Dom Vicente e as reformas: “Devemos convocar os cristãos de boa vontade”

Por Fabiane Bernardi Na manhã desta quarta-feira (17), no anfiteatro da Cúria Diocesana de Jundiaí, acontece a roda de conversa sobre os "Impactos das Reformas Trabalhista, Previdenciária e Terceirização na Vida dos Aposentados, Pensionistas, Trabalhadores e da Sociedade". Ali estarão representantes da Diocese de Jundiaí, Cáritas Diocesana e o Movimento InterSindical Unificado de Jundiaí e Região, que falarão para agentes de pastorais sociais, lideranças comunitárias e sindicais, e organizações da sociedade civil em geral. Boa oportunidade para saber mais sobre esse momento pelo qual o País atravessa e entender o perigo que isso representa na vida de todos. Vale pontuar aqui que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) vem se posicionamento duramente contra as reformas propostas pelo governo Temer, divulgando não só comunicados e notas oficiais, mas também alinhando seu discurso junto a todo o clero. O bispo diocesano, Dom Vicente Costa,  falou sobre o assunto para o Oa. De uns tempos pra cá, a Igreja vem se posicionando mais fortemente contra as práticas e políticas públicas abusivas, sempre em defesa dos menos favorecidos. Por que só agora essa voz vem falando mais alto? A Igreja foi fundada por Jesus para continuar o seu projeto iniciado em seus três anos de ministério. Ele veio com a frase célebre - que talvez resume todo o seu programa (sim, porque Jesus tinha um programa, um projeto de vida): "Eu vim para que todos tenham Vida, e Vida em abundância, Vida plena" (João 10:10). Ou seja, o cristão é o orar, o celebrar, ir em procissão, é conter o comodismo, tudo isto é importante desde que esteja em função do amor. Não adianta a gente celebrar e participar da Igreja se a gente esquecer dos mais pobres, dos carentes, dos miseráveis. Nessa parte, o Papa Francisco tem contribuído enormemente para despertar o mundo para essa questão, que já estava presente desde o começo da Igreja. Mas, vamos falar a verdade, houve um momento da cristandade que isso diminuiu, que se valorizou o exterior, a pompa...Enfim, momentos bons, menos bons. A Igreja precisa cada vez mais formar-se e converter-se para estar mais fiel ao projeto de Deus, que é vida pra todos. O evangelista Mateus, no Último Juízo ( Mateus 25), disse que seremos julgados não pelas missas, pelas orações: "Eu estava presente no pobre, no enfermo, no preso e você Me ajudou, você Me reconheceu presente naquela pessoa carente". Então a Igreja não pode lavar as mãos diante das injustiças, de momentos gritantes de pobreza. Mas veja bem, a Igreja não é técnica, não faz Política, não é uma questão de ideologia ou de partido. Ela faz sim política com P minúsculo, visando o bem comum. E se não faz ouvir a sua voz, deixa de ser a igreja de Jesus. Recentemente, a CNBB se posicionou contra o foro privilegiado, as propostas da Reforma Trabalhista, da Previdência... Isso mesmo. A Igreja aconselha, aponta, adverte, contribui, mas não propõe a forma técnica. Por isso que digo que não faz Política. Sobre a questão do foro privilegiado, a Igreja entende que muitos se escondem para receber uma isenção de suas responsabilidades. E sobre as reformas? Amós (5:7), no Antigo Testamento, diz assim: "Ai daqueles que não respeitam o direito e a justiça".  A Igreja reconhece a importância de uma reforma, entendemos que se não forem tomar medidas necessárias, em poucos anos o sistema previdenciário vai cada vez mais onerar os que trabalham, de maneira que não vai ter uma solução, e daqui 20, 30 anos, vai se pagar mais do que recebe. Então a Igreja entende que deve sim haver uma reforma, só que deve haver um julgamento, uma avaliação muito severa sobre essa dívida. E de onde ela vem? Da classe mais pobre, dos operários ou de grandes empresas e multinacionais que devem muito ao governo? Por isso deve haver primeiro uma auditoria para saber melhor sobre esses dados conflitantes relacionado à dívida da Previdência, inclusive, envolvendo membros do próprio governo. Essa é uma questão que mexe com a vida da população e tem uma matriz ética porque diz respeito aos direitos dos pobres, dos que trabalharam a vida toda. E por ser tão importante, não pode ser uma reforma apressada, sem ouvir outras opiniões. E de que forma a Igreja pode contribuir para que essa questão seja debatida ? Devemos convocar os cristãos de boa vontade nas comunidades a se mobilizarem ao redor da atual reforma da previdência, a fim de buscar o melhor para nosso povo, principalmente os mais fragilizados. Podemos marcar reuniões e debates entre membros da Igreja, sindicatos - temos aqui no Brasil sindicatos bem organizados, gente que tem uma forte argumentação pois vive isso no dia a dia - e principalmente com pessoas ligadas às pastorais sociais (do trabalho, da criança, do idoso, carcerária, da mulher, etc), entender do que se trata, talvez fazer algum gesto concreto, um aprofundamento sobre o assunto. Não há um risco, um perigo pra a Igreja transitar por esse cenário político cheio de egos, partidos, posições... Se a igreja não fala, ela se omite. Basta lembrar do tempo da ditadura: a única voz que se levantava contra o poder militar era a Igreja. Não podemos nos esquecer que a Igreja não pode deixar de ser profética, tem que anunciar e denunciar: anunciar o Evangelho, mas denunciar tudo aquilo que for contra o Evangelho. Então eu não vejo nada de partidarismo, de ideologismo, nada de querer fazer oposição ao governo com nisso. Mas sim uma forma de contribuir para a justiça, para o bem comum, para construirmos juntos uma sociedade mais justa e mais solidária.