Amplifica quer mostrar a riqueza da arte local que a cidade não conhece

O objetivo do Amplifica 2017, Festival Sesc de Música Independente, que acontece de 3 a 11 de junho, é, acima de tudo, mostrar para a cidade a riqueza da produção musical local que, muitas vezes, não é enxergada pelo grande público.

Conversamos com o músico, DJ e produtor Jota Wagner que, ao lado do jornalista e crítico Ricardo Alexandre, idealizou o festival.

O Amplifica 2017 vai fornecer às bandas independentes de Jundiaí e região estrutura profissional e espaço para que apresentem suas composições ao público local, dando assim condições para aprimorarem sua base de fãs.

Pela primeira vez o Sesc abre as portas para um festival com bandas da cidade e região. Qual a importância disso pra a cena local?
 
O Sesc é a maior fomentadora de cultura da cidade. A instituição trouxe à cidade um gás que precisávamos muito! O festival foi criado para aproximar a cena musical criativa da cidade à população da região utilizando o Sesc como portal.  
 
Uma cena só sobrevive quando a cidade a adota. Não estou falando de um pequeno grupo de amigos da banda. Estou falando de toda a cidade. É assim com Porto Alegre, Curitiba, Londres, São Francisco ou Nova Iorque. Sem uma boa dose de bairrismo, a cidade fica estéril.
 
Como é que surgiu a ideia de um festival que não é só de som, mas que vai trazer os grandes nomes da produção brasileira para a cidade e conhecimentos para os artistas locais.
 
Adicionar um conteúdo formativo ao festival foi ideia do Sesc. Incluímos, no evento quatro palestras voltadas ao músico independente e a exibição de quatro filmes que contam a história da música “na unha” por artistas de todo o Brasil. Este conteúdo elevou o Amplifica 2017 a um novo patamar, algo que a cidade nunca viu. Eu não vejo a hora disso tudo começar!
 
O Sesc é reconhecido por sua qualidade de instalações, equipamentos e por sua capacidade de organizar eventos com ótimo publico e abrangência. Como se deu essa conexão sua com o Sesc?
 
No começo do ano passado, eu discotequei em um evento no Sesc, promovido pelo coletivo Itinerâncias 493. Conheci o antigo responsável pela programação musical do Sesc, contei nossa história no underground jundiaiense (minha e do Ricardo Alexandre, o outro curador do festival) e da necessidade de incluir os artistas locais na programação.
 
Ali começamos a discutir o formato do festival, como uma forma de abraçar a cena regional. As ideias foram se desenvolvendo em conjunto até o formato final. O Sesc abraçou a ideia e topou realizar este festival desde o início. A unidade toda está mobilizada, vai ser incrível.
 
É importante destacar que os artistas terão à sua disposição a mesma estrutura de som e luz das grandes bandas, nacionalmente reconhecidas, que se apresentam no Sesc. No dia anterior ao primeiro show acontece a apresentação da banda Plebe Rude lá. Palco, som e luz permaneceram montados, com a mesma qualidade, para os shows seguintes do Amplifica.
 
E sua ligação com os grandes produtores que estarão falando aqui pela primeira vez? Isso vem da origem do Burt Reynolds e seu trabalho como DJ? Conta um pouco a esse respeito.
 
Todos são contados “da vida”. Conexões que foram sendo feitas ao longo do tempo. No meu caso com o trabalho com o Burt Reynolds, as discotecagens e as viagens. O Ricardo conhece “meio mundo” no ramo da música graças a seus diversos projetos. Os palestrantes juntos, tem um conhecimento sobre a música independente que é de um valor inestimável e vai ser disponibilizado gratuitamente aos artistas da região.
 
Pena Schmidit foi técnico de som dos Mutantes!! O primeiro no Brasil a montar a mesa de mixagem no meio do público. Foi tambem presidente da Warner e da Associação Brasileira de Musicos Independentes.
 
O Gabriel Thomaz, da banda Autoramas, tem uma experiência de duas décadas gerenciando a carreira da sua banda, controlando todas as etapas do processo. Está disposto a dividir isso com novos artistas o tempo todo.
 
O jundiaiense Ricardo Alexandre é responsável por livros e documentários indispensáveis para entender a história do rock no Brasil e foi editor da lendária revista Bizz. Vai falar sobre como o artista deve se comunicar com as mídias.
 
O Leo Bigode é o cabeça do Goiania Noise, o maior festival de música independente do país e também criador da Monstro Discos. É muito, mas muito conhecimento à disposição das pessoas, que poderão interagir com os palestrantes em workshops limitados a 30 pessoas.
 
Tem a história de Jundiaí, a Seatlle brasileira — que é isso? Como surgiu esse selo, essa ideia. E, de lá pra ca, como mudou a cena local? E como você vê a cena local, atualmente?
 
O movimento da Seattle brasileira foi importante como uma explosão que trouxe exposição para a cena da cidade. De lá pra cá muita coisa aconteceu, várias gerações já se sucederam na missão de manter viva a criação musical na cidade.
 
Para mim, o Fistt por exemplo ainda é uma banda de garotos. Me lembro de quando conheci o Bode, do Gasoline Special no extinto Melody Pub e ele usou o termo “velho” para se referir a si mesmo… eu pensei “Oi?!”  São muitas e muitas camadas que se sobrepõe formando algo muito rico. 
 
Esta riqueza não é enxergada pelo grande público da cidade ainda. Muitas vezes não é enxergada nem mesmo pelos músicos. Não adianta achar que você vai projetar sua banda antes de projetar sua cena. O caminho é o contrário.
 
Se todos olharem para o mesmo objetivo, que é transformar os quase 1 milhão de habitantes de Jundiaí em “púbico”, o resultado disso será automaticamente a projeção das diferentes bandas da cidade no cenário nacional. 
 
Se você, músico, não tem esta visão. Então a única solução é mudar com toda a sua banda para um grande centro, como os que citei no início da entrevista. Senão só há este caminho: Amplificar o som, para que todos ouçam!
 
Leia também

Deixe um comentário