O cidadão global acontece nas cidades

Em seu novo livro Net Smart, o ciberguru Howard Rheingold afirma que as redes sociais estão mudando a forma como pensamos. E de uma forma tão vigorosa que o período atual pode ser considerado uma versão participativa do Renascimento.

Um período onde um enorme poder está disponível através da conexão de pessoas. “Você pode apenas ler ou comentar ou classificar ou dar um like ou + em alguma coisa, até criar uma comunidade virtual organizando a inteligência coletiva”, explica Rheingold.

A ong jundiaiense Voto Consciente sabe disso. E usa seu poder de conexão para mobilizar de forma inteligente uma grande massa de pessoas dispostas a trabalhar pela cidade que sonham. Sua página no Facebook tem mais 1.800 likes.

No ano passado, a organização conseguiu mobilizar 3.600 pessoas no Concurso Cidadonos que selecionou 12 metas para a cidade entre mil ideias apresentadas.

Agora, em ano de eleições municipais, quer o compromisso dos candidados com as propostas apresentadas. A ideia é fazer sabatinas públicas na qual cada candidato revelará seu comprometimento com a implantação das 12 ideias da chamada Agenda Cidadã.

E, além disso, distribuir na cidade 20 mil exemplares de uma Ficha Pública que conterá as respostas de candidatos e coligações sobre as ideias do concurso, estabelecendo metas e prazos de execução.

Para conseguir o dinheiro necessário para a campanha, a ong mais uma vez recorre à força da rede, através do financiamento coletivo (crowdfunding), no site Catarse, onde arrecadou R$ 22.000,00.

“O dinheiro vai todo para o projeto, para impressão e distribuição dos materiais (Ficha Pública, ranking e carteiras do Voto Consciente) que serão usados nas ações de educação política e sensibilização para o voto de qualidade,” garante Henrique Parra Parra Filho, voluntário do grupo.

A ação da Voto Consciente funciona porque a comunidade se apropriou da ideia e participa também do resultado. É o que a economista e administradora Ana Carla Fonseca Reis, autora de diversos livros, entre eles Cidades Criativas – Perspectivas, chama de “apropriação”.

Ao implantar colocar as ideias dos cidadãos jundiaienses em ação, a Voto Consciente não só se apropriou da ideia como conseguiu fazer a conexão entre o local e o global, uma das condições apontadas por Ana Carla para que uma cidade seja capaz de gerar criatividade e se reinventar.

Jundiaí vive um momento de espantoso crescimento. É parte do movimento global que faz com que mais da metade da população do planeta viva em cidades. Uma tendência ainda mais acentuada no Brasil onde 84% das pessoas já vivem em centros urbanos.

Se, como diz Howard Rheingold vivemos uma versão participativa do Renascimento, esse Renascimento, com certeza, acontece nas cidades.

Há vários termos que buscam explicar esse processo de renascimento urbano. As pessoas se deram conta, afinal, que o cidadão global acontece nas cidades. Alguns falam de cidades inteligentes ou cidades criativas. Outros preferem chamar de cidades inovadoras ou cidades sustentáveis.

O arquiteto Pedro Rivera, do Studio-X, uma rede global de pesquisa que explora o futuro das cidades, prefere uma definição mais simples e direta: cidades que funcionam. Cidades capazes de proporcionar qualidade de vida para quem mora nelas.

“O que faz uma cidade inteligente são pessoas inteligentes”, resume.

Mas não é só isso: é necessário também articulação, a ação conjugada do poder público com a iniciativa privada e a sociedade, juntos na busca de soluções. Está claro, acredita Ana Carla Fonseca, que nenhum dos atores é capaz de promover a mudança sozinho.

É isso, por exemplo, que a Voto Consciente busca fazer em Jundiaí.

A chave é trabalhar em rede, como afirma Augusto de Franco, criador da Escola de Redes e um dos organizadores da Conferência Internacional de Cidades Inovadoras . Para ele, as cidades precisam ser conectadas, ágeis e com sistemas locais de governança.

A praça de Atenas

O mundo vive, na realidade, uma mudança de era, e não apenas uma era de mudanças, observa Franco, citando a frase cunhada por Eamonn Kelly, sócio da consultoria Monitor Group, em sua obra Powerful Times: Rising to the challenge of our uncertain world. E não é fácil perceber quando se está em meio a essa mudança.

O fato é que a humanidade se deu conta, na prática, de que 193 estados-nações não são suficientes para atender às necessidades de mais de 7 bilhões de pessoas, a maior parte delas vivendo em cidades. São governos centralizados demais para perceber as particularidades de quem, por exemplo, pega ônibus todos os dias.

Como resultado, nas últimas décadas as mudanças sociais estão criando condições favoráveis à autonomia das cidades, do ponto de vista de seu desenvolvimento. Uma tendência que remonta à Atenas de 509 a 322 a.C., onde pela primeira vez a cidade deixou de ser o Estado para tornar-se comunidade.

Em Atenas, as decisões eram tomadas democraticamente em praça pública, fazendo com que as soluções surgissem das pessoas e para as pessoas. Pensar a cidade do século XXI, na visão de Franco, é retonar à essa raiz ateniense.

A diferença para os dias de hoje é que comunidades conectadas via internet trocam informações em tempo real, o que permite a disseminação de ideias e soluções mundo afora. A praça de Atenas seria hoje uma rede global de conversas em praças interconectadas. “E a maneira como você se conecta a outras pessoas é o que determina o comportamento coletivo”, explica Franco.

Imitação

Essa conversa global permite a reprodução de um típico padrão da natureza, a imitação, ensina Franco: “Tudo que é vivo se desenvolve por imitação (cloning)”. E, assim, soluções encontradas em determinada parte do planeta são recriadas com sucesso a milhares de quilômetros de distância.

Foi dessa maneira que o arquiteto Jaime Lerner, quando prefeito de Curitiba na década de 70, criou um sistema de transporte rápido por ônibus em corredores exclusivos, o BRT, sigla para Bus Rapid Transport, e esse modelo foi reproduzido com sucesso em mais de 80 países.
No ano passado, a versão chinesa do BRT ganhou o prêmio de Transporte Sustentável (2011 Sustainable Transport Award).

Implantado em Guangzhou, o projeto original foi aperfeiçoado, incorporando-se outra ideia global: bicicletas de aluguel nos terminais de ônibus, a exemplo do que já fizeram Paris e Londres, para citar apenas duas cidades.

Replicar boas ideias pode ser o caminho mais rápido para que, em 40 anos, o mundo encontre um jeito de acomodar 70% de sua população em cidades, como estimam os dados da Organização das Nações Unidas.

Para o arquiteto Rivera, o Brasil já tem uma dimensão clara do que será o desafio planetário pós-2050. “Nós já sabemos o tamanho do problema.”

Carioca, Rivera está profundamente envolvido no repensar da cidade do Rio de Janeiro, como um dos criadores do Distrito Cultural da Lapa, dos Centros Integrados de Cultura e diversos projetos habitacionais no centro do Rio.

Ele concorda com a opinião de Augusto de Franco e dá exemplos de como a imitação pode ser utilizada para a melhoria da vida nas cidades.

“O teleférico é uma tecnologia conhecida há muitos anos e foi redescoberto como alternativa de transporte em áreas de difícil acesso. Medellín e Bogotá, na Colômbia, implantaram seus sistemas recentemente e, também o Rio de Janeiro, onde o bondinho do Pão de Açúcar funciona desde 1912, colocou em funcionamento o Teleférico do Alemão – um conjunto de 152 cabines com capacidade para 10 passageiros cada uma, interligando as diversas favelas da região do Morro do Alemão.

“Essa é uma das formas de pensar o transporte público de maneira não convencional e dar um novo uso criativo a uma tecnologia já existente” diz Rivera.

Na Colômbia, as intervenções se deram de forma ainda mais radical, com a construção de obras públicas de alto valor social e arquitetônico nos locais de mais baixo IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, transformando completamente o olhar da cidade para aquelas áreas, ao valorizar locais antes desprezados pela comunidade.

“Isso cria um espaço de potência capaz de alterar as relações entre as pessoas e a cidade”, acredita Rivera.

Segundo ele, o mesmo vem acontecendo no Rio com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que aos poucos reconquistam espaços antes esquecidos pelo poder público. “O espaço público é o espaço da diversidade. Integrar e entender as potências da informalidade é perceber a inteligência da cidade”, diz.

As ações na Colômbia e no Rio não são muito diferentes das colocadas em prática em São Paulo, durante o governo Marta Suplicy, com a construção dos Centro Educacionais Unificados (CEUs), ou do projeto de revitalização da região central de Santos, o que Jaime Lerner chama de acupuntura urbana, ou seja, uma ação pontual capaz de trazer novo fluxo de energia para determinada região.

Ações que tanto podem partir do poder público como de grupos organizados – ou não – da sociedade.

Faça-você-mesmo

A característica desse movimento é que muita gente já atua de forma independente e não espera mais por autorizações ou pela iniciativa de governos para colocar em prática as transformações de que a cidade precisa. Há um renascimento do faça-você-mesmo com pessoas promovendo intervenções na paisagem urbana, algo que vem sendo chamado por alguns de wikiurbanismo.

Em Guadalajara, no México, por exemplo, um grupo de ciclistas decidiu fazer uma ciclovia por conta própria. Cansados de esperar pelo poder público, criaram equipamentos, placas de sinalização e foram à luta. A iniciativa foi documentada por um vídeo que está no YouTube.

Nem sempre essas intervenções podem ser chamadas de inteligentes ou consideradas de bom gosto por todos, como afirma o sociólogo Gordon Douglas, da Universidade de Chicago, mas demonstram um interesse pela retomada dos espaços públicos por parte das pessoas. Nos Estados Unidos, muita gente está instalando mobiliário público, como bancos em pontos de ônibus, vasos de plantas e dando novos usos a velhas cabines telefônicas.

Em seu blog, Gordon Douglas documenta diversas dessas iniciativas.

Na mesma linha faça-você-mesmo, Marci McGuire conseguiu que 10 mil trabalhadores deixassem seus carros em casa diariamente e seguissem de ônibus para um parque de escritórios em San Ramón, a 68 quilômetros de San Francisco, na Califórnia. Marci, que é a gerente de transportes do parque, centrou sua ação não apenas no aspecto ambiental, mas na mudança de cultura. “Passou a ser legal ter um passe de ônibus”, conta ela.

Mais ágil que a burocracia

O que faz o programa funcionar, explica a jornalista Lisa Margonelli, especialista em transportes, é a ação da própria Marci, que, diariamente, percorre com sua equipe o local buscando trazer mais adeptos ao sistema. Uma das inovações dos ônibus que servem ao parque é um rack para bicicletas.

A ação de Marci McGuire é o fato catalisador que explica o sucesso, diz Ana Carla, a autora de Cidades Criativas. É a cola que une as iniciativas privada, pública e a sociedade civil em um projeto transformador. Foi assim também que Bagé, no Rio Grande do Sul, ganhou ônibus com racks para bicicletas.

O gerente da empresa StadtBus, Maiquel Frandoloso, trouxe a ideia de uma viagem à Europa e, de volta ao Brasil, rapidamente colocou o serviço em operação. “Gostamos de inovações”, explica. A mesma empresa tem internet e TV em seus ônibus. Frandoloso usou na StadtBus uma das chaves para a transformação das cidades, como observa Jaime Lerner: colocar em prática rapidamente as boas ideias para que elas não se percam na burocracia do Estado.

Em Curitiba, a Ópera de Arame, uma sala de espetáculos projetada pelo arquiteto brasileiro Domingos Bongestabs, foi construída em apenas 75 dias.

Boas ideias trafegam na velocidade das redes sociais, reproduzindo o modelo boca a boca das pequenas vilas. Um sem-número de redes privadas, governamentais e não governamentais, são dedicadas à discussão de boas práticas para o novo mundo das cidades.

A Rede Global de Cidades Inovadoras é uma delas. Sua proposta é agregar cidadãos que sejam inovadores. “Se a cidade reflete as características de seus habitantes, não há cidade inovadora sem cidadãos inovadores.”

Já o Observatório das Metrópoles é um grupo que reúne 200 pesquisadores de 51 instituições dos campos universitário, governamental e não governamental, que produz e dissemina conhecimento.

E no Ministério das Cidades existe o Conselho das Cidades, criado com o objetivo de ser uma verdadeira instância de negociação entre o governo e a sociedade nas áreas habitação, saneamento, mobilidade e planejamento urbano (cidades.gov.br/ conselho-das-cidades). Também com o propósito de agregar iniciativas, há a UN-Habitat, o programa das Nações Unidas para assentamentos humanos.

Essas são algumas das ferramentas que a sociedade dispõe hoje para enfrentar o desafio de um mundo que se organiza cada vez mais em rede. Uma rede global de cidades interconectadas, como enfatiza Augusto de Franco. “Não existe uma solução global. Todas as soluções são glo-cais.”

Um desafio, especialmente, para governos ainda organizados de forma hierárquica, como mostra a iniciativa da Voto Consciente, um organização com cada vez mais representação política capaz de impor de imprimir um novo ritmo às eleições muncipais deste ano.

Geografia mental

A cidade como espaço público é a representação da diversidade. Nele estão presentes todos os atores da transformação e revalorização das comunidades, cada qual com o mapa mental e emocional de seu território. Quanto mais ampliarmos nossos mapas emocionais, mais estaremos integrando nossas cidades, acredita Pedro Rivera.

A São Paulo do arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, por exemplo, começa em Campinas e vai até Santos, e de Sorocaba a São José dos Campos, uma vasta área onde diariamente 1 milhão de pessoas troca de município para morar, trabalhar e estudar. Um megapolo de megaproblemas mas também de megassoluções. “São Paulo tem uma tensão. Mas isso não é de todo ruim. É uma tensão criada pelas pessoas, pela criatividade”, diz.

Jorge Wilheim, ex-secretário de Planejamento de São Paulo, autor de diversos livros, entre eles São Paulo, uma Interpretação, tem uma visão otimista do futuro das cidades, até mesmo da complicada e congestionada São Paulo. “Todos nós sabemos qual é a solução, o que precisamos é de vontade política para colocar em prática”.

E colocar em prática significa governo e sociedade trabalhando juntos, como afirmar Nikolas Schiozer, voluntário do grupo Voto Consciente:

“Esperamos com isso contribuir para que a população vote de forma consciente, pesquisando todos os candidatos e que esteja qualificada para após as eleições poder participar de forma cidadã da política de nossa cidade”.