É preciso olhar além. Mais longe e mais perto ao mesmo tempo

Já passava da meia noite e já estava quase indo dormir quando recebi via Facebook a seguinte mensagem:

“Busquei sua opinião desse dia de hoje e senti falta”.

Eu já tinha lido alguma coisa e acompanhado via redes sociais e compartilhamentos de amigos e pessoas que sigo por dever profissional a respeito das manifestações no País.

Mas acompanhado por dever. Apenas.

Dediquei meu sábado e domingo a assuntos familiares e espirituais. Minha mãe e minha sobrinha precisavam de atenção e dediquei meu tempo a elas.

No sábado, estive com um grupo querido de amigos para aprender mais a respeito daquilo que não se pode ver com os olhos.

E tive a oportunidade também de estar junto com meus irmãos numa excelente tarde de domingo, compartilhando a energia positiva de pessoas que se querem bem.

Depois de um bolo e parabéns pra minha sobrinha ela faz o tradicional pedido e surpreende a todos:

“Quero que todos aqui nesta casa me abracem”. Pode isso? Simplesmente um momento mágico.

Concluí minha semana olhando para os 7 dias anteriores com alegria e gratidão no meu coração por tantas coisas boas que venho recebendo.

E fiz isso no circuito Jundiaí-Santos-Bertioga-Santos-Várzea-Jundiaí. Não tive muito como acompanhar em tempo real as manifestações.

Café na padaria em Santos, almoço no sítio em Várzea Paulista. Alguns quilômetros na estrada.

Mas diante da pergunta desafiadora fui buscar via informações disponíveis na internet entender o que havia acontecido no domingo. Acontecido pro mundo fora de mim.

A primeira pergunta que me meio à cabeça foi:

E quantos não foram?

Como é tradicional em eventos desta magnitude, mídia tradicional e alternativa buscam contar o número de pessoas aqui e ali. E avenida Paulista serve como ícone máximo dos sucesso ou fracasso de alguma manifestação.

Vi que tava cheia. Se mil, milhões ou zilhões não tenho como saber. Mas tava cheia.

Vi que a avenida 9 de Julho, em Jundiaí, estava cheia também (pelo menos pelas fotos mais fechadas que vi), mas não faço ideia de quanta gente estava lá.

Mas trazendo a lente pra mais perto, nos posts de amigos queridos no Facebook, gente que conheço há muitos anos e gosto, pude encontrar algumas respostas.

E meu pensamento foi e é. Não vou julgar.

Cada um que se manifeste como achar que deve. Cada um que acredite no que consegue perceber. Cada um que faça aquilo que seu coração acha correto. Não é da minha conta.

Não vou classificar amigos e pessoas queridas por seu posicionamento político.

Não quero ser mais um a estimular a desunião e a divisão de um País que sempre se caracterizou pela diversidade e, alguma, tolerância com os diferentes.

Isso não é pessoal.

Lembrei de um fato comum durante a guerra civil em Angola (estive trabalhando em Luanda por dois anos) quando conheci e convivi com muitas famílias.

Era comum, naquele tempo, uma família ter um ou mais irmãos lutando ao lado do governo e outros soldados da oposição. Oposição armada, bem entendido. Guerra declarada mesmo.

Nos finais de semana de folga, porém, ou nas chamadas quadras festivas (período de Natal e final de ano), a família se reunia. Momento em que eram esquecidos posicionamentos políticos pra dar lugar à convivência de irmãos.

Na mesma mesa, compartilhando do mesmo alimento, irmãos que dias depois estariam de lados opostos do front de uma interminável guerra civil.

Lembro esse exemplo porque estive lá e vi.

Lembro também porque me pergunto agora: Quem ganha ou ganhou com aquela guerra ou essa que se trava por aqui?

Exercitando esse ofício de jornalista há tantos anos, no entanto, fui percebendo aos poucos o que está além da guerra cotidiana.

Na minha busca venho percebendo o que está além das manifestações e das vontades legítimas de quem se manifesta.

Sem dúvida, não é fácil perceber. Venho juntando os pontos aos pouquinhos. E acho que já consegui enxergar alguma coisa, talvez bem pouca.

O que posso ver é que há uma muito bem montada rede de interesses, articulada, profissional, capacitada e determinada a vencer trabalhando incansavelmente para manter o poder.

E é o poder global.

Poder de manter o poder. De se manter no poder.

O Brasil está no meio disso. Nossas cidades estão no meio disso. E nós estamos no meio disso.

E agora chega o dia seguinte.

Vamos pensar um pouco. Na real, na real, o que podemos fazer hoje, nesta segunda-feira, dia 14 de março de 2016, diante do que aconteceu ontem?

Deixo de amar meu irmão porque ele acha diferente do que acho?

Eu, pessoalmente, tenho inúmeros exemplos de gente que conheço e gosto e que pensam de forma radicalmente oposta à minha.

E quando olho pra mim mesmo, examino meu coração e escolho continuar gostando das pessoas. Não me importa o que pensem. O que achem da situação.

Pessoalmente, enxergo uma gigante manipulação da opinião pública que tem por objetivo enfraquecer e dividir.

Pessoalmente, também acho que a corrupção deveria ser punida em todos os níveis e que o mundo deveria ser mais justo.

Mas, na real, aqui no andar de baixo, o que se vê é a luta pelo fim de parte da corrupção, ou da corrupção dos outros.

Na estrada ontem, subindo a Serra, o mais complicado pra mim era se manter no limite de velocidade sem ser atropelado pelos muitos potentes carrões e seus vidros pretos que insistiam em me ultrapassar em velocidades muito além de qualquer limite aceitável.

Esse é o dia-a-dia. A real.

E somos todos imperfeitos. Eu também. Venho buscando respeitar a vida em sociedade, mas ainda tenho muito que aprender.

Mas penso que cada um de nós pode fazer esse exercício e olhar pra si e perceber o quanto existe ainda de corrupção em cada nota fiscal que não emitimos, em cada nota que não pedimos, em cada mentirinha que contamos.

Precisamos de uma faxina generalizada no Brasil e no mundo?

Sem dúvida.

Mas será que quem está fazendo essa proposta hoje está realmente interessado em limpar?

Não parece.

Só que hoje é segunda, e a vida caminha. Então, prefiro pensar na amizade verdadeira. Nas relações que construimos ao longo da vida.

Não me sinto triste.

Não me sinto derrotado.

Não me sinto rebaixado por alguma agência internacional.

Enxergo as coisas à minha maneira. E respeito quem pensa diferente.

O caminhar da humanidade tem seu tempo. E cada ponto deste planeta tem seu próprio caminhar.

Meu compromisso comigo mesmo é continuar trabalhando para auxiliar a fazer uma paz no mundo. Isso está em mim desde sempre.

Eu era bem pequeno, mas a imagem de Woodstock é presente na minha vida como um farol. Uma bússola. Um norte.

Acredito firmemente na paz. Na possibilidade de um mundo mais justo e mais humano.

E, por alguma coisa maior do que eu, tenho certeza de que isso é possível.

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