A importância do restauro da Ponte Torta e a mobilização popular

Por Daniela da Camara Sutti

Tijolos, história, memória, cidadania, solidariedade.

O que de fato importa na nossa vida, na nossa história?

Em um momento que vivemos aonde as relações humanas estão cada dia mais superficiais e a vida humana passa a não ter valor, fico me perguntando sobre nossa relações.

Sobre as relações que valem a pena. E quais são os vínculos indissolúveis.

Penso na Ponte Torta. Na figura da Ponte. No desejo que o homem tem de transpor, de ir além – e do que isso significa.

Penso na construção de pontes, aquelas que fazemos ao longo das nossas vidas – e algumas delas, que nos fazem chegar a lugares antes inimagináveis.

O projeto de Conservação e Zeladoria da Ponte Torta, desenvolvido em 2014, buscou resgatar mais do que tijolos; resgatou pontes emocionais, histórias e memórias – as pontes indissolúveis.

Como metodologia do conceito de Zeladoria, resgatamos essas emoções vividas, e sentimentos – acordamos as histórias de cidadania e solidariedade entre as pessoas, nas diferentes épocas.

Lembramos como essas coisas nos fazem bem.

Um pensamento muito simples, como emprestar uma xícara de açúcar do vizinho, muito comum a tempos atrás, traria com certeza mais doçura e afeto nos dias de hoje – um sentimento quase adormecido entre a sociedade do consumo.

Não falo de saudosismo – falo de se manter aquilo que nos define enquanto seres humanos.

Esse resgate daquilo que nos faz bem e daquilo que fez muito bem para muitas pessoas no passado, passou a ser contado para os jovens. E para crianças.

Lembro-me com carinho de uma oficina com a carreta móvel, no bairro do Jardim Novo Horizonte – um bairro distante e carente de nossa cidade.

Levamos a Ponte Torta e as histórias para lá.

Fizemos uma Ponte entre estas pessoas. As crianças desenharam essa Ponte nunca vista, e nunca visitada.

Dias depois, um pai me contou que o filho havia pedido para conhecer a Ponte Torta, aquela das histórias e dos seus desenhos. Neste momento, a Ponte passou a ser desta criança também – e esta criança passou a fazer parte dos futuros Guardiões da Ponte.

Guardiões da Ponte? Sim, objetivo também da Conservação e Zeladoria: resgatar o vinculo, a memória, as histórias e uma massa de gente, cada vez maior, que possa cuidar e zelar por aquilo que lhe pertence.

E nestes dias, vejo a querida Ponte, resistente ao tempo, ao descaso, a falta de carinho, a governantes insensíveis e a gente que nunca construiu pontes na vida, amanhecer pichada.

Doeu. E percebi que doeu em muita gente.

E como o germinar de uma esperança nestes dias tão tristes de calor humano, brota espontaneamente aquela sementinha cultivada com muito carinho: assisto, feliz, gente se organizando para cuidar com zelo e afeição da sua história – e um mutirão de limpeza civil vai se organizando pelas redes sociais.

Sinto que a velha Ponte, a nova Ponte, a nossa Ponte, ainda tem muito a nos ensinar e como não poderia deixar de ser, continua a fazer novas pontes: resgata aquela solidariedade e a cidadania, entre as pessoas.

Começo a pensar que é isso o que importa em nossa vida e em nossa história, nesta breve passagem na qual somos todos, apenas tripulantes.

Valeu.

Daniela da Camara Sutti é arquiteta e urbanista e ex-secretária de Planejamento e Meio Ambiente de Jundiaí

MUTIRÃO DE LIMPEZA

Neste domingo, 5, a partir das 15 horas, acontece um mutirão de limpeza na Ponte Torta e praça Erazê Martinho, uma iniciativa do grupo Pedala Jundiaí, com apoio das autoridades municipais. O objetivo será remover as pichações da Ponte Torta. O trabalho terá assessoria de Toninho Sarasá, responsável pelo projeto de restauração da ponte.

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