A vida na tela de cinema em Joaquim. No MovieCom Arte

Por José Arnaldo de Oliveira

Poderia acontecer com qualquer um. Nos tempos em que Portugal mandava, um alferes nas Minas Gerais se apaixona por uma escrava que acaba fugindo do seu senhor branco e pensa em organizar uma tropa para procura-la depois que encontrar ouro ou pedras preciosas. Sabe que sua promoção é difícil, porque não é tão branco como outros. No meio da expedição, testemunha um escravo indígena e outro africano trocando cânticos de suas línguas ancestrais e criando o que poderia ser uma nova cultura.

As montanhas espantam os olhos, assim como os rios de águas límpidas e os animais. Em meio a tudo isso, uma revolta genuína que acaba sendo cooptada pelas elites de “gente do bem” e seus intelectuais com ideais de liberdade trazidos de outros países, mas adaptados a evitar uma crise mais aguda.de cidadania.

Joaquim é um filme para quem não gosta de história, pelo menos do jeito que ela foi criada pela construção do Império e principalmente da República. Não é Tiradentes. É uma ficção sobre o que poderia ter levado essa pessoa a ser transformado no que foi posteriormente, um bode expiatório. E, ao mesmo tempo, uma alegoria sobre o Brasil, mas que fala também a qualquer dos países do mundo que viveram como colônias. Busca o universal no particular.

São atores portugueses, africanos e indígenas. E um jundiaiense do interior paulista, Júlio Machado, como um dos protagonistas ao lado de Isabel Zuáa, Karay Rya Pua, Nuno Lopes e Welket Bungué. O filme é todo rodado na região mineira de Diamantina, onde todos ficaram por semanas conhecendo os locais, as pessoas, os pontos de passagem sobre rios a cavalo, sentindo carrapatos e desviando de escorpiões, criando o cotidiano do filme antes mesmo de receber o roteiro. O resultado é fabuloso.

A luz é natural. O que significa que o dia é dia, o entardecer é entardecer, a noite é escuridão. Nem dá para imaginar o que tenha sido carregar câmeras de filmagem por tantos lugares diferentes, alguns quase inacessíveis. A beleza está presente mas é outra, longe das roupas limpas e dos dentes alvos de Hollywood. Também não é um panfleto ideológico. É apenas, e muita, vida.

Mas estamos falando de uma ficção passada por volta de 1780. Uma época em que a mistura do português com o tupi da chamada língua geral havia sido proibida por Portugal. Em que o terremoto de Lisboa provocara o aumento de impostos em todas as vilas. Em que capitães do mato eram contratados para com suas tropas exterminarem quilombos de escravos fugidos e exibirem as cabeças de seus líderes espetadas. E isso valia tanto para todas as vilas mais antigas, de Vila Rica a Jundiahy ou Paraty.

No meio de tudo isso existiam tanto a violência como o amor, tanto a solidão como a paixão, tanto o privilégio como a liberdade. Parece atual? Não é essa a intenção explícita, mas é um efeito comum. .

A melhor coisa é conferir por si mesmo. Neste domingo (4), tem nova sessão às 11 horas no MovieCom Arte, no Maxi Shopping, a R$ 10,50. Com a presença do ator Júlio Machado para conversa no final, em iniciativa que exigiu muito diálogo da gerente Fátima Augusto com a distribuidora. Para lembrar que o filme foi aclamado internacionalmente no Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale. Mas acima disso é algo que toca no coração de nós, brasileiros.