Artistas recriam formato clássico de espetáculo no Espaço Barravento

Por José Arnaldo de Oliveira

A diversidade que caracteriza o novo Varietè Cultural, criado por artistas relacionados com o Espaço Cultural Barravento, não é propriamente um sarau e também não é uma categoria comum de espetáculo.

Ao colocar em um espaço intimista uma variedade formada por palhaços, músicos, dançarinos e “performers”, não necessariamente nessa ordem, o efeito mágico lembra antigos cabarés que conhecemos apenas pelo cinema.

Se o mundo está tenso, precisamos de uma ambiente intenso. Ou, parafraseando José Celso Martinez Correa, em vez de usar a palavra resistência prefira pensar em reexistência.

Desta vez são outros artistas que já passaram por experiências, por debates, por pesquisas.

Lima Bo mostra um trabalho onde o corpo é o meio de expressão entre a dança, o teatro e a linguagem. Celso Júnior e Daniel Zanna invadem o picadeiro imaginário com a dupla de palhaços musicais de Bronislav Setembrochov.

Com projeções que fazem de seu corpo uma parte da tela, Lucy Pavlsh leva os olhos para uma reflexão sobre a cidade e a natureza. Elis altera a respiração com manobras suaves no tecido acrobático.

Adhê Francisco marca com dança uma batida quase tribal. Ana Loureiro comanda uma movimentação forte do corpo pelo espaço. Bocudo Faria conduz vários momentos com seus instrumentos musicais.

Cláudio Albuquerque faz algumas rápidas intervenções com entonações teatrais. E assim por diante. A soma de tudo fica além do resultado de cada um.

Como em um espetáculo castelão ou um folguedo popular, as passagens se fortalecem mutuamente e o silêncio é uma reação natural de quem está apreciando o evento como que descortinando uma paisagem.

Na maioria os participantes trazem uma formação acadêmica de vivência em universidades. E sabem que nem sempre o espaço de criação é o mesmo espaço dos espetáculos. Nesse caso, ambos estão presentes.

Nos bastidores, a preparadora vocal Juliana de Deus e o chef Paulo Ferreira acompanham o andamento. Tudo acontecendo, por acaso, na mesma região da Ponte São João, onde já existiram tradições como corridas de carriolas ou de tamancos, campeonatos de mentiras, imigrantes operários ou artesãos e manifestações como o irreverente bloco Estamos na Nossa.

Um espaço menor, como convém ao surgimento de criações com potência para ocupar espaços maiores destinados a formatos predefinidos.

O intervalo serve para alguém lembrar que a arte precisa buscar conexões com o seu tempo, com os sentimentos das pessoas, com a cidade, com a serra, com o ambiente.

No espaço cultural que leva o nome Barravento (do primeiro filme de Glauber Rocha) nascem um formato e uma energia que podem ser importantes para outros corações e mentes.

 

Fotos by Rodolfo Zanetta, do Curta Cidade