Morre o crítico Antonio Candido, o intérprete do Brasil

“O que se pensa ser a face humana do capitalistmo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue”

Antonio Candido (1918-2017)

“O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial.

É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria.

Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado.

Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso.

Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças.

Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: ‘o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana’.

O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite.

Marx diz na ‘Ideologia alemã’: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim.

E o capitalismo está baseado nisso.

O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo.”

Antonio Candido, (1918-2017) em entrevista ao jornal Brasil de Fato, 8 de agosto de 2011, “O socialismo é uma doutrina triunfante”, por Joana Tavares.

O jornalista Breno Altman publicou essa edição de uma entrevista com Antonio Candido.

Em homenagem a Antonio Candido de Mello e Souza, crítico literário, engajado militante socialista e figura pioneira da nossa dita “tradição crítica”, que nos deixou hoje, o Blog da Boitempo disponibiliza, na íntegra, o capítulo dedicado a ele, assinado por Flavio Wolf de Aguiar, no livro “Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados”, organizado por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco.

Antonio Candido, intérprete do Brasil

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