A experiência colaborativa no #Ocupa Ponte Torta

Foto by Dane Dalastra

Um encontro de parceiros de um ato coletivo surgido em Jundiaí, no último domingo de cada mês, criou uma experiência colaborativa e emocionante que ultrapassa os limites de um evento cultural.

Centenas de pessoas se reúnem na praça e proporcionam cenas como crianças correndo, skatistas e ciclistas se encontrando, músicos emprestando cabos ou instrumentos entre si, rodas de conversas tratando de teatro a agroecologia, moradores próximos passando, uma sensação afetiva no ar.

O #Ocupa Ponte Torta é antes de tudo um sentimento, de que a cidade pertence aos seus moradores e que estes ainda formam uma comunidade.

A proposta surgiu de maneira despretensiosa, quase na véspera do Ano Novo, em uma conversa inesperada de manhã de domingo no próprio local, ainda com o calor da inauguração do premiado restauro do monumento realizada em dezembro.

A ideia foi uma comemoração improvisada, três dias depois e um dia antes do Reveillon de 2016.

As redes sociais e os amigos viabilizaram tendas, caixas de som, instrumentos e performances além de representantes de diversas “tribos” jovens e culturais.

E a celebração da ideia de “ocupa” incentivou um novo teste nos últimos domingos de cada mês, sempre no esquema de cooperação entre participantes.

Em muitos lugares e países existe a noção de que a comunidade deve cuidar e usar do espaço público e isso não é uma bandeira de esquerda ou de direita.

Pelo contrário, é o convívio entre as pessoas tendo a noção desse espaço público como algo de todos que move o próprio espaço democrático.

Cabe à administração municipal, por exemplo, estimular pelo seu zelo e uso como ocorreu no processo do próprio monumento à memória do local e outras iniciativas.

No dia 24 de abril, durante sua quinta edição, o #Ocupa Ponte Torta demonstrou uma consciência compartilhada pelas pessoas.

Diante de um atraso de cronograma, os músicos recombinavam entre si os ajustes no tempo de cada um antes acertado via internet, para respeitarem o limite legal das 22 horas.

Com o cair da noite, uma barraca de água de coco puxou uma de sua luzes para não deixar a exposição de cartões artesanais no escuro.

Os participantes adultos e jovens recolhiam embalagens ou papeis para os cestos de lixo, deixando a praça Erazê Martinho tão limpa como encontraram. Nas rodas de conversa passavam tanto esportes radicais como teatro ou agroecologia.

Nessa sua ainda breve experiência, o #Ocupa Ponte Torta relembra para os mais veteranos grandes momentos independentes da cidade como o Projeto Colibri, o Domingo no Parque, o Armazém, o Visite Jundiaí, a Seattle Brasileira, o Pão e Poesia, o Samba Solidário, o Rap na Rua, os Passeios Ecológicos e muitos outros na sensação de que o convívio é uma ferramenta de paz e de cidadania, estimulando setores públicos e privados a valorizarem ainda mais esse caminho.

Em apenas uma edição passaram por ali com rock, MPB ou rap as bandas Seringueira, Dona Nesia, Dogma, Senso, DJ Lucas Serra, 83 Centavos, Rapper Neg, Brainiacs, Os Vagaiz e Evoluction. E olha que estamos falando de apenas uma das cinco edições.

A lista acumulada de gente boa é grande e inclui além de outros grupos performances, aulas de dança ao ar livre e outras.

Os tempos são outros e existem ações governamentais ou privadas relacionadas com a valorização da cultura, da história, do ambiente e do urbanismo na cidade.

Mas a experiência de compartilhar um fazer coletivo e espontâneo, com princípios compartilhados, é uma vivência de cidadania sem igual – e talvez seja cada vez mais necessária diante da “coisificação” da vida.

A adesão na primeira celebração em dezembro já havia valido a pena como resultado da conversa de domingo entre os jornalistas Flavio Gut e José Arnaldo de Oliveira e o ativista do Pedala Jundiaí, Roberto Fernandes.

Porém todas as outras pessoas que fizeram esse ato mensal tornar-se o evento colaborativo e afetivo que atingiu ser em cinco edições formam algo difícil de descrever pela esperança e pelo orgulho que cria para todos e todas.

O ativista do Pedala Jundiaí, Gianlucca Hernandez, o jornalista e vocalista da banda Boca de Lobo, Galiego Edge, e o fotógrafo e publicitário Lucas Castroviejo foram os primeiros a se engajar e aderir ao conceito DIY (Do It Yourself) ou, em bom português, “faça você mesmo”.

Com eles vieram muitos e muitos outros, como a jovem fotógrafa Dane Dalastra, autora da foto que abre o artigo, o jornalista Gino Tadeu, que fez um filme-poema a respeito do movimento. E bandas, pipoqueiros, artistas de rua, catadores. Gente.

Mas os valores sentidos são algo como cooperação, solidariedade, compromisso, amizade, esperança, energia do bem, democracia, aprendizado, convivência, comunidade, respeito, liberdade, sonhos… enfim, Jundiaí (ou Jundiahy) com maiúscula.

É fundamental que o Estado, em todas as suas esferas municipais, estaduais ou nacionais, tenha políticas públicas voltadas para a ampliação do acesso à cultura em seu sentido mais amplo e que, sempre que possível, sejam enriquecidas com atividades participativas.

Mas também é essencial a experiência das pessoas em ações colaborativas e solidárias para reforçar sua vivência de cidadania,  algo que não se aprende somente em teoria.

O #Ocupa Ponte Torta aconteceu nesta segunda linha, valorizando também ações da primeira no campo da história coletiva e de espaços públicos e focando no papel das novas gerações de cidadãos e cidadãs com um formato lúdico.

Mantendo  esse espírito, os últimos domingos do mês seguirão sendo atos afetivos pela vida por muito tempo.

Um abraço sincero a todos que tornaram essa experiência real — esse texto também foi, de certa maneira, escrito de forma coletiva e compartilhada.

E lembre-se que o próximo #ocupapontetorta acontece no próximo dia 29 de maio. O que vai ter por lá? Como sempre, no mesmo espírito: vai ter aquilo que a gente levar.

José Arnaldo de Oliveira, Flavio Gut e Roberto Fernandes, idealizadores do Ocupa Ponte Torta

José Arnaldo de Oliveira, Flavio Gut e Roberto Fernandes, idealizadores do Ocupa Ponte Torta, em foto de Tati Silvestroni