Acompanhei passo a passo quando, em junho de 2013, Glenn Greenwald publicou as denúncias de Edward Snowden, revelando a existência dos programas secretos de vigilância global dos Estados Unidos, efetuados pela sua Agência de Segurança Nacional.

Um trabalho meticuloso que deixou às claras os métodos e o poder de invasão dos sistemas de inteligência norte-americanos.

Uma das muitas revelações do trabalho foi que o governo dos Estados Unidos espionava não só os principais ministérios brasileiros, especialmente o de Minas e Energia, mas também a própria presidente da República, Dilma Rousseff.

As revelações azedaram as relações Brasil-Estados Unidos por mais de um ano. No livro de Glen Greenwald, Sem Lugar para se Esconder, os Estados Unidos colocam o Brasil na lista dos amigos mas nem tanto, segundo as informações reveladas por Snowden.

A reportagem de Grenwald ganhou o Prêmio Pulitzer de jornalismo em 2014 e, no Brasil foi agraciado com o Prêmio Esso de Reportagem, por artigos publicados em O Globo.

Três anos depois, o Brasil vivendo uma ruptura institucional e uma incerteza quanto ao futuro da sua frágil democracia, Greenwald, que mora no Rio de Janeiro, lança a versão em português de seu respeitado site The Intercept.

O The Intercept tem tido um papel fundamental no esclarecimento da situação brasileira para o o mundo. Seus artigos em português e inglês são respeitados e lidos no Brasil e no exterior e Greenwald se tornou figura conhecida e respeitada também no Brasil.

Em artigo publicado nesta terça-feira, 2, na primeira edição do The Intercept em português, Greenwald explica a decisão de entrar no mercado brasileiro.

O Artigo

“Quando começamos a escrever sobre a crise política que assolou o Brasil, não tínhamos a menor ideia do impacto que isso geraria. Mas a reação foi extraordinária”.

“Nossos artigos sobre o Brasil (em inglês e português) têm aparecido entre as matérias mais lidas do The Intercept com frequência e nosso público tem crescido rapidamente”.

“Ficou claro para nós que há um enorme apetite por formas alternativas de jornalismo no país”.

“Há muito tempo, o quinto país mais populoso do mundo é dominado por um número reduzido de veículos de comunicação, dos quais a grande maioria apoiou o golpe de 1964 e os 21 anos da violenta ditadura de direita que se seguiram. Essas instituições ainda pertencem às mesmas cinco famílias extremamente ricas e poderosas que tiveram um papel central nesse período.

“Em um país de tamanha diversidade e pluralidade, esse monopólio resultou em um mercado de comunicação que asfixia a diversidade e a pluralidade de opiniões”.

“Acreditamos que a sede por um jornalismo mais independente, pluralístico e destemido vai além da crise política pela qual passa o país”.

“Ao simplesmente ignorar grande parte da população, os grandes veículos de comunicação brasileiros mascaram os principais desafios sociais e econômicos presentes, assim como a diversidade de opiniões e movimentos existentes no país”.

“No fim de abril, a organização Repórteres Sem Fronteiras publicou seu ranking anual de liberdade de imprensa e o Brasil caiu para a 104ª posição, em parte devido à propriedade dos meios de comunicação continuar concentrada nas mãos de famílias dominantes vinculadas à classe política.”

“Mais especificamente, o grupo observou que de forma pouco velada, a mídia nacional dominante encorajou o povo a ajudar a derrubar a Presidente Dilma Rousseff e os jornalistas que trabalham nesses grupos midiáticos estão evidentemente sujeitos à influência de interesses privados e partidários, e esses conflitos de interesse permanentes são obviamente prejudiciais à qualidade do jornalismo produzido.”

“Embora o Brasil desfrute de um dos conjuntos de jornalistas independentes e blogueiros mais dinâmicos e talentosos do mundo, eles normalmente enfrentam uma carência no apoio institucional necessário para que se atinja um impacto social amplo”.

“Com o intuito de ajudar a preencher essa lacuna, anunciamos o lançamento do The Intercept Brasil. Para este projeto piloto, reunimos uma excelente equipe de jornalistas e editores brasileiros que produzirão matérias originais sobre as questões políticas, econômicas, sociais e culturais a serem publicadas na versão em português de nosso site”.

“Também trabalharemos com jornalistas freelance de destaque e outros veículos independentes”.

“Além disso, vamos traduzir nossos artigos de interesse internacional para o inglês, além de publicar outras traduções de matérias do Intercept em português. Siga-nos no Facebook (aqui) e no Twitter (aqui)”.

“Neste mês, nosso foco inicial será o julgamento e a votação final do impeachment da Presidente Dilma Rousseff no Senado Federal, assim como matérias sobre os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro”.

“Além da publicação de conteúdo original, vamos implementar os mesmos princípios de proteção de fontes que ocupam um espaço central na missão do Intercept”.

“As mesmas tecnologias adotadas para que nossas fontes forneçam informações confidenciais contando com a máxima proteção contra vigilância e ataques on-line (como o SecureDrop) também serão disponibilizadas para nossas fontes de informação brasileiras”.

“Os interessados em fornecer material para nossos jornalistas no Brasil em sigilo podem começar através deste guia”.

“A crise política do ano passado enfatizou como a homogeneidade da mídia brasileira é uma ameaça à democracia e à liberdade de imprensa”.

“Por ser um país vasto e diversificado, o Brasil agora ocupa um espaço importante no cenário internacional, e a maioria de seus problemas e conflitos são extremamente relevantes no âmbito internacional”.

“Assim, o Intercept Brasil tem dois objetivos: alavancar o reconhecimento deste país imprescindível por todo o mundo e fornecer uma plataforma para que os excelentes jornalistas e escritores brasileiros compartilhem informações essenciais com seus compatriotas sobre as questões políticas, econômicas e sociais de seu país”.

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