Eventos resgatam Brasil do desvio aterrorizante

Por José Arnaldo de Oliveira

Os shows de Lô Borges e Sá & Guarabyra no Sesc Jundiaí no sábado (4) e na quarta-feira (9) lembraram para os representantes de uma geração – 800 pessoas no primeiro e 1000 no segundo – que o Brasil não é apenas esse momento perigoso vivido na atual crise econômica, política e moral. É também uma reserva de imensa beleza humana.

Entre a delicadeza dos arranjos feitos para suas duas bandas de grandes músicos, as canções de ambos falam de muitas formas diferentes. Um exemplo, no caso de Lô Borges, é a clássica provocação a todos nós dita em “se você deixar seu coração bater sem medo”. Outro, no caso de Sá & Guarabyra, está em passagens como “há quem viva o futuro, eu não posso mais esperar, quero o paraíso agora”.

Não é por menos que a gente sente uma certa presença sertaneja misturada com toques psicodélicos e românticos nesses trabalhos. Ambos os trabalhos nasceram ainda na década de 70, dentro de um pico de criatividade musical brasileira que respondia com suas próprias cores ao sonho difundido pelo rock´n roll.

No caso de Lô, originalmene com o Clube de Esquina ao lado de outros mineiros como Milton Nascimento ou Beto Guedes. No caso de Sá & Guarabyra, ao lado de outro companheiro inesquecível que foi Zé Rodrix.

Os ecos desse momento reverberavam em Jundiaí com os grandes momentos musicais de Escaravelhos, Pó Poeira, Olho Nu, Quadrante Vento Sul, Kripta, Raízes Aéreas, Estranho no Trio, Projeto Colibri e assim por diante. Tudo ligado profundamente com nossas características de sermos um povo da Serra do Japi.

A qualidade musical desses shows, depois de tanto tempo, nos faz questionar onde perdemos o rumo da busca de justiça, de ética, de cultura e de democracia social e ambiental que iluminavam aquelas origens. Quando foi que o medo, o egoísmo e a acomodação nos levou a aceitar, não apenas dentro de partidos, os desvios dos socialistas e liberais e crescimento dos fascistas e oportunistas.

A denúncia de Sobradinho poderia estar sendo feita hoje sobre Belo Monte e a lembrança de que você não fala mais na bota e no anel de Zapata poderia ser dita a atuais ou ex tucanos ou petistas. O sonho não está mais no horizonte da política, mas continua sendo um tesouro da cultura brasileira bastante vivo em seu melhor legado.

É por isso que ela não cabe inteira nesse mundo paralelo da internet. Na música, é preciso ver os artistas fazendo a mágica (na verdade, em todas as artes tem essa coisa do contato com a execução ou com a obra original). O que o ciclo de shows em andamento no Sesc Jundiaí provoca é a lembrança de que, tanto nos sonhos como no verdadeito potencial,  somos muito mais que isso.

E tem ainda Tunai e Wagner Tiso e depois Jards Macalé chegando aí, entre muitos outros bons artistas.

Que essas gerações que construíram monumentos imateriais se conectem com as novas para trocar a atual distopia por uma renovada utopia. Reaprendendo que os bites podem ser beats, que o virtual pode também ser contação de história, que a inteligência artificial pode ser a própria natureza.

Foto de Lucas Castroviejo no show do Lô Borges

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