“Banda que só investe em like do Facebook só consegue público na Internet”

Por Flavio Gut

Sem um investimento em conexões reais, dificilmente uma banda consegue abrir espaço e ganhar um público fiel. “Quem só investe em likes no Facebook só consegue público no Youtube”.

A afirmação é de Gabriel Thomaz, vocalista e guitarrista da banda Autoramas, que está há 19 anos na cena independente e alcançou na véspera da palestra uma exibição “mainstream” em pleno programa nacional do apresentador Sérgio Groisman – sem grande gravadora nos bastidores – e segue em circulação pelo circuito – inclusive com um show memorável no Aldeia, em Jundiaí. .

Gabriel tocou no x da questão em sua palestra de domingo no Amplifica do Sesc, Auto Gerenciamento de Carreira Artística: o trabalho que uma banda tem que fazer, além da música em si, para ter seu público perto e garantir sua existência. É esse trabalho árduo que, quando bem sucedido, permite ao artista o grande sonho de “viver de música”.

Mas não é fácil. Exige dedicação.

No início da carreira, Gabriel Thomaz chegou a viajar diversas vezes de Brasília, onde vivia, para São Paulo e Rio apenas para entregar uma fita demo de sua primeira banda, a Little Quail (naquela época, uma fita cassete demo era o único jeito de fazer com que produtores, bares e gravadoras pudessem conhecer o trabalho de um artista).

“O trabalho olho no olho continua sendo fundamental, mesmo em tempo de internet”, explicou ele para uma platéia lotada e atenta na tarde do domingo.

“A banda que só investe em likes do Facebook só consegue visuzalizações no Youtube”, provocou.

Daquele trabalho inicial e depois com a banda Autoramas, Thomaz foi fazendo contatos, amigos e um público fiel que hoje acompanha as turnês.

Thomaz já fez parte do mundo das grandes gravadoras, o sonho de qualquer artista. Um sonho que tem seu lado mágico quando funciona (para alguns apenas) e muito de pesadelo quando não rola. No caso do Little Quayle, por exemplo, um detalhe mostra como uma gravadora pode escravizar um artista.

Recentemente, conta Thomaz, ele resolveu colocar nas plataformas digitais todo o trabalho da carreira. Mas esbarrou num problema: um de seus discos foi gravado pela Virgin, e a gravadora detém todos os direitos. Logo, não permitiu que fossem disponilizados os arquivos na internet.

“Ser independente tem seu lado ruim, de ter que fazer todo o trabalho e todo o esforço, mas permite ao artista ser dono de toda sua obra”.

Uma banda independente para fazer sucesso precisa pensar em parcerias não apenas com produtores e casas de shows, mas entre outras bandas também.

“Não se faz a cena com um banda só. É preciso se juntar, trabalhar em conjunto para criar um ambiente onde muitos artistas possam aparecer”. Ele citou o caso de Jundiaí com o próprio Amplifica, um festival que coloca no principal palco da cidade os artistas locais.

Deu, de certa forma, um puxão de orelhas nas bandas e artistas locais. E também no público, uma vez que a frequência tem sido muito abaixo do que seria razoável para um festival desta magnitude.

“Hoje tem muita competição entre as bandas. Um ambiente bem diferente do início dos anos 90, onde havia uma mistura bem maior de músicos com estilos completamente diferentes. A gente era amigo da galera, fazia amizade. Um ajudava o outro”.

E vai a dica.

“Uma cena não existe só com uma banda. É preciso ter uma união sincera. Um se interessar pelo que a outra banda faz. É mais fácil alguém olhar para cena quando muita gente está envolvida”.

Thomaz dá novamente o exemplo de Jundiaí, onde acontece o Amplifica (e também o Sexta Autoral do Aldeia e o Ocupa Ponte Torta, espaços para a música independente, sem contar com o tradicional Bar do Bilé).

O produtor cultural e baterista (do Burt Reynolds) Gustavo Almeida, que também esteve na palestra, observou uma coisa importante — pelo Sexta Autoral, por exemplo, já passaram (desde 2012) mais de 150 bandas.

“Uma banda, independentemente de estar tocando, precisa estar inserida no circuito. Tem que ter uma parceria com todo o círculo. Ser vista”.

O que Thomaz aprendeu com a experiência de 19 anos do Autoramas é que é preciso usar todos os meios da internet, mas continua a trabalhar conquistando espaços no mundo real. E isso envolve a participação, quando possível, de assessoria de imprensa e profissionais de marketing.

Foi através desse trabalho que semana passada, agora no sétimo disco, que o Autoramas conseguiu um espaço no Altas Horas, da Rede Globo. Foram inúmeras tentativas e contatos até chegar.

Mas o caminho de uma banda independente também implica no desenvolvimento de uma marca. Uma banda precisa ter uma cara, fotos que representem verdadeiramente o som, releases para a imprensa.

“Tem que fazer o simples. Ser fácil de perceber o que a banda faz, qual o trabalho dela”.

Com isso e muitos contatos, o Autoramas já tocou em todos os estados brasileiros e fez 11 turnês internacionais. Começou com um contato casual com uma banda japonesa. Veio a primeira turnê e depois América Latina e Europa muitas outras vezes.

“Mandei 500 emails para depois de um ano receber um sim”.

O jornalista Ricardo Alexandre fez sua palestra em seguida, Comunicação Entre Artista e Mídia, também para um público interessado e sala lotada.

Alexandre, que é um respeitado jornalista especializado em música e no mercado musical em si, deu dicas preciosas para as bandas que querem conseguir um espaço na imprensa.

A primeira delas:

“Jornalista não existe pra dar força para bandas, mas para atribuir valor à cultura”.

Segundo explicou a cultura só existe quando alguém dá valor a ela. E esse é o trabalho do jornalista, especialmente o jornalista do mundo cultural.

O jornalista cultural é parte da cena, pois é capaz (ou deveria ser) de detectar o novo e gerar espaço para que o artista se manifeste.

Hoje o artista tem que competir com toda a obra musical já publicada na internet e ainda com os inúmeros lançamentos diários. Por isso, é fundamental que saiba se colocar e assim ganhar a atenção do jornalista.

“Alguém que lança um EP hoje vai estar competindo com os 50 anos de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.

E explicou que a imprensa espera do artista os valores de uma boa matéria (como qualquer outra em qualquer outro ramo do jornalismo, diga-se).

“É preciso ter assunto”.

Ou seja, uma banda precisa além de ter um som original e único, ter uma forma profissional de transmitir isso ao público (através dos jornalistas). Isso implica ter boas fotos, um bom release, gravações de qualidade que possam ter tocadas nas rádios e uma capacidade de falar, de se expressar.

Ricardo Alexandre deu o exemplo de Paul Mccartney, que antes de dar uma entrevista estuda o jornalista. Na hora, chama pelo nome, fala de assunto comuns. Enfim, como se fosse necessário, cria uma empatia. E, obviamente, ganha manchetes.

“Uma boa entrevista precisa de um bom título, boas aspas, boas fotos”, explica. “Tem que ter boas declarações”.

E o que o artista precisa fazer pra ser lembrado.

“O artista tem que estar na cena. Tocando ou não. Tem que estar presente”. E citou o exemplo do Ocupa Ponte Torta, onde várias bandas independentes já se apresentaram.

O que deve evitar?

“Fica na bolha da internet com uma geração de puxa-sacos dando likes. Junta um monte curtidores e na hora do show não tem público”.

E precisa ter personalidade. O lendário produtor Liminha disse uma vez ao Ricardo Alexandre: “Quando vi os Mutantes pela primeira vez tive a mesma sensação de quando vi Beatles”.

O que ele estava querendo dizer com isso? Que a banda tinha (e tem) personalidade. Tem algo além da música. Na forma de ser, de se comunicar. E isso inclui a produção.

“Aquele que encara a música pela música vai ficar tocando apenas para músicos. Não que isso não seja legal, mas o público vai ser bem menor”.

A chave é:

“Comunicação é atitude”.

A banda tem que pensar também no que fazer para convencer o pauteiro do meio de comunicação de que vale a pena escrever a respeito dela.

Um dos exemplo citados, de um bom trabalho, é da banda jundiaiense NDK, que tocou no primeiro dia do Amplifica. Um dos integrantes da equipe de marketing da banda acompanhou as palestras de Gabriel Thomaz e Ricardo Alexandre.

O NDK tem presença de palco, um set de músicas adequado ao seu público, seus integrantes atendem aos fãs e o grupo ainda vende produtos ligados à marca.

O resultado desse atenção é que a banda vai estar na sexta-feira na rádio 89 FM e no dia 10 abre o João Rock, em Ribeirão Preto, ao lado da banda paranaense Machete Bomb.

Com fotos de Tati Silvestroni e entrevistas em video by Bruno Galiego