Quando a incerteza vira uma certeza. A perspectiva local

Neste sexta-feira, 13 de maio, se alguém ainda tinha alguma esperança (eu não tinha) de dias melhores, já deve estar pelo menos examinando suas convicções.

Uma sexta que amanhece cinza em Jundiaí, onde estou no momento. Cinza e um pouco fria.

Tem a cara dos novos velhos tempos. E pra mim um gosto amargo por perceber que só estamos no começo de uma era triste.

Ainda estou reorganizando minha cabeça pra me reentender em um País que perdeu as liberdades democráticas. Algo pelo qual minha geração e outras lutaram duramente.

“Pelas liberdades Democráticas. Pelas Liberdades Democráticas”.

Eu e muitos outros gritamos essas palavras de ordem em passeatas e assembleias muitas e muitas vezes. Era o sonho pra quem queria pelo menos votar em seus representantes. Muita gente não lembra e nem faz ideia do que é isso.

Agora, no entanto, terão a oportunidade de experimentar.

Passamos a viver um governo não eleito pelo voto popular. Mesmo que muitos digam que esse senhor aí foi vice da chapa e justifiquem o impedimento de Dilma Rousseff como necessário para alguma coisa, o assunto é bem mais complexo.

E, obviamente, não tão simples de entender.

A apresentação do novo ministério é um indicativo. Mas apenas para quem está ligado.

A imensa manipulação midiática, parte fundamental da trama, vai tratar de mudar o cenário, tal e qual em 1984, de George Orwell. O que era ruim fica bom e o que era bom fica ruim.

Com Olimpíadas pela frente, imagina só que prato cheio para mostrar o Brasil moderno via redes globais, não é mesmo? Pra Frente Brasil.

E tem o Judiciário e o Congresso, parte do mesmo esquema.

Então é dentro deste cenário de exceção que vamos ter eleições municipais em todo o País. De cara meu pensamento é: a direita vai levar. E se não levar, faz igual na Presidência: dá um jeito e pega o poder. Implanta seu modelo.

Mas, ao menos por enquanto, as eleições estão marcadas. E o cenário que temos pela frente em Jundiaí é desolador para qualquer pensamento medianamente à esquerda.

Se nas eleições anteriores a cidade conseguiu eleger um ex-pipoqueiro que prometia um governo voltado para o andar de baixo, em outubro, com (quase) certeza, Jundiaí vai eleger um conservador para a Prefeitura.

Em primeiro lugar porque o próprio Pedro Bigardi decidiu ir para a direita. Deixou o PCdoB para se filiar ao partido de Gilberto Kassab, o PSD, o Partido Social Democrático. Gilberto Kassab, agora ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Kassab que foi vice de José Serra na Prefeitura de São Paulo e, depois prefeito.

José Serra, do PSDB, o Partido da Social Democracia Brasileira, que agora é ministro das Relações Exteriores. Do mesmo partido do senador Aécio Neves, candidato derrotado nas eleições presidenciais, do deputado federal e líder da oposição na Câmara, Miguel Haddad, e do deputado estadual Luiz Fernando Machado.

Luiz Fernando Machado que, muito provavelmente, será o candidato do PSDB ao governo municipal. Machado, que foi vice de Haddad e como candidato a prefeito foi derrotado por Pedro Bigardi.

Machado, que para ser candidato enfrentou as disputas internas do partido e obrigou Ricardo Benassi, filho de José Benassi e sobrinho de André Benassi, históricos fundadores do PSDB, a se mudar para o PPS, o Partido Popular Socialista.

Benassi é considerado pelo próprio partido a terceira via. Imagino que a primeira seja o atual prefeito, Pedro Bigardi, e a segunda, o pré-candidato do PSDB, Luiz Fernando Machado.

E é isso.

Benassi se move, ao menos pelo nome da legenda, à esquerda, enquanto Bigardi prefere o caminho mais à direita. E Luiz Fernando Machado fica onde sempre esteve, ao lado de Miguel Haddad e o grupo dominante da política local nos 20 anos anteriores a Bigardi.

Mas quando se olha da forma como estou conseguindo olhar hoje, primeira, segunda e terceira via são apenas parte do mesmo todo: o desejo de agradar a uma população majoritariamente conservadora.

Talvez, ao olhar em perspectiva, a eleição de Bigardi tenha sido um mero acidente de percurso. Ganhou, e estou pensando alto aqui, quem sabe por ser mais jundiaiense com cara de bom moço frente a um estrangeiro, não da turma, do que por seu próprios méritos.

No governo, teve feitos importantes, como criar coordenadorias para as minorias, voltar os (poucos) investimento da Cultura para artistas locais, e reorganizar a cidade através de um Plano Diretor que, se aprovado pela Câmara Municipal, vai garantir mais controle do município sobre suas áreas.

Conseguiu ainda construir moradias populares e deu atenção a bairros. Mas que outro governo não faria isso? Nem é preciso ser de esquerda.

E Bigardi não foi e nem é.

E ele terá que enfrentar agora mais um problema. Se tinha antes que explicar para os conservadores que, apesar de estar no PCdoB não era comunista (seja lá o que isso quer dizer nos dias de hoje), agora terá que dar um jeito de dizer aos seus (então) seguidores, o que está fazendo ao lado de Gilberto Kassab.

Complicado.

Para Luiz Fernando Machado fica mais fácil. Se conseguir se mostrar mais jundiaiense, mais local e mais da turma, basta seguir o seu caminho coerente com o que vem fazendo. É do PSDB, apoia o partido, tem apoio dele. Um partido que trabalhou firmemente pela deposição de Dilma Rousseff, fez José Serra ministro e tem Miguel Haddad como líder da oposição na Câmara dos Deputados.

Tem a fórmula certa para conquistar corações & mentes locais.

Basta ver o sucesso das diversas manifestações anti-governo realizadas na avenida 9 de Julho (não repetidas depois da deposição da presidente).

Ricardo Benassi saiu do PSDB porque não conseguiu ser o candidato do partido. Encontrou abrigo no PPS (tive que procurar no Google pra saber que partido era esse). Socialista, diz.

Não me parece esse o perfil do herdeiro da construtora Santa Angela, empresa dona de um imenso banco de terras na cidade, e dos negócios da família Benassi. Ao meu ver, terá dificuldades para explicar esse socialista do seu partido.

Dificuldades, mas nem tanto.

Afinal, Ricardo carrega um sobrenome mega conhecido. Tem cara de bom moço e é jundiaiense — um dia, numa entrevista, quando perguntei quem era ele, me disse logo de cara: “sou jundiaiense”. Pra que eu não tivesse dúvida.

Existem ainda as outras vias e muitas candidaturas se apresentando mas, na minha opinião, nenhuma delas com expressividade, articulação e dinheiro capaz de fazer frente a Bigardi, Benassi e Luiz Fernando.

Ou seja, numa onda conservadora e diante de uma tomada de poder pela direita, que chances haveria para algo que não estivesse em linha com o pensamento dominante?

Não sei. Mas em conversa com algumas lideranças da esquerda local, vejo surgir a ideia de uma candidatura pra fazer frente ao bloco conservador (Bigardi agora incluído nele).

Uma candidatura que pudesse, ao menos, dar voz a quem perdeu a esperança de um país mais moderno e equilibrado. Serviria para marcar posição, mostrar o outro lado.

Dificilmente PT, PCdoB, PSol, Rede, Raiz e outros se juntariam num nome. Mas não deixa de ser algo a pensar. Hoje há mais clareza de que existem dois lados bem definidos da situação.

Ou quem sabe ainda algo realmente novo, que possa vir a aparecer da base. Algum discurso que esteja além de direita e esquerda e seja capaz de mostrar que um outro mundo é possível.

Algo como o que se vê na Espanha, Grécia e, agora França.

Uma insatisfação difusa que também estava presente na parte autêntica das manifestações de 2013 no Brasil, e estava o sentimento da Primavera Árabe.

Hoje se sabe que esses movimentos, em grande parte, foram manipulados com objetivo de trazer ao poder forças ainda mais conservadoras, mas havia uma parte legítima, da insatisfação.

Digo por mim mesmo. Ninguém me obrigou a participar das passeatas em São Paulo em 2013. Fui porque senti que devia ir. E ao estar lá percebi que milhares de outros também estavam.

Vi quando depois de alguns dias partidos políticos e movimentos organizados foram hostilizados pelas pessoas. Não havia ainda uma onda verde amarela, mas um sentimento de estou contra isso aí. E muitos ainda estão contra.

No Brasil deu no que deu.

Mas, com certeza, muita gente insatisfeita com o governo vai continuar insatisfeita com essa coisa que está aí agora. E nem é falar de esquerda ou direita. É falar de gente que quer viver bem. Fazer coisas simples como levar filhos pra escola, trabalhar e tomar umas com os amigos.

Veja que ainda é cedo para enxergar se isso seria possível. Mas vem acontecendo algo novo no mundo. O fenômeno Bernie Sanders nos Estados Unidos, a liderança de Jeremy Corbyn na Inglaterra e a eleição de Sadiq Khan como prefeito de Londres. Sem esquecer de José Mujica e do primeiro ministro canadense Justin Trudeau.

Se esse sentimento é relevante em Jundiaí e teria capacidade de revelar uma nova liderança e, até outubro, levá-la ao governo, só mesmo com bola de cristal. A princípio, não passa de um pensamento.

No Brasil, ainda temos a agravante de não ter certeza nem se quem ganhar leva, ao contrário de países onde a democracia vigora de fato. Basta ver a eleição em Londres, onde o filho do motorista e da costureira venceu o bilionário. E está lá, na cadeira de prefeito da cidade mais incrível do mundo (na minha opinião, claro).

E, mais uma vez mas, quem sabe se possa chegar a uma eleição e o eleito seja empossado. Já seria um avanço no caminho da retomadas das práticas democráticas. Ainda me resta alguma esperança.

Não muita, é verdade.

A foto que abre esse artigo está meio fora de foco. Mas mostra o cenário de forma clara.

A imagem da situação

O governador Geraldo Alckmin, o pré-candidato e deputado estadual Luiz Fernando Machado, o líder da oposição da Câmara dos Deputados, Miguel Haddad, o prefeito Pedro Bigardi e o vereador Gerson Sartori (que deixou o Partido dos Trabalhadores para seguir com Bigardi para o PSD), o secretário de Obras e candidato a prefeito em Várzea Paulista, que migrou pro PSB, Junior Aprillanti, o ex-prefeito e tio de Ricardo Benassi, André e demais senhores e senhoras todos inaugurando o início das obras das alças de ligação da Anhanguera, obra que beneficiará, sobretudo, quem tem carro próprio.

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