Rafael Alcadipani

Passada a euforia da derrota dos tucanos na cidade de Jundiaí, a realidade da política se manifesta de forma clara e indubitável.

Os 140.000 jundiaienses que votaram por Bigardi, votaram pela renovação e pela mudança da lógica de se fazer política na cidade.

Os primeiros movimentos da gestão Bigardi coloca em xeque a esperança de algo diferente, muito embora ainda seja muito cedo para se falar qualquer coisa, uma vez que Bigardi sequer assumiu e não temos ideia de qual será o tom de seu governo.

Talvez, dizer que os primeiros movimentos colocam em xeque a esperança de mudanças reais seja um exagero, mas tenho escutado cada vez mais que um sinal amarelo paira sobre a gestão Bigardi.

No que estaria, então, pecando Bigardi? Tenho algumas ideias.

O secretariado até aqui anunciado possui alguns nomes muito bons, pessoas comprometidas há muitos anos com uma mudança na cidade e/ou pessoas com excelente capacitação técnica.

Porém, o secretariado apresenta muitos nomes desconhecidos da cidade e pessoas com formação e experiência, digamos, abaixo do esperado.

Indicar Cláudio Miranda para uma pasta tão importante quanto a saúde foi um verdadeiro banho de água fria. Tal indicação sugere que Bigardi trocou o apoio de Miranda na eleição por uma secretaria, isso porque Miranda é um político profissional, apesar de ser médico.

Nunca fez gestão na área de saúde e não demonstra conhecer os detalhes de uma máquina pública complexa e difícil de lidar como da área da saúde. E o pior, a indicação de Miranda reforça inúmeras fofocas eleitorais. Miranda já inicia na saúde com um clima contrário a ele.

Ouvi muitos profissionais da saúde indignados com a indicação. Saúde é uma pasta central para a cidade de Jundiaí, dado os problemas históricos da área. Miranda precisa nomear diretores totalmente técnicos e deveria ter um secretario adjunto tecnicamente capacitado.

Na verdade, Bigardi está fazendo política (com p minúsculo) com a área da saúde, algo deplorável e um dos principais responsáveis por termos um sistema de saúde com problemas severos no Brasil.

O mais adequado seria trocar a indicação, pois o governo vai começar com um clima muito negativo em uma área central. A grande probabilidade é que Miranda seja engolido pela máquina pública da Saúde e quem irá sofrer é quem mais precisa: a população.

Outro problema sério são as suspeitas que pairam a respeito do indicado ao DAE. Já dizia o ditado romano que a mulher de César não precisa ser honesta, precisa parecer honesta.

Para ocupar um cargo público, a pessoa precisa ser e parecer honesta. Não faz o menor sentido se manter uma indicação tão importante como a da DAE de uma pessoa a respeito da qual questões estão sendo levantadas, por mais honesta que a pessoa seja.

Um diretor tão importante da máquina pública da cidade não pode começar sob suspeita.

Por fim, os boatos indicam que serão mantidas as diretorias na Câmara Municipal de Jundiaí.

Assistimos na política brasileira os problemas gerados pela relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo. Bigardi parece que vai usar a mesma lógica de sempre para fazer maioria na Câmara, não vai tentar algo diferente.

Jundiaí clama por mais transparência na Câmara Municipal. Antônio Galdino lutou toda a sua carreira política para mudar a lógica da eleição de presidente da Câmara Municipal, será realmente lamentável se Bigardi manter as mesmas práticas de sempre.

Bigardi representava a esperança de uma nova prática política na cidade de Jundiaí.

Seu governo ainda não começou, mas alguns sinais já são realmente preocupantes. Ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa, mas Bigardi vai precisar mostrar que não é mais do mesmo.

Tomara que os secretários que faltam ser indicados, em especial na educação, sejam pessoas técnicas e conhecedoras da máquina pública. Começar um novo governo é sempre muito difícil.

Começar com o sentimento de que se vendeu gato por lebre, é muito pior.

Rafael Alcadipani é PhD pela University of Manchester (Reino Unido) com pós-doutorado na Gothenburg University (Suécia), professor universitário e jundiaiense.