É preciso repensar o Carnaval. E os eventos em espaços públicos

O que ficou claro depois do gigantesco sucesso do bloco Chupa que é de Uva no sábado é que a estrutura da cidade ficou pequena para o tamanho do Carnaval. Não dá mais pra pensar em botar o bloco na rua sem encarar com mais profundidade o fenômeno das manifestações populares.

Carnaval e outras manifestações, definitivamente, não podem ser tratadas apenas do ponto de vista burocrático-policial. O espaço público, como o próprio nome diz, é público. Público quer dizer das pessoas. De todos. E a livre manifestação deve ser garantida e apoiada pelas autoridades municipais — respeitando o direito de todos.

Com 40 mil pessoas ou mais tomando a avenida prefeito Luiz Latorre, o Chupa que é de Uva não só consolidou sua posição como o maior bloco da cidade, mas também garantiu presença entre os principais blocos do País. E, ao mesmo tempo, deu o sinal de alerta: é preciso voltar pra prancheta e reavaliar a forma como o Carnaval está sendo encarado.

Os problemas na organização do Carnaval começaram com o cancelamento do desfile das escolas de Samba, algo de certa forma bem assimilado pelos presidentes das agremiações e pela Liga Jundiaiense das Escolas de Samba.

Mas ficaram mais evidentes depois das determinações da Polícia Militar e Juizado de Menores acatadas pela Prefeitura de forma quase compulsória: um Carnaval matinê onde, nos planos das autoridades, bebida alcoólica seria servida em copos vermelhos e tudo funcionaria segundo as regras estabelecidas.

Isso é o que estava projetado nos refrigerados gabinetes. A realidade, no entanto, se mostrou bem diferente — e o Carnaval propriamente dito nem começou.

O Chupa que é de Uva e depois os blocos Afro Kererê, Basta Vir e Se Divertir mostraram que faltou mesmo combinar com os russos. Regras muito restritivas, falta de efetivo para fazer cumprir essas mesmas regras e o subdimensionamento da infraestrutura e deu no que deu: o Chupa que é de Uva nem conseguiu desfilar. Simplesmente parou e tomou toda a avenida. O Afro Kererê teve que fazer malabarismos para desviar dos fios elétricos.

No final da noite restou para a Polícia Militar dispersar a multidão numa operação no mínimo perigosa, com policiais fortemente armados, em meio a uma avenida coberta de lixo (havia poucas lixeiras no trajeto). Durante o desfile mesmo, foram vistos poucos policiais.

O que diz a Prefeitura

A nota divulgada pela assessoria de Comunicação da Prefeitura afirma que os pedidos feitos pela organização do evento foram atendidos — informação contestada pelo Chupa que é de Uva.

A Unidade de Cultura esclareceu em nota que a organização realizada para que os blocos carnavalescos saíssem às ruas está registrada em processos protocolados na Prefeitura pelos responsáveis pelos blocos. No caso do Chupa que é de Uva, a organização fez uma previsão para vinte mil pessoas.

A Unidade atendeu o que foi solicitado. Foram disponibilizados 43 banheiros químicos (femininos, masculinos e para deficientes físicos), número maior do que o ano passado, quando foram disponibilizados 35 por dia de desfile.

No que diz respeito à fiscalização do trajeto e segurança dos foliões, foram escalados 20 guardas municipais fixos na avenida Prefeito Luiz Latorre, porém outros 35, que estavam em patrulhamento na cidade, ficaram à disposição em caso de ocorrências – ainda que nenhum registro tenha sido feito, na ocasião.

É a primeira vez que o efetivo da Guarda Municipal faz o acompanhamento de todos os percursos dos blocos carnavalescos. 

Importante ressaltar, segundo diz a nota da Prefeitura, que o número de guardas municipais designados foi requerido de acordo com o público estimado pelos organizadores, durante as reuniões preparatórias para o Carnaval 2017.

A Unidade de Gestão da Cultura ressalta, ainda, que, neste primeiro final de semana, houve exímio cumprimento das ações planejadas por parte dos setores envolvidos (Guarda Municipal, Polícia Militar, Trânsito, Comércio, Juizado de Menores, Serviços Públicos), tendo, sempre, por base o número de participantes mencionados pelos organizadores dos blocos na etapa de planejamento.

No que se refere à limpeza das ruas, a empresa responsável pelo serviço colocou dois contêineres à disposição dos foliões. A mesma justificou que, no ano passado, um número maior foi disponibilizado e vários foram danificados em atos de vandalismo. Após o término do desfile, as equipes de varrição realizaram o serviço e, duas horas depois, a avenida Luiz Latorre estava limpa e liberada.

A Unidade de Serviços Municipais ressalta que já está acordado com a empresa para que seja disponibilizada uma quantidade maior de contêineres nos locais dos próximos eventos. Segundo a pasta, foram recolhidos 70 mil litros de lixo.

Um início surprendente

A verdade é que os primeiros passos do Carnaval 2017 ocorreram de forma surpreendente invadindo o fim de semana anterior ao tradicional feriado nacional com os blocos Chupa Que É de Uva, Afro Kekerê, Basta Vir e Se Divertir e ainda um evento da escola de samba Arco-Íris e um baile do Tênis Clube.

Dentro da diversidade que será retomada com mais força a partir da quinta-feira (23), o gigantesco público do Chupa Que É de Uva comprovou que a festa de rua cresce enquanto o Afro Kekerê mostrou que essa cultura também pode ser um legítimo evento de bairro.

Ao trocar a rua do Retiro pela avenida Prefeito Luiz Latorre, novos desafios de organização foram enfrentados pela equipe coordenada por Val Júnior mas tiveram um retorno estimado em 40 mil pessoas, que mesmo abaixo disso seria um recorde.

Por outro lado, ao percorrer com atenção para os fios de eletricidade as ruas da Vila Rio Branco o bloco Kekerê atraiu o apoio de moradores com cadeiras na calçada e até esguichos de água para aliviar o calor dos foliões.

E o bloco coordenado por Nando Nicioli e BA (Vanderlei Victorino) integrou-se no final com a bateria da escola de samba.

Sucessos carnavalescos em um, canções de origem afro e da MPB em outro, esses e os demais blocos confirmam a variedade amplificada pelo Carnaval de movimentos culturais que crescem também fora dele pela retomada do uso dos espaços públicos.

A semana propriamente carnavalesca está apenas começando. Eventos vão acontecer no Centro, na Ponte São João, na Vila Hortolândia, no Morada das Vinhas, no Santa Gertrudes, na Agapeama e em muitos outros bairros.

E tanto artistas reconhecidos como o Trio em Transe como grupos em ascensão como o Bloco do Loki fazem parte do movimento que envolve cada vez mais jundiaienses. O trabalho do pessoal de trânsito no apoio aos eventos pareceu muito positivo, quase compensando a ausência da passarela para o tradicional desfile das escolas de samba.

O desafio maior, para o pessoal da segurança (guardas e policiais), é controlar excessos sem coibir o saudável movimento de uso dos espaços públicos que cresce continuamente na cidade e se expressa ainda com mais visibilidade no Carnaval.

Afinal, esse movimento positivo não ocorre apenas em torno de temas carnavalescos (que também ganham cada vez mais diversidade) mas envolve também as demais tribos urbanas.

Val Junior comemora o sucesso do Chupa que é de Uva

Depois de ver seu bloco bater todos os recordes de público, o organizador do Chupa que é de Uva, Val Junior comemorou e fez uma reflexão do que foi o acontecimento. Segundo ele, a infraestrutura oferecida pelas autoridades ficou muito aquém do que seria necessário.

O sucesso do Chupa que é de Uva foi um recado das ruas depois da polêmica envolvendo o local de desfile e as restrições impostas pelas autoridades?
Esse é um momento marcante na história do Carnaval de Jundiaí, o que vem acontecendo com os blocos, especialmente o fenômeno Chupa que é de Uva. Nós arrastamos talvez muito mais do que 40 mil pessoas. A Polícia Militar sobrevoou mas não divulgou os números. Hoje somos um dos maiores blocos do Brasil.

O Chupa que é de Uva cresceu e, provavelmente, os outros vão crescer também.
Foi uma multidão. Uma mistura. Família inteiras e moçada. Gente do bem.

Mas houve problemas de infraestrutura, não é?
Não tivemos apoio. A Setransp sequer foi abrindo passagem na abertura do bloco. Nos largou no meio da multidão.

E como vocês resolveram isso?
A ambulância que eu tive que contratar e o carrinho do Inos Corradin entraram abrindo o Carnaval.

Mas não havia uma ambulância oficial?
Eles não deram apoio do Samu.

E no final a Polícia teve trabalho para dispersar os foliões?
Sim, depois das 21 horas ouvi falar que a Polícia agiu forte.

Mas e no desfile, havia policiamento?
Não deram proteção para as pessoas e sim repressão com blitz e dispersão.

De qualquer forma, esse é um novo momento para o Carnaval na cidade.
É um momento mágico. Um fenômeno que arrastou uma multidão que cobriu as duas pistas da avenida e o canteiro central também.

Você sentiu apoio das pessoas?
Eu senti um apoio ao bloco e a mim. As pessoas sentiram as dificuldades e até entenderam o prefeito (Luiz Fernando Machado) cancelar o Carnaval oficial, mas não entenderam e não gostaram dele não dar apoio aos blocos, não reconhecer o nosso trabalho.

Não houve apoio da Prefeitura?
Foi um trabalho e gastos feitos por nós durante todo o ano e queríamos só o apoio logístico da Prefeitura para proteger os foliões.

Mas não teve mesmo apoio?
Teve sim. Falaram que havia 20 Guardas Municipais, 30 banheiros químicos e uns 10 PMs. A Setransp deu apoio fechando o entorno.

 

FOTO DE ABERTURA by Arthur Henrique Imagens Aéreas

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