Dia do jornalista. Muito a comemorar

“Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados.” Vladimir Herzog

Amanheci neste 7 de abril, Dia do Jornalista, com a notícia de que os Estados Unidos haviam lançado 59 mísseis sobre a Síria na madrugada em retaliação ao suposto ataque químico, atribuído ao governo sírio, que matou pelo menos 80 pessoas, entre elas 27 crianças, na última terça-feira.

Pouco depois, ainda bebendo o primeiro café do dia, compartilhei no Facebook uma mensagem que já havia publicado no ano passado, no mesmo 7 de abril. Um post que lembrava a razão de existir um Dia do Jornalista.

O Dia do Jornalista é comemorado no Brasil, no dia 7 de abril, em homenagem a João Batista Líbero Badaró, médico e jornalista, assassinado por inimigos políticos, em São Paulo, em 22 de novembro de 1830. O movimento popular gerado por sua morte levou à abdicação de D. Pedro I, no dia 7 de abril de 1831. Um século depois, em 1931, a data foi instituída como o “Dia do Jornalista”.

Alguns minutos depois a colega jornalista, Hanaí Costa Tavares, postou um comentário: “comemorar o quê, heim?”

A pergunta ficou na minha cabeça o dia todo e, agora de noite, escrevo esse texto por acreditar que temos muito a comemorar. Muito mesmo. Eu, com certeza tenho.

Lembro-me como se fosse hoje quando o saudoso Sandro Vaia me disse lá no início da década de 80 no Jundiaí Hoje: “Flavio, jornalismo é uma boa profissão”.

Esse conselho valeu e vale ouro. Ele havia percebido que aquele moleque que tocava violão e tinha largado a faculdade de Veterinária por absoluta falta de jeito para cuidar dos bichos, tinha algo a ver com jornalismo.

Foi naquele momento que descobri que havia algo além de ser revisor daquele diário capenga, herdeiro do lendário Jornal de Segunda, de quem fui leitor assíduo. E assim o jornalismo entrou de vez na minha vida como se sempre estivesse nela.

O mesmo amor pela notícia, pela informação exclusiva, do saber, do novo, pulsa hoje em meu coração. E sei que pulsará para sempre. O jornalismo conduziu minha vida, enquanto a música que move minha alma, se encarregou da trilha sonora. 

Por isso tenho muito a comemorar.

Tenho a comemorar ter sido amigo e aprendiz do Sandro Vaia e de Ademir Fernandes, professor de muitos de nós jornalistas da cidade. De ter iniciado minha carreira ao lado de José Arnaldo de Oliveira e Adilson Freddo — entre outros — e ter tido a oportunidade de trabalhar numa redação pela primeira vez pelas mãos de Paulo Baptista. Sou grato a eles e a todos os jornalistas que encontrei pelo caminho e com que pude aprender.

Hoje pouco resta do papel notícia, o newspaper, mas o jornalismo vive no mundo digital de forma cada vez mais forte e importante.

Eu também achei que com a chegada da Internet o jornalismo morreria. Mas estava enganado. O que muda é apenas o meio, uma vez que hoje o papel jornal perdeu seu papel de suporte da notícia, abrindo espaço para o mundo multimídia da internet.

Eu tenho que comemorar também o surgimento da Internet.

A Internet deu espaço para que muitos dos bons jornalistas antes funcionários de grandes empresas de informações pudessem continuar a fazer seu trabalho de investigação e apuração, compartilhando com novos leitores do mundo digital.

A primeira vez que tive a ideia de fazer um site de notícias foi em 1996, logo depois que deixei o posto de diretor de redação do Jornal de Jundiaí, em um dos episódios mais dramáticos da minha carreira — quando pude ver que a força do jornalismo nem sempre é suficiente para enfrentar as forças políticas e econômicas. 

Naquela época, porém, a Internet comercial dava seus primeiros passos. Só fui concretizar meu plano quando, em 2012, lancei este Oa

Foi através do Oa que descobri a existência de um público consumidor de informação de qualidade. Gente a fim de saber das coisas. Público que vibra junto. A experiência da Internet, especialmente com o crescimento das redes sociais, coloca o jornalista perto do seu público. A reação é imediata. Forma-se uma tribo. É fascinante.

E tenho que comemorar por isso também.

O leitor da cidade hoje tem à disposição, além dos meios tradicionais, como Jornal de Jundiaí, Jornal da Cidade, Rádio Difusora, Rádio Cidade e as tevês fechadas e a TV Tem, um grande leque de opções, seja nos meios digitais ou nos produtos híbridos.

Lembrando aqui de cabeça (se esquecer de alguém podem me corrigir que complemento o texto) temos o JundiAqui, o Jornal da Região, o JundiAgora, o Jundiaí Notícias, o portal Tudo com Você, pra falar dos sites e jornais que fazem o jornalismo de atualidades. 

Ainda é um início de uma nova era, de um novo movimento, mas ele já existe. E até mesmo tradicionais anunciantes estão descobrindo as vantagens do mundo digital. O Jornal da Região e o Jundiaí Notícias são híbridos, com edições impressas e forte presença na Internet. 

Mesmo o combalido Jornal de Jundiaí busca forças nos meios digitais para sobreviver aos novos tempos. O Bom Dia, que por muito tempo conseguiu fazer um trabalho de qualidade, ficou pelo caminho. 

Eu tenho a comemorar a qualidade dos profissionais com quem trabalhei e trabalho hoje e os muitos bons jornalistas que a cidade formou. Quantos e quantos formados por aqui trabalharam ou trabalham ainda no que foi chamada a grande imprensa, não é mesmo?

Aposto com vocês que muitos hoje, neste 7 de abril, fizeram como eu e outros colegas com que pude conversar: relembramos grandes histórias em que estivemos metidos. Grandes fatos que estávamos presentes. Pra mim é inesquecível o 11 de setembro na redação de O Estado de S. Paulo quando, pouco antes da reunião de pauta, soubemos do ataque às Torres Gêmeas. 

Mas foram muitas pautas, muito café, muita adrenalina. 

Com certeza, tenho grandes motivos para comemorar esse dia. Um dia também para lembrar gente que dedicou a vida à profissão, como o amável Picôco Bárbaro, e tantos outros. 

O que precisamos, minha cara Hanaí, é nos lembrar de quem somos. E o quanto somos importantes na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. 

Sei que não é fácil para muitos de nós desprezados por patrões inescrupulosos, por governantes corruptos, por um mercado prostituído, manter a cabeça erguida. Nâo é mesmo. Digo por mim, porque sei muito bem das dificuldades, senti e sinto na pele.

Mas não podemos nos esquecer do nosso valor enquanto guardiões da liberdade. Sem a gente, meus caros, o senso crítico estaria morto. E os menos favorecidos nunca teriam voz.

Eu comemoro estarmos aqui na luta ainda. E trazendo com a gente uma nova geração, pois essa coisa de jornalismo está na veia de muitos bons jovens talentosos. Por isso, não morrerá jamais.

Neste Dia do Jornalista, comemoro estar escrevendo este texto no Oa, mais um espaço de livre expressão nesta cidade. Comemoro junto com vocês colegas jornalistas, parceiros da caminhada.

E proponho que a gente se una mais. Que a gente se respeite enquanto batalhadores que somos. Estamos aqui, camaradas. Continuamos aqui. E juntos, com certeza, somos mais fortes. Todos nós que fazemos a imprensa desta cidade.

Longa vida ao jornalismo. Longa vida aos jornalistas.