Araken vê Plano Diretor como alternativa para cidade cada vez melhor

Por José Arnaldo de Oliveira

Para o arquiteto e urbanista Araken Martinho, um dos pioneiros da elaboração do primeiro Plano Diretor de Jundiaí (de 1969, posteriormente revisado até os dias atuais), o processo do novo Plano Diretor Participativo, que gerou o projeto de lei que vai ser analisado pela Câmara Municipal, ocorreu em uma época em que a cidade viu transformadas todas as suas funções.

“O motivo não é o que aconteceu aqui, mas porque a globalização chegou aqui. Desde o início do século 20 a cidade ficou acostumada a se pensar como o local onde as coisas aconteciam. Eram funções diferentes e ligadas, como ser o lugar onde eu moro, que continua, ou o lugar onde eu trabalho, que, em muitos casos, deixou de ser. O comércio segue, as indústrias deixaram de ser o que eram. É outra conformação. Nisso tudo, a política territorial torna-se uma última linha de organização própria”, afirma.

Ele aponta que as indústrias, antes locais, passaram a fazer parte de um processo internacional. Em vez de uma máquina, passam a fazer apenas uma certa peça, por exemplo. Ele lembra que os planos anteriores eram feitos pensando no lugar do trabalho (como o Distrito Industrial), no lugar de comércio (por muito tempo era o Centro) e assim o lugar de morar, de passear, de se divertir. Com o novo contexto, a tarefa ficou mais difícil.

Por esse motivo, ele destaca que o Plano Diretor Participativo teve avanços como perceber que a questão do trabalho hoje se resolve fora dos limites da cidade (como em Nova York ou Cingapura) e focou objetivamente em como proteger o território da cidade. “É o que temos de real”, afirma.

Seguindo nesse raciocínio, ele destaca que a pergunta seguinte é pensar o que tem nesse território que é fundamental para a sobrevivência das pessoas. Pensar na terra, pensar na floresta, pensar na poluição ambiental, pensar na qualidade de vida dos moradores.

“Essas coisas ganharam importância. Veja, a gente ficou famoso durante muito tempo pela Dae, por saber tratar da questão da água. Mas não se esqueça que nesse tempo todo a água já vinha importada, de outro rio para cá. A gente tomou cuidado de fazer uma represa para isso e nosso rio Jundiaí-Mirim é um pequeno ribeirãozinho. Isso quer dizer que estamos a perigo apesar de ter tratado bem da água. Portanto, é preciso descobrir de novo como essa água brota, e aí a gente percebe que precisa tratar da terra, porque, se não tratar, a água vai embora. Como foi feita a reserva do rio que sequer usamos, o Capivari, mas que abastece as cidades a partir de Louveira até Campinas. O rio Jundiaí também, o projeto de despoluição vai iniciar o processo de qualidade que ele deveria ter. A qualidade com que a Serra do Japi está sendo cuidada é de gente séria. Então, esse plano tem esses méritos de cuidar pensando em toda a comunidade mesmo”, diz.

Ele lembra que são inevitáveis alguns conflitos, porque as regras para se cuidar de um território são diferentes das regras do mercado de capitais. No caso do ramo da construção civil, sempre vai ser buscado o que há de melhor para o retorno. O interesse público e o interesse particular fazem suas buscas, mas cabe à Prefeitura apontar onde pode ou não.

“A qualidade do município inteiro é uma galinha dos ovos de ouro para todos, precisa estar acima de tudo”, comenta.

Sobre as mais de 11 mil participações ocorridas ao longo dos dois anos e quatro meses de construção do Plano Diretor, Araken afirma que foi algo extremamente positivo.

“Foram pessoas dos bairros apontando prioridades e depois, em escala menor, discutindo. E se percebeu que aquilo visto como periferia da cidade é onde mais a cidadania se organiza. Onde mais as pessoas conhecem as pessoas e mais cuidam de seu espaço. No centro populoso, com mais prédios, as pessoas podem até morar mas perdem a intensidade de vizinhança”, afirma.

“Precisamos regar a raiz dos locais onde a vizinhança realmente ainda se dá, onde as pessoas criam civilização. Porque é muito fácil você pular do ser civilizado para o ser consumidor. Eu valho pelo que eu compro mas não pelo que eu sou, pelo que sei, pelo que sou capaz de ajudar. O mero consumidor deixa de ser o cidadão que constrói um projeto civilizador”, destaca Araken.

O mundo não é apenas uma máquina, acrescenta o urbanista, e mesmo quem consegue adquirir dinheiro precisa também viver, conversar, conviver. Ele lembra que, mesmo para o setor imobiliário, não deve interessar o fim da qualidade de vida de Jundiaí e, portanto, a todos interessa um plano adequado e equilibrado nas regras gerais.

“Você vê coisas horríveis na periferia ou até no Centro de São Paulo e nota que os construtores não gostam daquilo. Garanto que todos gostam mais de Paris, onde os parques estão cuidados, os monumentos preservados até hoje, tudo direitinho. Se esse plano conseguir criar a cidadania entre os moradores de Jundiaí, ele já fez muito. Se conseguir criar a noção de que somos todos homens e mulheres sobre a terra e somos responsáveis por ela, melhor ainda”, conclui.