não tem mais cabimento, a da representação estreita.  Com a tecnologia de interação, com a riqueza de interatividade que tenho hoje com a circulação de informações, não preciso de partido para agregar meus interesses.  Não preciso de um partido para dizer qual é o programa que devo seguir.  Partido hoje é uma camisa de força, é fonte de corrupção e de cooptação.”

Mas o que entraria no lugar dos partidos?, perguntamos. “A gente tem que mudar essa ideia de representação.  Temos de fazer uma síntese tecnológica, um retorno tecnológico à democracia grega”. Daí o título: “A Ágora de agora”.

Essa entrevista nos foi dada em um momento de profundo desencanto com a política, em meio às eleições mais “chochas” da História brasileira, mas que gestava nesse descontentamento com a política tradicional uma semente que viria a eclodir três anos depois, fortemente sustentada pela tecnologia da informação.

Crise das instituições

Tal descontentamento foi captado também na reportagem  “A produção do desencanto”, matéria de capa da edição “Ocupe pelas Brechas”, de fevereiro de 2012. Nela, mostramos como o modo hacker de agir – ou seja, de achar e ocupar as brechas dos sistemas – pode mudar o mundo desiludido com as promessas da democracia, do capitalismo e da justiça social.

Este trecho da reportagem, por exemplo, mantém-se muito atual:

“Pedro Markun, um dos fundadores da Casa de Cultura Digital em São Paulo, acha que o fim dos partidos está próximo: ‘As instituições estão sendo desmanteladas por descontentamento, novas coisas surgirão, talvez um ocuppy eleição, por exemplo”. Entra neste rol das instituições desacreditas os partidos, os governos, as Nações Unidas e, quem diria, a imprensa.

A crise das instituições ficou ainda mais patente na Rio+20. O resultado pífio das negociações oficiais entre as nações nos levou a manchetar: “Agora é com a gente –  Reafirmadas as limitações do processo formal da ONU na direção do futuro que queremos, mais do que nunca a bola está com a sociedade civil”. Isso recheando uma provocativa capa com a ativista Tica Minami, exibindo o cartaz com os dizeres:  “Quando a multidão liderar, os líderes seguirão”.

Poucos meses depois, em outubro de 2012, voltamos à carga com a edição “Política Fora da Caixa”, cuja reportagem de capa mapeou o ensaio de formas dinâmicas e orgânicas de fazer política, provocar, gerir e se organizar. Mesmo mapeando essas formas inovadoras e arejadas, não tiramos os olhos da velha estrutura em que política convencional ainda opera, abordando uma das bandeiras que também foi empunhada recentemente nas ruas: a da reforma política.

Transparência e monitoramento

A mesma tecnologia que criou um caldo para as manifestações é a que empodera o cidadão e possibilita o controle social do poder. A reportagem “Por um pouco de luz”, de abril de 2011, mostrou a péssima posição do Brasil em termos de acesso à informação pública mas, em contrapartida, como pipocavam na web iniciativas em prol da transparência:

“Embalados pela revolução digital, a mesma que está contribuindo para a mobilização pela democracia no Oriente Médio e Norte da África, movimentos como Cidade Democrática, Vote na Web, Urbanias, Rede Nossa São Paulo, entre outros, entram em cena criando mecanismos que permitem traduzir e acompanhar os atos do poder público.  Multidisciplinares e, em geral, pilotados por jovens cheios de energia e disposição, articulam-se na velocidade da internet sem esperar a tramitação de uma lei que segue em ritmo analógico.”

Na mesma linha, a reportagem “Trabalhe, você está sendo filmado”, revelou como um número crescente de fóruns, organizações e voluntários, com o uso de ferramentas tecnológicas, ampliou o cerco aos políticos por meio do monitoramento. E exemplos práticos de combate à corrupção que mudaram a história de municípios do interior foram citados na reportagem “Revertendo o ciclo”.

Conforme disse Abranches na entrevista em 2010, “o movimento social é a grande esperança da repolitização adequada do Brasil”. Mas na ocasião alertou que, sendo fragmentado, não faz as conexões, compete com ele mesmo e se enfraquece diante do adversário. Buscar um fio de continuidade nesse emaranhado difuso que é a própria rede talvez seja agora a maior questão objetiva que nos desafia nestes tempos efervescentes.

Publicado originalmente na revista Página 22

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