O principal legado do plano diretor nem é o plano. É o diálogo

Talvez o principal legado do novo plano diretor nem seja o plano em si.

Embora o reordenamento territorial seja fundamental para a construção de uma cidade mais humana no agora e no futuro, o maior valor do plano diretor participativo é a efetiva participação.

Nesta semana, delegados eleitos debatem exaustivamente ponto por ponto do projeto-de-lei que será enviado à Câmara Municipal logo depois do Congresso da Cidade, dia 12 de março.

Entre tapas e beijos, setores conservadores dialogam com produtores rurais, ambientalistas e outros da linha, digamos, mais arejada. No auditório da Escola de Governo ou no Paço Municipal, na audiência na Câmara Municipal, pessoas se encontram.

E falam, conversam. Dialogam.

E dia após dia passam a se chamar pelo nome, a perceber que as diferenças em muitos casos nem são tão grandes assim. E que mudar de ponto de vista ou de ideia nem sempre significa abrir mão daquilo que se quer.

Emoções, aplausos, tensões e muito, mas muito trabalho mesmo. Da equipe da Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente e da empresa contratada para auxiliar na elaboração do plano, mas também e principalmente de delegados.

Gente que se dispõe a doar horas e muitas horas mesmo de seu dia para auxiliar a construir uma Jundiaí mais humana pras futuras gerações.

Essa tribo representa a cidade.

A cidade que tem investidores do mercado imobiliário. E bem fortes e organizados. Sobrenomes conhecidos.

E que tem também produtores rurais, nem tão fortes assim, mas que perceberam durante o processo a grande importância de se manter preservada a zona rural. Não apenas pra produção agrícola em si, mas pra preservar a água e a qualidade de vida de quem mora nos prédios construídos pelos investidores do mercado imobiliário.

Oras, estamos juntos, não é mesmo?

Juntos. E com conflitos. E com interesses diversos. E com ideias diferentes.

Mas estamos aqui. Aqui nesta cidade. Nesta diversa e interessante cidade, onde a vitalidade de sua gente a coloca como uma das melhores do país para se viver. Alguém duvida? Afinal de contas, por que será que tanta gente de fora tem escolhido Jundiaí para viver?

Juntos esses cidadãos delegados prestam um serviço público inestimável. Enquanto muitos estão em casa hipnotizados pelo noticiário viciado das tevês comerciais, esses senhores e senhoras debatem, conversam, brigam, defendem o que acreditam.

E sabe o que ganham pra isso? Nada. Todos são voluntários. Pode até se dizer que cada um ali defende seu interesse ou de seu grupo e portanto haveria um ganho indireto. Talvez. Mas é mais além. Esse povo está ali porque acredita em algo.

E vale o mesmo para os funcionários públicos ou pagos envolvidos no processo. Da mesma forma, poderia se dizer que não fazem nada além da obrigação, pois são pagos pra justamente fazer isso.

Mas é bem mais que isso.

Basta acompanhar alguma dessas intermináveis reuniões de resolução de conflitos. Horas e horas e horas e mais horas de conversa. Quem participa, mesmo que ganhe pra isso, não faz apenas por dinheiro. Com certeza não.

Esse é o valor. O maior valor. Quando Jundiaí se coloca frente à frente. Se percebe.

Tem tanta coisa errada por aí (e aqui na cidade também) mas tem tanta coisa certa. Uma cidade mais ordenada e com regras claras vai beneficiar a todos. E ainda garantir um futuro mais humano.

Dia após dia, vai ficando claro que a maioria concorda em ter uma clareza maior. Os consensos vão sendo construídos e o número de propostas em conflito do plano diretor, que terá que ser votado no Congresso da Cidade, é cada vez menor.

Isso significa que o diálogo tem dado resultado.

Os setores conservadores cederam. Os setores progressistas também. A Prefeitura também (concordou em dar mais prazo para os debates como queria o grupo da construção civil) e fez e fará outras concessões.

O plano diretor não é perfeito e, provavelmente, não chegará à Câmara Municipal sem que sejam necessárias correções, mas indiscutivelmente é o plano mais debatido, mais conversado e mais claro já produzido.

Um plano que, defintivamente, mudou a cara da cidade, mesmo antes de ter sido aprovado pela Câmara Municipal.

Foto de abertura: Equipe Oa