A pichação poética e a não-linguagem

A mais genial frase escrita em um muro de Jundiaí, para alguns, aconteceu na parte dos fundos do antigo DIC no início da década de 1980, ali na rua Zacarias de Góes. Era uma ironia feita com as pessoas sobre a falta de opinião própria que dizia “coma merda, milhões de moscas não podem estar erradas”.

Mas eram coisas dos tempos da pichação poética, de mensagens em forma de frases, que brotou durante o regime militar em rabiscos rápidos de “abaixo a ditadura” feitos contra a censura e com receio das patrulhas.

Com o tempo esse tipo de mensagem ganhou usos até românticos como na região da Cica, durante a década de 1990, em que uma frase assinada por uma tal amiga pedia atenção de alguém com a frase “amigo, me tira desse castigo, vem fazer amor comigo”.

Tudo sempre consciente de ser uma contravenção. Outro formato possível eram os desenhos, com um risco maior por causa do tempo, que trazia uma linha mais visual com os grafites originários do tripé da cultura hip hop (rap, break & grafitti), que passaram a receber espaços autorizados por moradores ou gestores públicos como meio de revelação da arte de rua.

A linha chamada de pichação poética ainda pode ser vista com ecos das décadas de 2000 ou 2010 nas frases de um grupo coletivo denominado #curva, marcando lugares como um tapume na rua Coronel Leme da Fonseca, onde estava um casarão derrubado para fazer mais um estacionamento, com a frase viral “o amor é importante” depois seguida pelo acréscimo de “e a gasolina também”.

O mesmo grupo deixou ainda mensagens desse tipo na região da Ponte São João e até mesmo nos fundos da parte então abandonada do prédio da praça dos Andradas onde se lia “não é você que vive na cidade, é a cidade que vive em você”.

A não-linguagem

Desde a década de 1990, entretanto, também crescia um novo tipo de prática de contravenção formada pela disputa de pontos entre indivíduos ou grupos, geralmente da periferia mas também dos chamados playboys, com a invasão de locais para deixar uma assinatura em código formado por garranchos.

O incômodo e o risco passavam a não ter mensagem. Embora sendo um individualismo, às vezes desinformado sobre as dificuldades e custos de conserto de acordo com as superfícies materiais ou as condições financeiras das famílias atingidas, a manifestação dessa “tribo urbana” somente tem algum sentido como manifestação coletiva.

Mas o que as casas mais simples, os espaços públicos abertos ou os monumentos históricos representam nessa hipótese de protesto inconsciente? Nada, apenas uma oportunidade mais fácil do que lugares mais difíceis que são os que rendem respeito nesse meio.

Deixe um comentário