Furacão da Lava Jato “derruba” Michel Temer e Aécio Neves

Com provas inéditas realizadas em abril deste ano como gravações de conversas, mochilas rastreadas com chips e notas de dinheiro numeradas, a Operação Lava Jato registrou supostas ações ilegais do presidente interino da República, Michel Temer, e senadores como o líder tucano Aécio Neves.

Uma das gravações, divulgadas pelo jornal O Globo desta quarta-feira (17), foi supostamente feita na noite do dia 7 de março pelo empresário Joesley Batista (do Grupo JBS) na residência do presidente interino, o Palácio do Jaburu. Nela, ele dizia que estava dando uma “mesada” ao deputado cassado e preso Eduardo Cunha (PMDB) e ao doleiro Lúcio Funaro para que ambos não falassem nada que prejudicasse o governo. Temer teria dito então na gravação que “tem que manter isso, viu”.

Em outra gravação, o senador Aécio Neves (segundo colocado na eleição presidencial em 2014 e presidente nacional do PSDB) teria solicitado ao empresário um valor de R$ 2 milhões e o valor foi repassado para um primo, em cena gravada pela Polícia Federal. Posteriormente, o dinheiro marcado teria sido depositado em uma conta de outro senador mineiro Zezé Perrela (PSDB), cuja família é proprietária de um helicóptero retido em 2013 acusado de uso por terceiros para tráfico.  

Os políticos citados negam o envolvimento.

Mas o episódio acendeu a oposição em Brasília, incluindo pedidos de mais um impeachment como de Alessandro Molon (Rede) na Câmara dos Deputados.  

Esse é o momento mais extremo do primeiro ano do governo interino depois do impeachment de Dilma Rousseff em 12 de maio de 2016.

Sobre os demais partidos a delação da JBS coloca diretamente o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega (PT), como o contato do empresário com seu partido.  

OAB – A Ordem dos Advogados do Brasil divulgou nota oficial às 20h56 classificando como “estarrecedores, repugnantes e gravíssimos os fatos noticiados a respeito da obstrução da Justiça praticada pelo presidente da República e de recebimento de dinheiro por parte dos senadores Aécio Neves e Zezé Parrela”.

A nota também afirma que a sociedade precisa de respostas e esclarecimentos imediatos. “As cidadãs e cidadãos brasileiros não suportam mais conviver com dúvidas a respeito de seus representantes”, acrescenta.  

E finaliza que, por esse motivo, as gravações citadas precisam ser tornadas pública na íntegra, o mais rapidamente possível, e a apuração dos fatos ser feita com celeridade dando aos acusados o direito à ampla defesa e à sociedade a segurança de que “a Justiça vale para todos, independentemente do cargo ocupado”.

Mais envolvidos – De acordo com a repercussão feita em rede nacional de tevê no Jornal Nacional (do mesmo grupo do jornal impresso), o presidente indicou o deputado paranaense Rodrigo Rocha Loures (PMDB) para resolver uma pendência da empresa e posteriormente esse parlamentar acabou sendo filmado recebendo uma mochila com R$ 500 mil.

Tudo teria acontecido, segundo as gravações, há apenas dois meses mesmo com toda a amplitude da Operação Lava Jato desde 2014. As gravações da Polícia Federal, dentro de ação coordenada pela Procuradoria Geral da República, filmaram também a entrega de dinheiro ao primo de Aécio, que levou à identificação da conta do outro senador.

Notas de defesa – A página eletrônica do PSDB divulgou nota de Aécio Neves afirmando estar “absolutamente tranquilo” e que “aguarda acesso às informações para prestar todos os esclarecimentos necessários”. Em nota divulgada pela imprensa, o presidente Michel Temer afirma “jamais solicitou pagamentos para obter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha” e que defende “uma profunda investigação”.

Já a página eletrônica do PT não divulgou nenhuma nota de defesa do ex-ministro Guido Mantega, preferindo focalizar em assuntos como o primeiro ano de “retrocessos do governo golpista”.

Congresso suspende sessão – Em Brasília, a situação provocou uma situação de caos. A Câmara dos Deputados registrou em seu próprio portal o encerramento da sessão extraordinária desta quarta-feira (17) após “um tumulto generalizado no plenário” causado pela divulgação das denúncias no início da noite.

Os depoimentos feitos à Procuradoria Geral pelos empresários da JBS, frigorífico que faz parte do maior grupo de proteína animal do país, já foram também confirmados ao juiz Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).

Além do pedido de impeachment do presidente Michel Temer feito por Molon, deputados da oposição também pediram no Salão Verde da Câmara sua renúncia imediata e a convocação de eleições diretas para a Presidência.  

No Senado, a reunião noturna da oposição sobre um novo pedido de impeachment foi anunciada por Lindbergh Farias (PT) e Vanessa Graziotin (PCdoB), sendo criticados pelos senadores governistas Magno Malta (PR) e José Medeiros (PSD), conforme registro do portal da casa.  

À noite, parlamentares da maioria que forma a base de governo seguiram para reunião no Palácio do Planalto.

Internacional – Ainda na quarta-feira (17) a repercussão do caso já atingia outros países. O jornal argentino El Clarín publicou às 21h10 uma notícia com o título “Corrupción em Brasil: graban a Michel Temer avalando el suborno a um aliado clave del gobierno”.