Projeto de diálogos políticos levanta demanda progressista

Embora com divergências sobre questões como novas formas de ação política ou a multiplicação de demandas de identidade, uma conversa promovida com o nome de Diálogos mostra que cresce a demanda por ações progressistas neste momento tumultuado do país e até das cidades.  A primeira conversa desse projeto, realizado na Livraria Locomotiva, contou com o pesquisador Henrique Parra Parra Filho e o ativista Sérgio Aguiar. Veja abaixo alguns tópicos da reflexão. E o video completo (dividido em seis blocos).  CICLOS – Em 2013, um fenômeno até agora surpreendente levou multidões às ruas por causas difusas como serviços públicos de qualidade e, ao mesmo tempo, de baixo custo. Em 2014 e 2015 cresceu principalmente na classe média e com eco na mídia, voltando seu foco para a corrupção. E em 2015 e 2016 dividiu esse foco com a luta contra a perda de direitos dos mais pobres. REPRESENTAÇÃO – O problema passou a ser não apenas a falta de negros, mulheres ou gays nas esferas políticas, mas os privilégios dos ocupantes de cargos públicos impedem uma imagem próxima das pessoas. Nem mesmo um homem branco comum, que seria um padrão. Então, 99% das pessoas não se sentem representadas e isso fere de morte a democracia. DESIGUALDADE – O estudo recém-divulgado da entidade global Oxfam aponta que o país tem metade de suas riquezas nas mãos de 10% da população, uma das diferenças mais brutais do mundo. A igualdade de oportunidades é uma preocupação do que pode ser chamado de esquerda, que precisa aprimorar sua resposta à bandeira da liberdade que hoje é também atacada pela direita extremista como a liberdade de expressão. FORMAÇÃO – O ataque de criminalização de espaços de conversas e formação política, como ocorre no movimento Escola Sem Partido, pretende fazer as pessoas ignorarem que essa formação hoje acontece muito mais em redes sociais como o Facebook, onde algoritmos de robôs direcionam anúncios e páginas comerciais ou políticas de acordo com temores e preferências do usuário, inclusive para fins eleitorais. CIDADE – O cenário local reflete a falta de diversidade no Executivo e no Legislativo, mas é diferente em partes do Judiciário ou nos movimentos sociais, nas ONGs e em outras instituições. A história dos últimos trinta anos, de alternância de poucas famílias ou grupos no poder, pede a continuidade dos campos e atitudes progressistas agora também diante da ação de grupos externos à cidade. ALGUNS COMENTÁRIOS    “Um político atualmente ganha um salário dez vezes maior que um professor, tem aposentadoria integral, recebe um auxílio-moradia que sozinho é maior do que o salário de um cientista. Essas coisas somadas vão acabando com o sentimento de representatividade”, afirmou Henrique. “O cenário da cidade real, não apenas daquela branca e rica, é aquele das empregadas que pegam o ônibus no Terminal Central para irem trabalhar nas moradias de luxo. Essa é a realidade jundiaiana, como prefiro dizer”, afirmou Sérgio.  “É muito perigoso o sentimento decorrente desses ciclos recentes, muito parecido com o ‘se vayan todos’ vivido pelos argentinos, porque fica próximo de destruir tudo. As instituições ainda são importantes para controlar minimamente o ódio”, afirmou Sérgio. “As instituições são fundamentais. É o caso do Conselho Nacional de Psicologia com uma postura firme diante do retrocesso da chamada cura gay”, afirmou Henrique. “As instituições não souberam responder às manifestações de 2013 e isso acabou no que alguns chamam de impeachment e outros de golpe. No entanto, pesquisas orientadas por Pablo Ortellado mostram que tanto a corrupção que virou tema central como o mais recente da luta contra a perda de direitos dos mais pobres, mesmo com menos cobertura de mídia, são os eixos para 2018”, afirmou Henrique. “Não vejo saída que não seja política, incluindo partidos e não candidaturas independentes. A esquerda está se segmentando com os movimentos de identidade”, afirmou Sérgio. “Existem casos curiosos acontecendo. Em Belo Horizonte, o grupo chamado Muitas é uma espécie de mandato coletivo onde uma cadeira de vereadora foi alcançada por uma delas, Áurea Carolina, dentro do PSOL mas sem dependência direta do partido”, afirmou Henrique.  “O desencanto com a política em geral fez com que na cidade  metade dos eleitores não votassem no ano passado. Essa atitude é um recado claro, mas reflete na falta de representatividade e em um circo dos horrores legislativos”, afirma Sérgio. “Quem está mais ideológica é a direita extremista. Usa o problema da segurança para exigir mais custos da sociedade, para mistificar os militares. E o mais grave é que isso faz muitos trabalhadores assumirem seus valores ao chegarem a cargos de comando ou a ter uma visão pequeno-burguesa de democracia, seja no sindicato, na associação de moradores e nas bases em geral”, afirmou Sérgio.  “Ao mesmo tempo, o atual governo de direita do país tem menos de 5% de aprovação”, afirmou Henrique.  “Nos últimos trinta anos criou-se uma história fake da cidade, que apaga coisas como seu papel como centro operário ao longo de todo o século vinte além de todas as lutas anteriores. Em 1964, o golpe militar chegou apenas em 3 de abril porque havia um bloqueio na ferrovia. Mas nossa história ainda está impregnada na cidade”, afirmou Sérgio. “Sinto que o governo Bigardi não conseguiu articular no dia a dia o sentimento de mudança que recebeu em 2012. Mas deixou legados como conseguir mais habitação para os pobres, o que antes se resolvia apenas mandando para cidades vizinhas ou para um setor sem serviços urbanos como ocorreu com o vetor oeste”, afirmou Henrique. “Na cidade, se pudesse citar dois pontos do legado recente, diria que foi a abertura para o crescimento dos movimentos culturais e o processo de participação no Plano Diretor. Foram duas coisas da própria cidade, não apenas de um governo, que tiveram vida própria”, afirmou Sérgio. “O mais difícil nem é criar um grupo progressista. É manter por mais de um ou dois anos. E qualquer iniciativa hoje precisa ser feita com abertura para a autocrítica e em nome de princípios muito claros”, afirmou Henrique. Locomotiva diálogos 1 ______________________________________________________________ Locomotiva diálogos 2 ______________________________________________________________ Locomotiva diálogos 3 ______________________________________________________________ Locomotiva diálogos 4 ______________________________________________________________ Locomotiva diálogos 5 ______________________________________________________________ Locomotiva diálogos 6 - FINAL   A INICIATIVA O encontro informal Diálogos foi realizado na quinta-feira (28) na livraria Locomotiva, em parceria com o site Oa. Os participantes são Henrique Parra Parra Filho, cientista político ligado ao movimento Cidade Democrática, um dos criadores do movimento Voto Consciente Jundiaí em 2007 e pesquisador da área de democracia digital, e Sérgio Aguiar, ativista histórico de movimentos populares.