Miguel Haddad em quatro tempos. Uma radiografia

O prefeito Miguel Haddad deixa o cargo neste 31 de Dezembro como o único a ocupar o lugar por três vezes. Desde que foi eleito pela primeira vez em 1996, Jundiaí passou por uma transformação que a colocou entre as principais cidades do País.

Em uma longa entrevista em seu gabinete no 8º andar do Paço Municipal, Haddad detalhou os quatro mais polêmicos temas de suas gestões (e das gestões tucanas como um todo): a delicada situação da saúde no município, os problemas da mobilidade urbana, as acusações de ter beneficiado do setor imobiliário em detrimento da qualidade de vida e os excessivos gastos de comunicação — incluindo aí sua relação com a imprensa.

Qual a principal marca de sua gestão?

“Olha, é difícil você dizer uma marca. Mas algumas coisas são perceptíveis. Jundiaí foi a cidade que mais se desenvolveu nos últimos 15 a 20 anos no Estado de São Paulo. E desenvolvimento econômico e de qualidade de vida”.

Ele reforça:

“Desenvolvimento econômico, qualidade de vida e avanços na questão ambiental”.

Para Miguel Haddad, Jundiaí tem hoje a Serra do Japi presevada, água garantida para os próximos 20, 30 anos (“dependendo da conta que você queira fazer”).

“Uma cidade que aumenta cada vez mais a taxa de arborização, os parques. E somos uma cidade que estamos muito próximo de não ter nenhum barraco, nenhuma favela. Atendemos a população que mais precisa. Se você olhar, 99% das nossas obras estão nos bairros”.

A entrevista

Para facilitar, dividimos a entrevista com Haddad em quatro blocos: saúde; mobilidade; meio ambiente e ambiente urbano; e comunicação.

1. Haddad: “Sistema de Saúde precisa melhorar muito”

A situação da Saúde no município foi um dos principais alvos dos adversários de Miguel Haddad durante sua última gestão como prefeito.

Haddad reconhece que o sistema de saúde precisa melhorar muito, mas lembra que se for comparado com outras cidades, a saúde de Jundiaí é uma das melhores do País.

Na entrevista, o prefeito reconhece que é preciso fazer mais, reclama da falta de reajuste da tarifa SUS e lembra que 50% do atendimento do hospital São Vicente de Paulo são de pessoas que não moram na cidade.

Onde aconteceu o nó da Saúde na cidade? Por que sua administração recebeu tantas críticas nesse ponto?

É preciso contextualizar isso um pouco mais. Se você fizer um comparativo, o nosso sistema de Saúde Pública é um dos melhores do Brasil.

Mas há temas que a solução não é local. Você tem sim o investimento local, a gestão local e o empenho local, mas você sofre uma influência regional e às vezes até de fora do Estado.

É o caso da Saúde.

Como assim?

Se você for hoje no hospital São Vicente, eu afirmaria que quase 50% dos atendidos não são de Jundiaí. O nosso índice é de 35%, mas se você fizer uma sintonia fina maior vai ver que existem pelo mais uns 15% que dão o endereço de Jundiaí, mas não são de Jundiaí.

Então, nós recebemos muita gente. E não estou falando da região, estou falando de pessoas do Estado de São Paulo e de fora do Estado. Atendemos pessoas de Minas, do Paraná, do Mato Grosso. Isso é muito comum. O que estou dizendo não é algo incomum.

Mas qual a razão dessa migração para o São Vicente?

É que quanto melhor o hospital maior a demanda. Porque a grande maioria das cidades do Brasil não tem um sistema de saúde.

Isso acontece também quando se fala das cidades da região? Quais?

Estou falando de Várzea e Campo Limpo, por exemplo.

Não têm sistema de Saúde. Nós somos referência.

E o que faltou, então, para se fazer o Hospital Regional?

O Hospital Regional é uma decisão do Governo do Estado. Não é uma decisão do município. Então, o governo do Estado avalia a demanda do estado como um todo.

Olha, nós tivemos uma conquista importante, que foi o AME (Ambulatório de Especialidades Médicas), que é um conceito moderno de saúde. É um conceito inteligente onde você tem uma resolutividade muito melhor. Porque você passa pelo especialista e pequenos exames você já faz no mesmo local e no mesmo instante.

No mesmo lugar?

É no mesmo lugar. Isso evita o ping-pong. É uma solução inteligente. Você passa menos vezes pelo médico. A implantação do AME foi uma conquista importante.

Qual o investimento?

Nós investimos cerca de R$ 10 milhões do município na implantação do AME. Com ar condicionado, acesso para pessoa deficiente, entre outras exigências. O AME tem um pouco do conceito do Poupa-Tempo. É um Poupa-Tempo da saúde.

E aí você o Hospital Regional que foi uma conquista importante.

Mas por que ele não saiu durante a sua gestão?

Por que quando o Ary (ex-prefeito Ary Fossen) desapropriou o hospital houve uma ação da Unimed, o que exigiu um tempo de discussão jurídica, algo que nós não temos controle.

Quando eu desapropriei o HU (Hospital Universitário) nós tivemos uma discussão jurídica porque a instituição não concordou com a nossa avaliação e ficou uma discussão. A ponto de eu chamá-los e dizer: aceitem o nosso valor, nos dêem a posse e vamos continuar discutindo a diferença. E eles fizeram isso.

Estou dizendo isso porque nós temos uma tramitação oficial. Não há como fazer acordos.

Então, a Unimed entrou com uma ação na época e isso foi protelando o processo.

Isso foi na gestão de Ary Fossen?

Sim. Então, nós tivemos que fazer um acordo com o Governo do Estado. Quando eu assumi estive em contato com o governo do Estado buscando um acordo. Qual era a parte de cada um. O compromisso da reforma da instalação e da manutenção tinha que ser do Estado, não podia ser feita por nós. E foi isso que eu discuti com o Estado.

E ficou um jogo de empurra?

É. E aí nós conseguimos que o Estado fizesse tudo. Daqui um ano, um ano e meio, nós vamos ter um hospital novo.

Mas voltando ao São Vicente…

Quando você olha o sistema público de saúde como um todo — eu posso dizer, o São Vicente é um hospital superlotado, mas ele é um hospital confiável. Tem instalações, equipamentos, UTIs. Quem usa o São Vicente dá nota maior para o hospital do que quem não usa.

Eu não ouvi nas discussões a respeito da Saúde algo que diga que o São Vicente é um hospital ruim.

É um hospital lotado. E por que ele é lotado? Porque as pessoas querem ser atendidas no São Vicente. E vem pessoas de outros locais que não deveriam ser responsabilidade nossa. Mas que você não tem como deixar de atender.

Mas além da questão do São Vicente, as pessoas se queixam de demora no atendimento nas Unidades Básicas de Saúde. O que isso tem a ver com essa situação?

Hoje a Constituição exige 15% de investimento na área de saúde. Nós estamos na casa de quase 25%. Uma grande parte dos nossos recursos vão para os hospitais, até porque Jundiaí é uma das poucas cidades que tem dois hospitais públicos municipais.

Nós temos hoje três vezes mais unidades básicas de saúde do que recomenda a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde.

É isso mesmo?

Eles recomendam uma a cada 30 mil habitantes e nós temos uma a cada 10 mil habitantes. Agora, a unidade não é um pronto-socorro. É um lugar onde você marca consulta com antecipação, com previsão.

Mas as pessoas reclamam da demora na marcação das consultas.

Aí você tem os PAs, que são os pronto atendimento. Esse sim está entre o hospital e a unidade básica de saúde.

O que nós temos hoje é que algumas especialidades encontram uma dificuldade maior de contratação. Por exemplo, neurologista. Quando você abre um concurso temos dificuldade para contratar. Mas nós temos aberto concursos para tentar suplantar essas demandas.

Foi isso que pegou?

Eventualmente você tem a falta de alguma profissional, alguma especialidade. Sem que isso acontece nós fazemos mutirões. Teve uma época que fizemos mutirões de dermatologia.

Então a crítica da oposição não cabe?

Primeiro nós precisamos discutir o sistema de saúde no Brasil. Antigamente, daquilo que era investido em Jundiaí na área de saúde, dois terços vinham do Governo Federal. Essa lógica se inverteu porque cada vez mais o município tem posto recursos.

Se você perguntar se eu acho que o sistema de saúde de Jundiaí é de boa qualidade eu vou responder que ele precisa melhorar e muito. Agora, quando você compara o nosso sistema com qualquer outro município eu vou dizer que ele é um dos melhores do Brasil. São duas coisas distintas.

Que caminho o senhor recomenda para o próximo governo?

A criação de mais PAs (Pronto Atendimentos) é uma ação importante, alguns inclusive com horário ampliados.

O próprio hospital regional, que é uma boa solução, já está encaminhado; o AME também já está encaminhado. Não está ainda na sua plenitude porque faltam ainda profissionais porque o Governo do Estado tem tido dificuldades na contratação.

Que dificuldades são essas? Salário? Profissionais?

Não é uma questão de salário.

Mas com relação ao sistema de saúde como um todo, nós precisamos de mais profissionais, mais capacidade de atendimento rápido e mais PAs. E também uma política de reajuste da tabela SUS. Sabe há quantos anos a tabela SUS não é reajustada?

Não.

Há 17 anos. Teve assim reajustes pontuais, mas o reajuste geral não acontece desde 1994. Então o que acontece, a tabela SUS não paga o devido valor. É por isso que todo dia diminuem os leitos SUS no Brasil. Porque o valor que é pago é irreal.

É por isso que o Governo Federal tem que ter uma visão diferenciada. Porque o problema não está na construção, mas no custeio. A gestão precisa ser uma gestão muito competente. E é preciso ter a visão da Federação, porque as influências são regionais. Na hora do atendimento as pessoas vem de outros lugares para Jundiaí.

E a remuneração é feita pela tabela SUS…

Sim. E o custo fica para o município.

2. Haddad: “A opção é o transporte público”

Para o prefeito Miguel Haddad, a questão da mobilidade urbana só pode ser resolvida com investimentos em transporte público de qualidade, a exemplo que fazem hoje as principais cidades do mundo.

Na entrevista, concedida no 8º andar do Paço Municipal, o prefeito lembra que em 2004 a mobilidade não era uma questão relevante para cidades pequenas e médias.

Por que Jundiaí não evoluiu para uma cidade mais fácil de se andar? A cidade, por exemplo, tem o Vetor Oeste como pólo de crescimento, mas não tem uma avenida para chegar a esses bairros. Por que o senhor não projetou uma avenida para ligar esses lugares a Zona Central?

Você está falando de um tema que é nacional. Você consegue me apontar hoje uma cidade que não tenha problema de congestionamento?

Que eu conheça?

Então vamos pensar juntos.

Várzea Paulista, Campo Limpo, Itupeva, Louveira…

Talvez Jarinu, na região, seja a que menos tenha esse tipo de problema.

Não sei. Vá lá ver. De qualquer forma, era inimaginável que cidades pequenas e cidades médias tivessem problemas relacionados ao trânsito. Eu, quando deixei o governo em 2004, esse era um tema sem grande relevância.

Um dos pilares da economia do País hoje se sustenta na venda do automóvel.

Esse ano haverá um novo recorde de vendas de automóveis pelo visto.

Quando a economia vai mal, o governo dá algum estímulo para a venda de automóveis, como a redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), para que se venda mais carros.

Isso, sob um aspecto é positivo, porque as pessoas passam a ter acesso ao automóvel. Qualquer um tem acesso ao automóvel hoje, independente da sua renda salarial. Por outro lado, traz consigo uma política de desestímulo ao transporte coletivo.

Porque eu acho que a questão não é mais avenidas. A questão essencial é transporte público de qualidade. Quando você fala em avenidas, elas só se justificam se forem corredores de transporte público.

E é isso que a gente vinha trabalhando. Três cidades no Brasil vinham trabalhando com a possibilidade de você implantar o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que pode ser um mix. O VLT não substitui o transporte convencional.

Mas esse estudo é real? Eu gostei muito de ver o trem na praça, mas existe mesmo um projeto?

Santos saiu com o edital. O mesmo grupo que estava trabalhando conosco está trabalhando com Santos. Santos conseguiu saiu com o edital porque eles estavam na nossa frente.

O que acontece? Você tem que ter um transporte público de qualidade, que é um mix de VLT, Metrô, BRT (Bus Rapid Transport — ônibus que trafegam por corredores exclusivo) e o transporte convencional. É uma decisão técnica. Qual é melhor opção? Isso depende do tamanho da cidade.

Eu estive em Curitiba (que é modelo no Brasil) há pouco tempo e Curitiba tem congestionamentos. E é uma das cidades mais bem planejadas do País.

Mas lá você tem alguma opção de transporte melhor.

O BRT, que é um belo sistema de transporte, já não suporta a demanda. Tanto é que eles estão estudando associar também o Metrô. Por que? Porque é uma nova realidade. O BRT serviu durante muito tempo. Mas eles estão fazendo uma coisa que é absolutamente correta que é investir em transporte público.

Mas trazendo para Jundiaí. Há obras atrasadas, inclusive vias para rodar o transporte público. E também há uma falta de integração do transporte público.

Veja, quando nós instalamos o SITU (Sistema Integrado de Transporte Urbano), você tinha em Jundiaí duas linhas de ônibus só: do bairro ao centro e do centro ao bairro. Todos os ônibus convergiam para o Centro da cidade. A gente se esquece disso.

E qualquer conexão tinha que pagar outra passagem e necessariamente você tinha que passar pelo Centro da cidade.

Com o lançamento do SITU nós reduzimos a tarifa. Não o valor, mas o número de tarifas, e melhoramos a logística. Você imagine hoje, 10 anos depois, todo ônibus indo pro Centro da Cidade como estaria a cidade hoje.

Isso foi um investimento que foi realizado.

Quando se fala do VLT, do transporte público, nós não estamos falando só do veículo, mas de um conceito, que passa por terminais e avenidas e corredores exclusivos. Não é só o tipo de equipamento, tira o ônibus põe o bondinho. Não é isso. É um conceito.

E dentro desse conceito passam os terminais, as avenidas de acesso exclusivo e a convivência. Você pode compartilhar os mesmos espaços do VLT com os automóveis, só que com preferência para o VLT.

Então, o que senhor está dizendo é que há o problema da mobilidade do automóvel, mas que a cidade precisa pensar na mobllidade do transporte coletivo. É isso?

Temos que pensar na mobilidade coletiva.

Isso muda um pouco a cabeça jundiaiense, não é mesmo?

Mas você só consegue fazer com que a pessoa migre do automóvel para o transporte público se ele tiver qualidade. E o que é essa qualidade? É pontualidade, é limpeza, é conforto. Há uma série de itens que transformam o transporte público num transporte atraente.

Por que senão eu não vou deixar meu automóvel. Com uma gasolina subsidiada pela Petrobras, que está fechando a cada dia em déficit, e vou pegar transporte público que não tem conforto, que não tem pontualidade, que não tem limpeza?

Por que quando você vai para a Europa você anda com conforto no sistema de transporte público?

Porque não é preciso usar carro.

Porque o transporte público tem tudo aquilo que é desejável. E vai aonde você quiser.

E por que a gente não avançou mais aqui em Jundiaí? O senhor falou do SITU. O que faltou para avançar mais?

Esse é um estudo muito bem elaborado. Se você pegar os jornais de quando assumimos em 2009 nós ja discutíamos a implantação do VLT. Mas não é um projeto que você desenvolve em menos de quatro, cinco, seis anos. Até porque tem que ser muito bem feito.

Campinas implantou há muitos anos e fez o que? Fez um projeto rápido e foi lenta na implantação. O que aconteceu? Deu água. Por isso que o projeto tem que ser muito bem elaborado. É um investimento muito alto. O Governo Federal tem que estimular.

Uma cidade como Jundiaí, nós tivemos a felicidade de fazer um acordo com a CPTM (Companhia Paulista de Transporte Metropolitano) e desenvolvemos o projeto juntos, com apoio inclusive do próprio governo francês.

O Brasil quando pensa em mobilidade ele precisa pensar em transporte público. Se a gente pensar em mais avenidas, em mais ruas, em mais alargamentos, nós estamos fadados ao fracasso.

Mas existe alguns pontos críticos em termos de ampliação de avenidas. Por que a obra da ligação da Ponte São João demorou tanto para ser realizada. E ainda não está pronta?

Até março ela vai estar pronta.

Ela está no prazo?

Está no prazo. Até março termina. Agora, sabe quanto tempo nós ficamos para aprovar a obra só com a ANTT (Associação Nacional dos Transportes Terrestres)? Eu não gosto de falar isso porque senão a gente entra no campo da desculpa. Mas só com a ANTT e a ALL (América Latina Logística), que é da linha férrea, apresentando projetos para eles aprovarem? Dois anos. Não estou dando desculpa, até porque isso é obrigação nossa.

As obras ou estão prontas ou no caminho. É isso?

O que nós nos comprometemos nós fizemos. Quais eram os piores pontos de gargalo? A Avenida Jundiaí, que é do Governo do Estado, e a Ponte São João. Há outros? É lógico que há outros .

As alças da avenida 9 de Julho sobre a Anhnaguera.

Essa aí é a primeira obra. Você não pode fazer uma intervenção na avenida Jundiaí. Pra fazer a obra na Avenida Jundiaí é preciso ter uma outra opção. Por isso é preciso fazer primeiro as alças da 9 de Julho e aí faz a obra da avenida Jundiaí.

Porque você já imaginou fazer a obra na avenida Jundiaí sem ter uma outra opção? Então primeiro você interfere na 9 de Julho, depois na avenida Jundiaí, que é o ponto mais nevrálgico, é o mais delicado do sistema.

Mas nós fizemos intervenções. Nós aumentamos a 9 de Julho, fizemos pequenas intervenções que passam desapercebidas, mas que deram ótimas soluções, No Sesão, na senador Fonseca perto do Clube Jundiaiense, na Semis, uma terceira faixa, na Zacarias de Góes, alargamos e fizemos terceira faixa. Estou citando alguns casos que foram sendo feitos.

Pavimentamos corredores de ônibus, como foi o caso do Medeiros, o Varjão inteiro, hoje Novo Horizonte, foi todo ele pavimentado, um corredor de ônibus importante que dá velocidade ao sistema.

A própria José do Patrocínio que nós duplicamos e alargamos. Então houve obras. Pavimentação de corredores de ônibus porque nós damos preferência ao transporte público.

Transporte público de qualidade?

A opção no mundo todo é o transporte público de qualidade.

3. Haddad: “Minha família tem um sítio na Serra. Só”

Um dos pontos mais questionados da administração Miguel Haddad é seu suposto uso do cargo para beneficiar os investimentos imobiliários de sua família e outros grandes investidores jundiaienses.

Durante a campanha, foi acusado de ter desmatado uma área próxima da Serra do Japi para construir um condomínio industrial e ainda de ser proprietário de diversas áreas na Serra.

Na entrevista o prefeito nega. Diz que nunca privilegiou os negócios da família e que tem apenas um sítio na serra, comprado por seu pai há 40 anos.

Um ponto muito questionado durante a campanha eleitoral foi que em sua administração o senhor privilegiou mais a iniciativa privada, os empreendimentos imobiliários, em detrimento da qualidade de vida da população em geral. De onde surge isso?

De onde surge você precisa perguntar para quem cria.

Mas é algo que ouvi. Que o senhor privilegiou os seus negócios e o de outras famílias, especialmente do ramo imobiliário.

Mas me indique uma decisão onde eu tenha privilegiado os meus negócios.

Durante a campanha foi divulgada a foto de um terreno, do qual, segundo informações, o senhor é sócio, desmatado e próximo da zona de amortecimento da Serra do Japi.

O que eu privilegiei ali? Aquela área onde eu tenho participação sim. Aquela é uma área industrial há 30 anos e está na Zona Urbana. Nós adquirimos ela há uns sete ou oito anos quando ela já era área industrial.

Na verdade, a Serra está mais preservada do que há 15 anos atrás.

O senhor tem áreas na Serrra do Japi?

Eu tenho um sítio há 40 anos na Serra. Uma chácara. Mas veja (desenha no papel uma área de proteção no entorno da Serra) eu aqui em 2004 criei uma área de proteção. Porque a Zona Urbana vinha aqui (aponta) na divisa.

Mas há informações de que o senhor tem seis áreas na Serra.

Eu tenho um sítio que é da minha família. Meus pais tinham um sítio lá, como muita gente tem sítio na Serra. Que é todo mato e tem uma casa.

É que são várias matrículas, mas de uma área só.

A lei da Serra é intocável. Você sabe que na Serra você não pode fazer nada. Eu tenho um sítio na Serra. E não posso fazer nada. Não só eu como ninguém pode fazer nada. Aí nos ampliamos essa área de proteção.

Nós somos o único município (no entorno da Serra) que tem essa zona de amortecimento. E essa é a lei que se discute — dizem que estão invadindo. Fomos nós que criamos.

O senhor está dizendo: por que vou invadir uma área que eu mesmo protegi, é isso?

Exatamente. Se fomos nós que criamos essa área de proteção… Agora aqui (aponta o núcleo da Serra) é zero, não existe nada.

Mas e quando se fala que existem projetos de condomínio na Serra…

Me aponte onde está.

Há um desde a década de 70…

Mas esse eu não posso fazer nada. Eu posso responder por aquilo enquanto eu sou prefeito. Se tem condomínio por que ninguém denuncia? Se tem condomínio, me leve lá que quero ver.

Por que ningúem aponta e denuncia ao Ministério Público?

A Serra é um bem da sociedade. Ninguém, independente de lei, consegue fazer qualquer tipo de empreendimento na Serra. É uma questão do inconsciente coletivo mesmo.

E na questão do privilégio para a construção dentro da cidade?

Me aponte um. Onde eu tive privilégio de construção numa área minha? Sabe por que não apontam? Porque não tem. Isso se fala na cidade. Onde eu faço obra falam que eu tenho um imóvel. No Shopping novo, da 9 de julho, no condomínio em frente ao Parque da Cidade.

O senhor considera esse tipo de crítica injusta?

Eu não tenho dúvida

Mas e as alterações do Plano Diretor?

Nós, a cada modificação que fizemos do plano diretor nós reduzimos a ocupação e o aproveitamento. No mesmo terreno o que podia ser construído há 15 anos, você poderia hipoteticamente fazer cinco prédios

Por exemplo esses que forem feitos na rua do Retiro.

Isso. Hoje você não implanta nesse mesmo terreno 30% do que foi construído. E por que? Nós estamos restringindo.

Agora, é preciso ter o controle, o equilíbrio, pra também não transformar uma cidade numa cidade muito restritiva e com um custo muito alto. Porque uma cidade boa é aquela que é boa para todos, pra classe A,B,C, D e E.

Por isso a gente vai monitorando. Então, quando começa haver uma explosão (de empreendimentos) você reduz.

É o que aconteceu aqui?

Nós reduzimos. É lógico que aí você já tem projetos aprovados. Você vai sentir essa redução dentro de dois ou três anos.

Mas observe que todas as mudanças do Plano Diretor reduziram. Nenhuma aumentou.

Mas há os já aprovados.

Esse da rua do Retiro, por exemplo, eu não tenho certeza mas acho que foi aprovado na lei de 1986. Já estava aprovado. E naquela época, o empreendedor podia ir renovando a licença a cada dois anos e permanecer com o direito.

E hoje não pode?

Não pode mais. Nós já mudamos isso também.

Mas observe uma coisa, Jundiaí cresceu igual ao país em crescimento demográfico (segundo o IBGE). Foi a cidade que menos cresceu em termos populacionais na região. Então, nós não tivemos essa explosão.

Mas a renda per capta cresceu?

Sim e isso é bom. Porque isso significa que as pessoas que estão aqui em Jundiaí estão ganhando mais. Os empregos que elas tem estão pagando melhores salários. Que é o grande instrumento de distribuição de riqueza. É o grande instrumento para que se diminuia as diferenças sociais.

4. Haddad: “A propaganda é obrigação mesmo”

Durante a campanha eleitoral, os opositores de Miguel Haddad afirmavam que os gastos com propaganda da administração chegavam a R$ 54 milhões e parte desse dinheiro vinha sendo usado para silenciar ou colocar a mídia local a seu favor.

Na entrevista ele nega. Diz que o investimento em publicade não foi nem a metade disso e afirma que a relação com a imprensa sempre foi transparente, democrática e republicana.

Fala se muito dos investimentos maciços em comunicação. E também do atrelamento da mídia ao seu governo. O que se diz na cidade é que Miguel Haddad comprou a mídia. E que Miguel investiu R$ 54 mlhões só com o publicitário Duda Mendonça. Isso é verdade?

Não é esse valor

Eu quando vi as propagandas oficiais fiquei pensando comigo: o que foi que perdi?

As propagandas eram bem feitas. Isso era obrigação mesmo. Você divulgar, dar publicidade, dar visibilidade aquilo que você faz é uma obrigação constitucional. Se esse trabalho é feito com mais qualidade isso é ótimo.

Só que quando se fala nessas contas há uma série de coisas…

Não foram R$ 54 milhões?

Não. Imagine. Foi muito menos. Eu não tenho o número. Mas acho que foi nem 50% disso. Você tem campanhas. Campanha de vacinação, campanha de dengue, você tem uma série de trabalhos que são desenvolvidos que estão dentro dessa conta.

Então não é só a imagem do governo, mas tem todo um contexto. E mesmo aquilo que foi veiculado foi dentro daquilo que a Constituição exige.

E a imprensa?

Nossa relação com a imprensa sempre foi uma relação absolutamente transparente, democrática e republicana. A imprensa foi ácida conosco quando tinha que ser. Tanto é agora, você veja…

Hoje peguei o jornal …

O senhor acha que os jornais passaram a ser mais ácidos com o senhor depois do resultado das eleições?

Não. Eu diria que não…

Como não?

(risos. muitos risos)

Nós precisamos saber conviver com a imprensa. A imprensa tem um papel importante. A critíca é positiva quando ela é feita de forma construtiva. Porque é uma outra visão. Ela exige de nós uma ação, uma presença.

O senhor não se importa com a crítica?

Eu não me importo. Desde que ela seja fundamentada. Nós temos acertos e temos erros. É lógico que temos erros no governo. E precisamos saber ouvir as pessoas. E não estou falando apenas da crítica só feita pela imprensa, mas ouvir as pessoas é essencial.

E nós durante esses quatro anos ouvimos muito a população. Tivemos elogios e tivermos críticas.

Quando ela tem viés político aí não.

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