Maria de Aparecida: negra e sexuada, afronta o catolicismo conservador romano

Por Mauro Lopes

Vamos despir Maria, a Nossa Senhora Aparecida, de seu manto azul? Examinemos a imagem original, encontrada no Rio Paraíba há 300 anos, antes do atentado de 1978, que espatifou sua cabeça e partiu-lhe o corpo em pedaços. Que imagem revela-se a nós? Uma mulher negra, cheia de curvas, toda enfeitada, com um olhar sem culpas, uma boca que se entreabre num sorriso nada “angelical”.

A imagem de Aparecida é como a de outras representações de Maria na América Latina, uma figura apropriada pelo povo, pela religiosidade popular, que afronta e confronta o catolicismo romano marcado pela rigidez e distanciamento.  A imagem original, portuguesa barroca, ao ficar na lama do rio agregou às ousadias do escultor (as formas e o riso) a negritude, que se acentuou com a fuligem das velas ao redor ao longo do anos.

Quem é Maria? Você não pode deixar de assistir o documentário Marias, a fé do feminino, de 2016, dirigido por Joana Mariani. Ela escavou fundo na devoção popular às padroeiras de quatro países da região, a Maria de Aparecida, de Guadalupe (México), das Mercês (Peru), do Cobre (Cuba) e La Puríssima (Nicarágua).

A resposta sobre Maria aparece no depoimento de uma mulher do povo, devota da Nessa Senhora Aparecida, logo na abertura do trailer do filme; com sua fala, ela derruba todo o império dogmático e esvaziado de sentido sobre a mãe de Jesus: “Maria somos todas nós. Maria é essa mulher que tá no morro, que tem seus filhos, o marido abandona e ela cria esses filhos. E ela vai buscar outro parceiro. E ela tem o sorriso”.

Veja o trailer e se puder  todo o documentário, que está disponível no Netflix ou no YouTube (é baratinho, R$ 3,90 –aqui o link).

O que se aprendeu sobre Maria, a partir do pensamento conservador católico? Que ela é “pura” (branca), sempre virgem, entronizada nos altares (portanto, distante das pessoas), condescendente e recolhida em sua castidade, trancada em casa, absorta em seu silêncio e ensimesmamento.

Toda essa construção é uma deturpação da originalidade do cristianismo. Vai-se ao Novo Testamento e lá está Maria pé na estrada para socorrer a prima Isabel e proclamar a vitória dos pobres e a derrota dos ricos, nas festas com Jesus e sua turma (as famosas bodas de Caná), pelas estradas com o grupo de discípulos, confrontando o Império Romano aos pés da cruz, inserida na primeira comunidade cristã.

Uma pedra fundamental no edifício conservador que buscou sequestrar Maria do povo é o mito sobre sua virgindade. Escrevi sobre isso recentemente (aqui).  A ideia de que Jesus teria nascido sem que sua mãe tivesse feito sexo com um homem contradiz o pilar fundamental do cristianismo, segundo a qual Jesus é totalmente Deus e totalmente homem.  Este pilar foi assentado no Concílio de Calcedônia, em 451. Os padres conciliares afirmaram textualmente: “Devemos confessar que nosso Senhor Jesus Cristo é um único e o mesmo Filho (…) perfeito na divindade (…) perfeito na humanidade”.

Ora, como é possível que alguém totalmente humano possa nascer fora do universo das relações humanas? A tese da virgindade eterna de Maria, que ganhou força mil anos depois de Calcedônia, para contrapor-se à Reforma, é um absurdo completo e aproximou o catolicismo do paganismo e da mitologia grega. Jesus seria alguém como Afrodite, gerada da espuma do mar. A ortodoxia cristã afirma que Jesus revelou o máximo de sua divindade em sua humanidade integral. A fé da Igreja afirma que Jesus era em tudo humano, exceto no pecado –a dogmática conservadora, com a tese da virgindade de Maria, buscou tornar a relação sexual, o prazer e o gozo em “pecados”, para melhor controlar o povo.

Mas Maria, na América Latina, desceu dos altares em que foi aprisionada pelo conservadorismo para misturar-se e andar no meio do povo. É a Maria de Aparecida negra, cheia de curvas, sorridente, enfeitada que chega aos seus 300 anos. Mas nem sempre foi assim. O conservadorismo católico de fundo racista, a serviço da elite escravocrata brasileira,  tentou embranquecer Maria de Aparecida durante séculos.

Veja as imagens de Nossa Senhora Aparecida do final do século XIX e da primeira metade do século XX logo abaixo. Branquinha!

À esquerda, a primeira estampa oficial da imagem de N. S. Aparecida, impressa na França em 1854; ao centro, a primeira estampa oficial em formato de cromo, que sugere sua difusão em maior escala; à direita, detalhe de cartaz de 1929. Vale a pena ler o livro de Lourival dos Santos (O enegrecimento da Padroeira do Brasil: religião, racismo e identidade -1854-2004), cuja versão digital está disponível aqui e de quem tomei as imagens acima.

Há uma construção do embranquecimento e depois do enegrecimento de Nossa Senhora de Aparecida. Mesmo depois de ser reconhecida como negra pelo catolicismo rigorista, a partir dos anos de 1970, em especial depois da restauração da imagem destroçada em 1978, a cor de sua pela continuou um tabu, um detalhe, um instrumento da tese do Brasil “miscigenado” e “cordial” e ignorada nos hinos, na liturgia. Lourival dos Santos atesta: “Foi apenas sob os auspícios da teologia da libertação que a padroeira enegreceu definitivamente nos cânticos e invocações” (p 19).

Foi a teologia latino-americana em seu mergulho na vida, em seu projeto de inculturação, em sua sensibilidade ao catolicismo popular, que resgatou para o interior das formulações conceituais a Maria branquinha e assexuada dos altares conservadores.

É a Maria de Aparecida negra, cheia de graça, plena de raça, de luta, de sexualidade e desejo de vida abundante que chega aos 300 anos.

Ave Maria, Axé padroeira dos pobres do Brasil!

Mauro Lopes é editor do blog Caminho Pra Casa