“Na cultura moderna, a gente se esconde na massa. Mas a fé de Jesus é bem diferente disso”

Por Fabiane Bernardi

Dom Vicente Costa, bispo da Diocese de Jundiaí, tem agenda cheia, especialmente em tempos como esse, de Semana Santa. Mas encontrou uma brechinha no seu dia para conversar com o Oa.  Em sua residência episcopal, nos atendeu na manhãzinha da Quinta-Feira Santa, e o papo rendeu. Rendeu tanto que optamos por fragmentar a entrevista em três partes, pois não queremos excluir nada.

Na pauta, além claro desse período importante para os cristãos, estavam assuntos como reforma da previdência, foro privilegiado, terceirização, movimentos sociais, Papa Francisco, meio ambiente, biomas brasileiros, Serra do Japi…Entende agora porque dividiremos a conversa, né?

Oa. A Semana Santa é o período de celebrações e rituais mais significativos para aqueles que professam a fé cristã. Ainda permanece assim?

Dom Vicente Costa. Sim, pra nós a Semana Santa é a semana mais importante da liturgia da Igreja, principalmente os últimos três dias, que chamamos de Tríduo Pascal: na quinta-feira tem a missa da Ceia do Senhor, quando Ele instituiu a Eucaristia e nos falou sobre a importância do servir ao próximo, simbolizado pelo rito do Lava-Pés; depois temos a Sexta-Feira Santa, o momento em que a Igreja se reúne, em silêncio, para refletir sobre a paixão e morte de Jesus e o que significa o Filho de Deus feito homem morrer pela humanidade; e então, a celebração mais alta, maIs importante do ano no sábado, a Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias de Santo Agostinho, quando a Igreja se reúne no silêncio, na penumbra, pois Cristo ainda está sepultado, mas esse mesmo Cristo ressuscita e vence a morte, as trevas e o pecado, e é proclamada a Páscoa, a ressurreição. 

É pena que ficamos só no gesto, na celebração, na cerimônia, quando na verdade devemos viver e reviver esses momentos importantes.

Mas como podemos viver e reviver isso?

Por exemplo, se Cristo na Quinta-feira Santa lava os pés dos discípulos (“Eu que sou o Mestre lhes dei o exemplo”), como é importante a gente – a começar por mim como bispo, e então os políticos, os pais, patrões, enfim, pessoas que tem alguma autoridade ou poder – que aprendamos a lição do serviço, de se rebaixar ao outro, de ouvir o outro, lavar os pés do outro, para que a gente possa servir, seguindo o que como disse o Senhor: “Eu vim para servir e não para ser servido”.

Isso se aplica aos outros dias e demais celebrações?

Sem dúvida que sim. Veja só, na Sexta-feira de Paixão, quando Cristo morre. Se Ele hoje vivesse aqui, talvez também sofreria muita violência, roubo, desprezo, preconceito, todos esses sinais de morte, sinais que prolongam e continuam a Paixão e Morte de Jesus. Por isso é algo muito atual para nós.

Na Páscoa, que é quando Cristo passa da morte para vida, é importante que a gente reviva esse momento para que possamos ter uma vida nova e sermos mais solidários, mais fraternos, sepultar antigos vícios, maldades, egoísmo e procurar ressuscitar pra vida nova na família, na comunidade, na consciência ética e política. Então não é apenas a liturgia, a celebração em si que é importante, mas sim a vivência, a atualização desses momentos da vida de Jesus, o que eles nos dizem para nossa vida hoje e como podemos realmente fazer para que passemos da morte para a vida.

O senhor acredita que é mais difícil viver a quaresma (período que antecede a Páscoa) e a Semana Santa nos dias de hoje do que antigamente?

Cada vez mais a cultura moderna desafia a fé cristã. Antes, tudo ajudava para a religiosidade, para a prática da fé cristã. O mundo atual trouxe muitos benefícios, a modernidade trouxe muita tecnologia, muitos avanços em vários campos, mas hoje ficamos mais dependentes da técnica, ficamos mais materialistas, presos ao imediatismo, às redes sociais.

A gente vai num restaurante e vê pessoas que não conseguem comer sem desligar no celular, cada um comendo sem falar um com outro. Essa é a cultura. Então não é fácil viver a fé cristã num mundo onde os valores hoje são diferentes. Há mais fuga pro individualismo, pro fechamento do seu pequeno mundo, se desligando da realidade, e então, perdemos muito o sentido da solidariedade, da fraternidade.

A gente se torna muito número, a gente se esconde na massa, no anonimato. E a fé cristã, a fé de Jesus, é bem diferente disso. Todas as igrejas católicas e evangélicas têm como base o mandamento do amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, disse o Senhor. Mas não é fácil nesse mundo de competitividade, de muita violência, muito preconceito, não é fácil viver sempre o amor ao próximo.

Atualmente, quem é o próximo?

O próximo é e sempre foi aquele de quem eu me aproximo e não espero que venha até mim. Nesse contexto, a fé se torna um desafio. A  fé não é uma questão de tradição, de hábito, de ser católico ou cristão porque causa da religião que se recebi dos pais. Se trata de uma opção pessoal consciente, não é verdade? Por isso, não adianta o cristão orar, celebrar, participar da Igreja e se esquecer dos pobres, dos carentes, dos miseráveis. Tudo isso só tem sentido se houver o amor.

 

Nos próximos dias publicaremos a outra parte da entrevista onde Dom Vicente fala sobre a crise política, ética, movimentos sociais, entre outros assuntos.