Eu não gosto da paixão

Mariana Janeiro

Como eu sou oportunista nas idéias, resolvi fazer da introdução do artigo uma justificativa. E justifico apenas uma coisa: Eu não gosto da paixão.

Por anos, quando eu era mais nova, eu buscava incansavelmente alguém que fizesse meu coração parar. Uma pessoa que quando eu visse, teria certeza absoluta que me casaria. E foi assim, até alguns anos atrás. Para a minha felicidade, enxerguei alguns dos meus erros.

Vi que a paixão é uma coisa meio ilusória, excesso de tudo. Por ser um excesso, quem não tem muitas barreiras emocionais (como eu não tinha) acaba sofrendo muito mais, e faz papel de bobo.

A paixão é servida de uma paranóia que os pensadores todos tiveram complicações em desvendar. E quando não somos correspondidos, a coisa piora. Vira uma batalha.

A paixão se transforma num campo de guerra, onde já sabemos que ninguém irá vencer. Nesse ponto, já me questionei várias vezes, até quando vale a pena mendigar afeto? Até onde vale a pena escalarmos o muro da indiferença alheia? Realmente é pela busca do afeto ou é capricho do ego?

Acho que fomos educados para o sacrifício. Se algo é fácil demais, automaticamente tentamos encontrar algum defeito. Se não tem cobrança, algo deve estar errado. Dizem que o amor fácil não tem graça, precisa ser conquistado. Precisamos de algo para contar.

Será mesmo? Na minha simples teoria, agindo dessa forma, acabamos por subestimar quem gosta de nós. E aí, ninguém ganha mesmo.

Das paixões, especialmente as fugazes eu me abstenho, sempre tive certo desprezo. E também não adianta discorrer aqui, pois nesse mesmo tempo, tantas pessoas já se apaixonaram e tantas outras já se desapaixonaram. Tantas se arrependem, tantas choram; é tudo muito rápido.

Talvez a paixão seja algo semelhante a tomar suco de uva enganando-se, conscientemente, de que está tomando vinho. Um simulacro meio infantil. Mas quem está sempre emocionalmente disponível, sofre desse mal.

Na verdade, escrevi tudo isso pra dizer que tudo que vivi até agora nesse meio de campo, me serviu de laboratório. Ainda bem. Descobri de assalto, num susto, esses dias. Descobri não, melhor: Redescobri. Eu redescobri, relembrei o que não deveria ter esquecido.

Relembrei que sou adepta de um amor livre. Não no sentido bacanal da coisa, veja bem. Mas no sentido de liberdade. De ir, vir, amigos diferentes, programas diferentes, rede social, essas coisas modernas.

De gente que não faz perfil em conjunto e que não troca senha de Facebook. Dessa coisa que, de tão simples e lógica, muita gente se esquece. Outros tantos, desconhecem.

Como diz Fernanda Mello, eu não quero alguém que me tire o ar, muito pelo contrário, busco uma pessoa que me dê fôlego. Também não preciso de alguém que me tire o chão, busco alguém que me dê fortaleza. A diferença é meiga. Construir é muito mais difícil do que tirar.

Eis a grande diferença entre paixão e amor. Literalmente.

Mas acredito que esses acontecimentos me fizerem mais teimosa. Teimosa sim, pois continuo em busca do desprendimento. Deixo a paranóia ao vivo e a cores, a cobrança desmedida, o sufocamento mútuo, a traição, a falta de tato e tudo mais para quem tem mais saúde que eu. Saúde e tempo.

Pois é necessário perder esse tempo, sem dúvida. Mas não mais que o tempo necessário.

Observando com calma, tenho para mim que ser amado de graça não tem preço, é a homenagem mais linda que alguém pode nos fazer. Toda vez que escalei o muro da indiferença, só me serviu para ter a certeza de que do outro lado não havia nada mesmo.

Não consigo nomear nada mais gostoso do que ser amado por aquilo que se é, sem o desperdício inicial com aquela paixão corrosiva (quase tóxica), sem truques, sem jogos. Só amor, e ponto.

Há conversas que nunca terminam.

Como esta.

Mariana Janeiro é fotógrafa profissional. Sabia mais a respeito do trabalho dela na página pessoal do Facebook
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