Hospital São Vicente repete sua crise de excesso de demanda

Quando o então prefeito Ary Fossen desapropriou a Casa de Saúde Dr. Domingos Anastácio, em 2008, ele já conhecia o problema do excesso de demanda regional e até interestadual do Hospital de Caridade São Vicente de Paulo.

Mas foram necessários mais seis longos anos para a inauguração do Hospital Regional pelo governador Geraldo Alckmin, em 2014, e a conta ainda seguiu aberta pela morosidade de seu funcionamento ainda incompleto.

O resultado é uma nova crise. Não é um caso simplório de apontar culpados.

O Hospital de Caridade São Vicente de Paulo surgiu na década de 1900, em iniciativa dos vicentinos, quase na mesma época que o Fratellanza Italiana (depois Casa de Saúde), em iniciativa dos imigrantes.

Quase no final do século XX a cidade de Jundiaí contava ainda com leitos púbicos no Hospital Maternidade Jundiaí, no Hospital do Sesi, no Hospital dos Imigrantes e talvez alguns no Hospital Santa Rita de Cássia e no Hospital Paulo Sacramento.

Sem um hospital público próprio, a cidade viu essa rede ser reduzida ao Hospital São Vicente, especializado em urgência, emergência, cardiologia, oncologia e ortopedia, e mais o Hospital Universitário (que ocupou o antigo Santa Rita), ligado à Faculdade de Medicina e voltado para pediatria e maternidade.

Podemos contar no legado de Ary o Hospital Regional (ocupando a antiga Casa de Saúde), mas ainda sem grandes números de intervenções.

A população cresceu e a rede hospitalar pública diminuiu. Pode valorizar a rede privada, mas é péssimo para a maioria que utiliza o sistema. E ruim também para a municipalidade de Jundiaí, que investe pelo menos 110 milhões de reais por ano apenas no centenário São Vicente – e não é mais suficiente.

A qualidade do hospital e de seus profissionais é indiscutível, sendo testemunhada por milhares de jundiaienses que já tiveram sua vida salva por ele. Mas isso também torna comum ver ambulâncias ou microônibus de cidades distantes (até de Minas Gerais) nas proximidades. Por tudo isso, recebe poucos repasses do Estado de São Paulo e um percentual minoritário do Governo Federal.

Em 2013, uma das primeiras providências da Prefeitura foi criar o primeiro PA Central 24 Horas para desafogar o pronto socorro e, de quebra, salvar a fachada original da Fratellanza que estava em planos de ser demolida para estacionamento.

Em seguida, o projeto de um novo hospital de 12 andares na cidade administrativa (ao lado da DAE) foi encomendado e começaram a ser aprovadas e depois construídas as quatro unidades de pronto atendimento (UPAs) que iriam assumir os casos de baixa e média complexidade.

A crise econômica e política do Brasil atrasou ou suspendeu os prazos.

O cenário era realista, tanto que o Hospital São Vicente está suspendendo preventivamente todas as cirurgias eletivas (que já deveriam estar no Regional) e reduzindo a equipe do PA Central para garantir as emergências do pronto socorro e a alta complexidade (pois as baixas e médias complexidades já deveriam estar nas UPAs).

A crise brasileira de financiamento da saúde, que envolve também o desvio de milhões de reais para os mandados judiciais, chegou novamente a Jundiaí. A cidade não tem um hospital público próprio e os vicentinos não recebem apoio do programa Santa Casa Sustentável ou outras linhas estaduais e federais que deveriam estar presentes.

A verdade é que os jundiaienses pagam pelo atendimento a outras cidades e estados. Ponto.

Como se não bastassem a redução da rede pública (pergunte a quem vive na cidade há mais de trinta anos), a falta de mais recursos estaduais e federais no hospital que atende pessoas de outras regiões ou os efeitos atuais desses custos no orçamento municipal da saúde como é o caso de sobrecarga nos “postinhos” da saúde básica, o hospital também funcionou nos últimos anos como uma OS (organização social) que acomodou de forma terceirizada com os vicentinos a ampliação de aspectos como agentes comunitários de saúde, dentistas e outros.

O prefeito Pedro Bigardi encerra o mandato nocauteado pela crise do país e dos acertos intergovernamentais que atrasou algumas soluções.

E o prefeito eleito Luiz Fernando Machado assume com o dilema de cortar políticas públicas de outras áreas também importantes para a cidade para tapar o buraco criado por pessoas de fora da cidade que o Hospital São Vicente é obrigado legalmente a atender.

Não há emergência maior para qualquer pessoa do que uma doença em si mesma ou na família. Mas vai ser preciso bom senso para tratar do assunto sem aumentar o buraco em vez de começar efetivamente a reduzi-lo.

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