Divórcio e comunhão: as mulheres que a Igreja precisa ouvir

Por Mauro Lopes

Neste domingo, 22, o 3º Tempo Comum, católicos e católicas em todo mundo ouvirão Jesus convocar: “Segui-me!” (Mt 14,12-23). Se a Igreja quiser entender o que é seguir o Mestre nos dias de hoje, à luz da polêmica em torno da comunhão de divorciados recasados, precisa ouvir uma verdadeira homilia de cinco mulheres: Vanderleia, Laura, Claudilene, Marluce e Maria.

Explico.

Publiquei no blog Caminho pra Casa, dia 16 de janeiro, um breve artigo sobre a questão da Carta Apostólica Amoris Laetitia do Papa Francisco. Foi, na verdade um resumo de artigo do jesuíta chileno Jorge Costadoat conclamando os bispos da América Latina a orientarem os divorciados recasados para que voltem a comungar –leia aqui.

Houve quase uma centena de comentários, um recorde no blog. Boa parte deles de católicos rigoristas que desejam controlar o acesso à comunhão, que enxergam a religião à luz do Código de Direito Canônico, outros ameaçando com o “fogo do inferno”, alguns com ofensas ou repetição de receitas e esquemas.

Deixei de publicar aqueles que continham ofensas ou de autores que pretenderam usar o espaço do blog para aulas repetidas de rigorismo. O resto mantive, está lá.

Em meio às dezenas de comentários, cinco mulheres que a Igreja precisa escutar com atenção, se desejar fazer o caminho de seguimento verdadeiro do Manso e Humilde.

Vanderleia, Laura, Claudilene, Marluce e Maria: quatro depoimentos e uma resposta ao acusador. Como se poderá notar, mulheres simples. Sem cursos de teologia, são teólogas do povo. Sem terem sido ordenadas (porque a elas é vetado qualquer protagonismo na estrutura eclesial), apropriaram-se da Igreja e compreenderam com sua vida que esta instituição por vezes tão impermeável na verdade é delas, que Igreja é Povo de Deus a caminho –será que elas conhecem esta definição do Vaticano II?

Quatro mulheres, Vanderleia, Laura, Claudilene e Marluce com depoimentos sofridos, verdadeiros, corajosos. Uma mulher, Maria: o enfrentamento ao homem “católico praticante” que se arvora proprietário da Igreja, respira ameaças e apresenta a essência do pensamento conservador.

Se você quer entender 1) o sentido verdadeiro da eucaristia; 2) o significado preciso do que é Igreja; 3) o sofrimento que as proibições absurdas e discriminações causam nas paróquias, com vetos que sequer na lei antiga existiam; e 4) conhecer um pouco do verdadeiro amor à Palavra de Jesus, precisa ler estas cinco mulheres.

Uma aula aos cardeais que agridem cotidianamente o Papa. Um sopro do Espírito sobre a Igreja universal.

[transcrevi os comentários tal como enviados ao blog]

Vanderleia

“me casei tinha 15 anos fiquei casada quase 8 anos apanhei do marido todos os dias desde o dia que casei,  vcs devem estar perguntando por que não separou. Pois bem acreditava que o casamento era pra toda vida e que um dia ele iria melhorar e nada aconteceu ate que cansei após uma surra, resumindo, separei e moro com outra pessoa a  14 anos nunca deixei de comungar mesmo a igreja sendo contra e fui criticada por muitas pessoas por isso,eu me confessava e falava para o padre vim pedir o perdao a deus pois vou pecar, vou comungar por que preciso da eucaristia ela alimenta a minha alma me fortalece nas dificuldades e minha fonte de energia espiritual, entao tenho uma pergunta se tenho esta sede da eucaristia qual o pecado que cometo, de ter construido uma familia feliz”.

Laura

“Não comungo desde que me casei com meu esposo. Ele é separado, e por isso não pude casar na igreja, não por vontade minha, mas por que ele não conseguiu anular o primeiro casamento. Como minha mãe participa ativamente da igreja na minha pequena cidade natal, sendo muito conhecida por esse trabalho, me orientou e me pediu pra não comungar desde então. Deixei de fazer por respeito a ela, mas nunca me conformei!”

Claudilene

“Particularmente eu tenho temor a Deus e seus ensinamentos e acredito que devemos ser obediente a eles. Eu nunca me casei na igreja, porque meu esposo não quis ele sendo viúvo, nos casamos no civil vivemos juntos muito tempo até ele me trair, resolvi deixar pelo sofrimento e pelo meus filhos não ter que conviver com brigas, se passaram 8 anos cada um no seu mundo eu não quis me envolver com homem nenhum me dediquei a educar e trabalhar para criar meus filhos dignamente, hoje ele volta pedindo perdão por tudo e quer viver em paz com a família a qual jamais deveria ter abandonado por vaidade, eu perdoei e aceitei de volta pois os filhos necessitava do pai perto. Assim acredito que devemos perdoar quando se admite que fracassou e tem direito a uma chance, mas não tenho coragem de comungar pois sei que não ta certo não foi o que Deus nos deixou escrito. Mas se houver um meio porque não afinal vejo tantos na igreja que vivem nas leis e mas não temem e nem obedecem Deus. Temos que ter um coração puro e humilde para nos doar aos irmãos e a igreja. Desde já agradeço. Fiquem com Deus.”

Marluce

“Eu sou divorciada mas comungo normalmente. Todos me conhecem em minha paróquia. Os párocos nunca me negaram a comunhão e ai de quem abrir a boca para dizer que não posso. Faço um escândalo que vai ficar marcado na história. A gente tem que ter coragem para quebrar estes costumes retrógrados, isto não cabe na Igreja de Jesus mais não gente.”

A resposta de um típico rigorista (Júnior) a Marluce, e seu conceito de Igreja –e tenha uma pálida ideia do que passam as mulheres e o povo em muitas paróquias, sob o tacão de padres/movimentos conservadores.

“Marluce, se você estiver em situação irregular, não poderá comungar, pois os ensinamentos de Jesus Cristo não podem ser anulados!

Se isso é ser retrógrado, deixe a Igreja, pois Jesus Cristo ensinou isso há mais de 2 mil anos, mas que valem para hoje, pois a palavra de Deus é eterna e imutável.

E não adianta fazer escândalo, as coisas na Igreja não funcionam à base do barraco, isso é coisa de pobre!

Na Igreja, as coisas funcionam à base da fé e obediência. Deve crer que os ensinamentos sagrados são o melhor para a nossa vida e que nos auxiliam à salvação eterna e deve submeter-se a Deus.

Se acaso estiver comungando irregularmente sob o aval do padre e o bispo ficar sabendo, os dois, tanto você quanto o padre correm risco de receber uma bela de uma excomunhão!”

Leia agora a resposta de Maria a Junior, com outra compreensão do que é a Igreja

“’E não adianta fazer escândalo, as coisas na Igreja não funcionam à base do barraco, isso é coisa de pobre!’ Só nessa frase já acaba qualquer tipo de argumento. Nossa Igreja é justamente para os pobres. Jesus andava com quem? Com os ricos? Doutores da lei? Não, né… Como disse o Papa Francisco somos (ou deveríamos ser) uma Igreja pobre e para os pobres.”

 

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