Lô Borges e o Clube de Esquina: “O clima era de fraternidade”

Lô Borges toca neste sábado (4) no Sesc com a banda completa. O sucesso de vendas obrigou à organização do evento a trocar o show intimista, onde seria acompanhado apenas do guitarrista Henrique Matheus, por um som completo, com a banda que o acompanha desde o início da carreira.

O cantar e compositor mineiro teve que enfrentar o Exército e a própria mãe para poder gravar o disco que mudaria os rumos da sua vida. Lô Borges era um adolescente de 19 anos quando foi convidado por Milton Nascimento para assinar junto com ele o LP Clube da Esquina e até hoje não se cansa de agradecer ao amigo e parceiro pelo convite.

“Sou eternamente grato a ele. Costumo dizer que, no mínimo, de três em três anos tenho que agradecer ao Milton por tudo que ele fez por mim”, salienta. Sentado na famosa esquina da Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis, no Bairro de Santa Tereza, onde deu os primeiros acordes no violão, Lô recorda a experiência mágica da gravação do álbum duplo de 1972 e o que todo aquele processo criativo deixou como legado.

Você começou sua carreira com o pé direito, já que este foi seu primeiro disco. O que ele representou na sua vida?

Foi uma definição do rumo que dei para minha vida. O Milton me convidou para gravar e assinar o álbum com ele e foi uma luta para eu conseguir ir para o Rio. Minha mãe teve que autorizar, porque era ditadura, ela tinha um certo receio, achava que eu corria risco e não foi fácil convencê-la. O fato de o disco ser meu também ajudou, porque, se fosse só uma participação, talvez ela não deixasse. E ainda estava na idade de me apresentar ao Exército. Ia começar a servir e cheguei a ser hostilizado quando comentei que era músico. Contei para o capitão da minha companhia que o Bituca estava me chamando para dividir um álbum com ele. Quando me reapresentei, o capitão perguntou: “Qual é o músico da minha companhia?”. Ele me pegou pelo braço hostilmente e disse: “Você não vai seguir o Exército porque nós não queremos gente da sua espécie aqui dentro, seu comunista, seu esquerdista”. E aí fui praticamente escorraçado do Exército, minha mãe me liberou e finalmente fui gravar o Clube da Esquina no Rio de Janeiro.

E como foi o processo de gravação?

Já saí de Belo Horizonte com o Clube da Esquina bem definido na minha cabeça. Mas disse ao Bituca que só ia ao Rio se pudesse levar um cara que tocava comigo, que tocava Beatles e era da minha banda, The Beavers (Os Castores), porque achava que ele seria muito importante para as minhas músicas. Era o Beto Guedes. Mas nem tudo foram flores para fazer aquele álbum. O Milton travou uma batalha pessoal com a gravadora para poder me colocar no disco, já que eu era praticamente desconhecido. Sou eternamente grato a ele. Costumo dizer que, no mínimo, de três em três anos tenho que agradecer ao Milton por tudo que ele fez por mim. Esse disco mudou a minha vida. Foi muito legal todo o processo. Eu morando com o Bituca, o Beto e o Jacaré, primo do Milton, no Rio de Janeiro. E depois fomos morar numa praia deserta para poder compor. E as coisas iam surgindo. Porque esse disco não teve muito ensaio e nasceram coisas geniais. Vejo como uma verdadeira oficina criativa em todos os aspectos; na música, nas letras. Você pensar que 40 anos depois esse trabalho figura no livro 1.001 álbuns que você deve ouvir antes de morrer é fantástico.

E você ainda teve um outro trabalho muito importante lançado naquele ano, que foi o “disco do tênis” (Lô Borges), não é?

Pois é. Para mim foi uma coisa sensacional. Um começo de carreira iluminado. Foi a duras penas, porque a barra não estava leve. Era ditadura e tudo. O “disco do tênis” foi feito meio na loucura. Eu brinco que ele foi feito igual disco de cantador. Já tinha assinado com a gravadora e não tinha as músicas prontas. Fazia a música de manhã, o Márcio, meu irmão, colocava a letra à tarde e a gente chegava ao estúdio com elas fresquinhas. Eu fiz o Clube no começo do ano e o do tênis no final. Eu era muito menino e foi uma responsabilidade começar de cara gravando com arranjo de Eumir Deodato, orquestra no estúdio, no caso do Clube da Esquina. Eu nem sabia ler partitura naquela época e não podia errar nada. Tinha que ser saudavelmente irresponsável para participar daquilo tudo. Gravar um disco já era uma novidade, um desafio, porque era praticamente ao vivo, e gravar daquele jeito, mais ainda. A partir dali fui sendo conhecido, gravado por gente como a Elis Regina, o Tom Jobim. Tenho muito orgulho de tudo isso.

Você acredita que o disco Clube da Esquina continua influenciando gerações?

O Clube formou e informou várias gerações que fazem música de qualidade. Mesmo depois tanto tempo, a perenidade é impressionante. Vejo nos meus shows, gente de 15, 20 anos de idade cantando O trem azul, Um girassol da cor de seu cabelo, Paisagem da janela. O disco só é forte até hoje porque foi feito com muita verdade. As pessoas se empenharam muito. Agradeço a todos os músicos que contribuíram para fazer aquele álbum: Novelli, Robertinho Silva, Toninho Horta, Luiz Alves e tantos outros. Todo aquele clima de fraternidade e criatividade que imperava. Até hoje, as minhas músicas mais conhecidas são do disco Clube da Esquina. Analiso a minha carreira hoje e vejo que tudo começou com essa história do Clube.

Você acha que seria possível fazer um Clube da Esquina 3, apesar de o Milton afirmar que o Angelus já seria esse Clube 3?

Acho que não seria necessário. Os dois Clubes foram suficientes para mostrar muita coisa boa. O Clube 2 projetou a carreira de muita gente, abriu as portas para várias pessoas. E no primeiro também. Todo mundo que participou teve um upgrade na carreira.

E você mantém contato com os integrantes do Clube, continua compondo com eles?

Muito pouco. Tenho contato com Bituca, o Márcio, meu irmão. A gente vai seguindo a vida, tendo a própria carreira, os próprios projetos. Faço coisas com o Márcio, mas hoje meus principais parceiros são o Samuel Rosa – a gente tem feito muita coisa bacana – e a Patrícia Maês (mulher de Lô), que inclusive assina comigo cinco músicas no meu trabalho mais recente, o Horizonte vertical.

Fonte: Jornal Estado de Minas

Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes nos tempos do Clube de Esquina

Show Lô Borges                        
Sábado, 4/03, às 19h, Ginásio de Esportes do Sesc Jundiaí                        
Avenida Frederico Ozanan, 6.600, Jundiaí.
Ingressos: R$ 6 (meia) R$ 12 (inteira). Informações pelo telefone: (11) 4583-4900

 

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