O principal assunto, o futuro, está fora dos debates dos prefeituráveis

A campanha para a Prefeitura de Jundiaí chega à última semana sem que o mais importante tema para todos os cidadãos tenha sido tratado de forma madura e clara: o futuro.

Tanto Pedro Bigardi (PSD) quando Luiz Fernando Machado (PSDB) usam o futuro como tema de suas campanhas. Luiz Fernando com seu “agora é a vez do futuro” e Bigardi com o “pra frente é que se anda”. Mas futuro mesmo, planejamento, pensar estratégico, pouca coisa.

Apenas marketing.

O direção da campanha acabou sendo dada por Luiz Fernando Machado, que centrou foco das áreas mais sensíveis para a administração Bigardi: saúde, em primeiríssimo lugar, segurança, mobilidade e geração de empregos. O que obrigou Bigardi e sua equipe a fazer uma operação de defesa para, de alguma forma, mostrar o que já havia sido feito.

Isso, talvez, tenha afastado Pedro Bigardi de seu principal legado: a reorganização do crescimento da cidade através de um Plano Diretor que olha justamente para o futuro. Que disciplina o desenvolvimento e cria a oportunidade de uma cidade mais humana.

O assunto, provavelmente por ser complexo e sem apelo para o marketing imediatista de campanhas eleitorais, ficou (e ainda está) em segundo plano — basta acompanhar a séríe de debates, entrevistas, post de redes sociais e declarações dos candidatos ao longo de toda campanha.

Mas foi (e é) justamente o Plano Diretor quem mais olha para o futuro da cidade. E, sem exageros, é nele que está a cara da Jundiaí das próximas gerações.

Se a gente olhar apenas por um aspecto isso já fica claro: a água.

O Plano Diretor organiza o crescimento da cidade de forma a preservar o abastecimento de água. Nada mais óbvio, não é mesmo? Mas não era assim que acontecia com o  plano anterior, que permitia o avanço da malha urbana sobre as áreas de mananciais.

Esse avanço foi permitido pelas administrações anteriores e só estancada pelo atual plano, aprovado há poucos meses pelo governo Bigardi. O avanço sobre as áreas de mananciais beneficiou, sobretudo, o setor imobiliário e os detentores de terras no município, em detrimento da larga maioria da população.

O crescimento desordenado atingiu fortemente a Zona Rural, espremida por condomínios e seus altos muros, com os tradicionais agricultores sufocados pela falta de perspectiva, reconhecimento e investimento.

O valor da terra falou mais alto e centenas de propriedades rurais foram transformadas ou em condomínios oficiais ou loteamentos irregulares e clandestinos.

O resultado, na ponta, foi a diminuição da capacidade de retenção de água pelo solo e o comprometimento das nascentes. Um caminho suicida para uma cidade que, ao menos na propaganda, é a campeã de qualidade de vida.

Que futuro pode ter uma cidade sem água?

Luiz Fernando Machado cresceu politicamente sob o guarda-chuva dos mesmos responsáveis por permitir esse avanço sob as áreas ambientalmente protegidas. Tucanos e ex-tucanos, como Ricardo Benassi, cuja família é forte empreendedora do mercado imobiliário.

É, portanto, co-autor do cenário presente. Um presente desenhado por decisões do passado. Quando o futuro era desenhado pelas administrações anteriores, o resultado é esse presente que vemos hoje nas ruas.

E, com certeza, existe muita coisa boa. Jundiaí é uma cidade reconhecidamente com qualidade de vida, recursos, diversidade. E deve muito disso às administrações que precederam Pedro Bigardi. Mas é desigual e injusta. E privilegia quem tem mais.

Se comparada com outras cidades, no entanto, Jundiaí é o oásis no Brasil.

Mas é igualmente inegável que a pressão do mercado imobiliário desestruturou o crescimento. Basta olhar no horizonte para ver a cada dia mais e mais prédios sendo construídos e outros tantos já habitados. Isso sem uma contrapartida de infraestrutura.

E isso também é resultado de uma política desequilibrada de desenvolvimento.

Hoje, Luiz Fernando Machado reconhece alguns avanços do Plano Diretor, especialmente na preservação das áreas rurais e mananciais. E garante manter a Serra do Japi intacta.

Assista aqui a entrevista de Luiz Fernando Machado ao Oa

Mas é só. Não ouvi do candidato ainda (talvez ele tenha dito isso, mas não ouvi ou vi publicado) uma defesa clara de um desenvolvimento equilibrado ou uma garantia de que os avanços do Plano Diretor serão mantidos.

Por outro lado, Pedro Bigardi teve poucas oportunidades para defender seu legado ou mostrar como as decisões do presente afetarão (se mantidas) positivamente a realidade do futuro.

Analisando o que vem acontecendo na campanha, arrisco dizer que Bigardi acreditava que suas ações, especialmente nos bairros mais esquecidos pelas administrações anteriores, seriam reconhecidas e a votação dele seria mais expressiva.

Mas não foi isso que aconteceu, como se pôde ver pelo resultado do primeiro turno.

Tanto Luiz Fernando Machado quanto Ricardo Benassi, ambos representantes do grupo que domina a política local desde a década de 80, tiveram votações expressivas. E, por pouco, nem segundo turno haveria.

Além disso, Bigardi precisou gastar uma energia enorme para defender suas conquistas. A lenga-lenga da saúde pública, por exemplo, que repete com pólos invertidos o mesmo debate das eleições anteriores, drenou um caminhão de recursos e argumentos sem que a população, efetivamente, faça uma avaliação clara do atual estado do sistema.

Absorvido pela críticas, Bigardi pouco usou das reais conquistas de seu governo.

O Plano Diretor disciplina o crescimento, valoriza e preserva a zona rural e os bairros, amplia a área industrial e, acima de tudo, garante mais atenção para áreas de mananciais. Certamente, não é assunto de fácil digestão. Mas é fundamental.

Ações como urbanismo caminhável, cuja parte mais visível são dois parklets instalados na cidade, preservação de monumentos como a Ponte Torta e a Escadão, bem como a recuperação de espaços públicos ficaram em segundo plano.

Infelizmente.

Veja também a entrevista de Pedro Bigardi ao Oa

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