Promessa cumprida, Temer uniu o Brasil (contra ele)

Em um dos dias mais tensos da história, está muito difícil analisar o cenário do país com tal descrédito em suas instituições. Para os brasileiros que tentam viver de seu trabalho ou negócio a luta parece ser entre quem tem privilégios e quem paga por eles.

A polarização criada nos últimos anos continua dividindo os brasileiros e tem apenas um consenso em torno do “Fora, Temer”. Mas todo o resto segue em conflito, tanto as reformas como os retrocessos no Congresso que tem maioria comprometida na Lava Jato. .

São, pelo menos, cinco cenários possíveis:

1) O presidente Temer sai do governo (por renúncia ou impeachment) e temos pela Constituição uma eleição indireta no Congresso. Aí fica a questão se os seus atuais presidentes indiciados pela Lava Jato, Rodrigo Maia (Câmara) e Inocêncio de Oliveira (Senado), passam ou não a organização disso para o Supremo Tribunal e se nomes externos ao Parlamento podem ser indicados para a disputa.

2) O governo é alvo de cassação da chapa Dilma-Temer pelo Superior Tribunal Eleitoral, repetindo o roteiro anterior ou viabilizando uma eleição direta pelos cidadãos. Aí a questão seria como organizar o período para a votação e os critérios de quem pode concorrer. 

3) Menos provável, o presidente Temer permanece no governo de maneira autoritária até 2018. Um exemplo: nesta quarta-feira (23) ele usou uma lei aprovada depois das jornadas de junho de 2013 e chamada Garantia de Lei e da Ordem para chamar as Forças Armadas até 31 de maio para defesa da Esplanada dos Ministérios.

4) Mais distante, a mudança ocorreria por uma intervenção militar direta. Esse cenário extremo foi tema nos botecos por causa de uma reunião da presidente do Supremo Tribunal, Carmem Lúcia, com os comandantes das forças. Mas já foi oficialmente negado. Tal hipótese, de extrema-direita, incluiria a questão se o Congresso Nacional seria fechado para a realização de eleições gerais.   

5) O último cenário seria a deposição por insurreição popular. Esse é o cenário da extrema-esquerda mas esbarra na aversão da população a essa hipótese até o momento.   .   

A hipótese de eleição direta arrepia o “establishment” econômico pela falta de alternativa à popularidade ainda forte da chamada centro-esquerda, como comprovam pesquisas recentes. E somente seria viável com um improvável pacto  de todos os setores a essa saída mais legítima.

No caso da eleição indireta, prevista constitucionalmente para os últimos dois anos de mandato, cresce a bolsa de apostas em torno de nomes para um grande “acordão” em Brasília. .

O que está em jogo, de certa maneira, é exatamente a onda de jovens e veteranos que desde 2013 acordou para o antigo sistema do “toma lá, dá cá” simbolizado então e ainda pela Copa do Mundo.

Os sonhadores sobreviventes daquelas jornadas de junho observam, ao lado de hipócritas posando de indignados, a busca de uma saída para um dos países que com sua beleza e diversidade é também um dos mais violentos, devastadores, racistas, machistas e corruptos do mundo.  

Se existir uma saída equilibrada, deveria ser comemorada com churrasco vegetariano – ou pelo menos usando outra marca, menos aquelas do grupo JBS.

Afinal, como (ainda) diz o parágrafo único do primeiro artigo da Constituição, todo poder neste país emana do povo e é exercido por seus representantes ou de forma direta. .

José Arnaldo de Oliveira