A Companhia Paulista e a Jundiaí moderna. Uma reflexão

Os diálogos do educador Gustavo Faria, da Livraria Locomotiva, com o arquiteto Araken Martinho e o engenheiro agrônomo Afonso Peche Filho renderam um texto sobre a mudança representada pela Companhia Paulista e por suas oficinas sobre a cidadania em Jundiaí originalmente intitulado “A ferrovia, a serra e o rio”.

Veja no final também atividades no local no fim de semana.  

O trajeto afeito à tropa – do caminhante, do cavalo, do gado – não servia para máquina, caprichosa em planície e retidão. A locomotiva não veria a cidade a não ser ao longe, incrustada em seu monte. Para o trem as quadras esculpidas na serra, contornando e cruzando as originais ruas Direita e dos Antunes (depois Barão e Rosário), eram quase um acidente que carecia remendar-se.

Necessitada dos fundos de vale, ressaltados mirantes não lhe serviam. Não lhe interessava colar-se à igreja ou ao fórum. Fez-se duas cidades em uma, que de alguma maneira se encontrariam, finalmente.

A linha reta que subia morro e descia encosta, no ritmo das passadas, passou a concorrer com o serpentear plano dos vales, de destino semelhante mas de outro tempo.

A ocupação que coroava o morro desde os seiscentos se esticou no fim dos oitocentos para seu principal rio.  E a oficina que ponteava o vale alongou seus dedos, pelas várzeas, até tocar sua vizinha mas anterior ocupação.

Esse organismo, um ser vivo que se deitava entre o rio e o espigão, fez casa naquele que o batizou, seu rio, seu homônimo, o Rio Jundiaí. Quem caminhasse ao redor da antiga igreja poderia avistar a oficina da Companhia Paulista, guardando suas peças, engrenagens, mecânicos, técnicos, projetistas.

Agora se confundia, em novas casas e barracões na encosta antes ainda rural, o ponto onde terminava a baixada da oficina e começava o planalto da cidade. Ao redor do rio também se assentaram casas de operários, suas rotinas e seus lazeres, como também fabriquetas e indústrias, auxiliando, complementando e agregando à estrada de ferro.

Ela levava os produtos em seus vagões, mas deixava o que pouco a pouco se consolidava: uma cidade madura, ideia fundamental do urbano, lugar humanamente resolvido.

Da mesma maneira como sucedera em seu espaço, o jundiaiense, agora, era também o maquinista, o metalúrgico, o ceramista, o engenheiro. Importava-se o novo, a cultura e a tecnologia; desejava-se o novo, criava-se o novo.

Não era mais um entreposto. Jundiaí, e o jundiaiense, precisava entender a si mesmo, a escrever a si mesmo, a apontar e construir aquilo que queria para si. Cidadania.

Nota 1 – A ferrovia no final do século XIX, na órbita da economia do café, coincidiu com o movimento abolicionista, com a imigração italiana e com a industrialização têxtil na Vila Arens. É contemporânea da Ponte Torta e anterior à Argos.

Nota 2 – No fim de semana, as oficinas da Companhia Paulista no Complexo Fepasa abrigam o funcionamento do Museu da Cia Paulista no sábado (10) e domingo (11) das 9 às 16 horas. Além disso, tem às 20h da sexta (9) o espetáculo “Um Solo Para Três Palhaços”. No sábado tem ainda a exposição de artesanato do Jundiaí Feito à Mão, das 9 às 13 horas. E no sábado e domingo tem aulas da Oficina de Arte em Tela a partir das 14h30, com inscrições gratuitas em agendacomplexofepasa@jundiai.sp.gov.br.

Nota 3 – O Complexo Fepasa fica na avenida União dos Ferroviários, 1760, Centro. E a Livraria Locomotiva fica na rua São Bento, 340, Centro – com vista para o complexo).


 

 

Foto by Acervo Prefeitura de Jundiaí

 

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