Filmes do Amplifica questionam rumos da cena cultural independente

Qual o motivo que faz um momento musical independente marcar parte de uma geração, mas ter esse espaço “invadido” pelas escolhas comerciais do mercado e deixando uma certa frustração nos músicos e fãs? A pergunta pode valer até para o instrumental, o samba ou a viola caipira mas no caso foi provocada por dois documentários de rock nacional chamados “Time Will Burn”(2016) e “Música de Trabalho” (2003). Ambos também foram produções autorais, no primeiro caso dos diretores Marko Panayotis (de boné) e Otavio Souza e, no segundo, do diretor Daniel Dias (de barba), exibidas no festival de bandas independentes Amplifica 2017, no Sesc.   O primeiro filme aborda a cena existente na primeira metade da década de 1990, com festivais como o Juntatribo, na Unicamp, que espalhou a noção de “rock caipira”, e espaços como o Aeroanta em São Paulo e o Circo Voador no Rio. E passa por bandas memoráveis como Pin Ups, Mickey Junkie, Killing Chawsaws, Garage Fuzz e muitas outras, em uma época onde as bandas insistiam em produzir rock em inglês e a entrega de fitas cassete demo era a forma de divulgação.   Nos depoimentos do “Time Will Burn”, nota-se que a vinda ao Brasil de nomes como Kurt Cobain (Nirvana) ou Flea (Red Hot) e a escalada internacional do Sepultura pareciam abrir a possibilidade de novos voos. As cenas locais se multiplicavam e até Jundiaí brilhou com um conjunto de bandas que usava nas fitas o lema “Seattle Brasileira”. Mas a chegada da leva de bandas em português – de Raimundos a Chico Science, de Planet Hemp a Charlie Brown – ocupou o espaço, sem interesse das gravadoras e da mídia (exceto MTV) pelo movimento. “Não vejo como muito fácil acontecer uma cena desse tipo com a dispersão causada pela internet”, comentou Marko. Se a distância entre 2016 e o início dos anos noventa permitiu uma reflexão mais organizada sobre aquela cena, o documentário “Música de Trabalho” foi feito inteiramente no calor dos acontecimentos da virada dos anos 2000. E registra 16 bandas pouco conhecidas de diversos estados do país, como a Wry ou a dupla Réu e Condenado, além de pequenas gravadoras e produtores como Lobão, que vendia discos encartados em revistas nas bancas de jornais. No lugar das fitas cassete da fase mais analógica anterior, já proliferavam então as cópias em CD-R (discos regraváveis) que eram considerados uma possibilidade de recriação do mercado. As perspectivas chegam a soar ultrapassadas na atual fase de streaming e desaparecimento de suportes físicos com exceção dos nichos de mercado que fizeram voltar até o vinil. “Mas não é um documentário no sentido de analisar nada. É apenas o registro ao vivo que foi possível fazer. Olhando depois havia bandas que poderiam ter feito parte e não estavam. Algumas continuaram, outras não”, observa Daniel. Em comum, ambos (especialmente “Time Will Burn”) mostram o sonho comum de músicos de atingirem um público maior. Em seu caso, motivou diversas das bandas retratadas a se agruparem novamente. Alguns podem dizer que o segmento do rock independente é específico e até mesmo muito branco, jovem, universitário e de influência paulistana. Mas cada segmento musical também vai ter suas características.  E todos, certamente, se reconhecem na alegria de novos músicos afirmando ter se inspirado no seu trabalho. O que fica nítido em documentários como esses é que o momento vivido por um certo grupo em uma certa época é único, mas relacionado com seu contexto. Isso é o que se chama nesse segmento de “cena” e não existe com apenas uma banda isolada, mas com muitas delas – algumas muito boas. O festival programou ainda dois outros filmes com esses elementos para a quinta-feira (8) com “Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94”, às 18 horas, e “Botinada: a Origem Punk no Brasil”, às 20 horas. Grátis. Depois, tem shows de bandas jundiaienses na sexta-feira (9) com Infante às 18h e Fistt às 20h e no sábado (10) com Gasoline Special às 17h e Burt Reynolds às 19h. Foto by Tati Silvestroni