O poder cultural do Sound System. Música para todos

Por Bruno Galiego

Nos últimos anos, os Sound Systems têm ocupado um bom espaço nas agendas de rolês de muita gente de diferentes localidades. Aqui na cidade não está sendo diferente.

Só nesta semana teremos dois eventos para curtir: nesta quinta-feira, 30, às 22 horas, o Quinta-Livre recebe Favela Sound System e as Sound Sisters, diretamente da cidade de São Carlos; e no domingo, dia 2, às 14 horas, o Union Lions Sound System chegaria na elegância com o Ocupa Reggae na Praça Erazê Martinho (Ponte Torta), mas devido às chuvas foi transferido para uma sessão de vídeos e sons na quadra da Cai Cai, na Vila Lacerda. .

Os eventos lotam. Além do Rei da Noite, casa que realiza o Quinta-Livre, e da Ponte Torta, o Back Room também vem exercendo um papel muito importante para a cena Sound System local.

Seguindo à risca os conceitos primordiais dos Sound Systems, aqui na cidade a maioria dos bailes são baratos e até gratuitos. Regiões afastadas como Morada das Vinhas, Jardim Tamoios e Jardim Fepasa, já receberam sistemas de som.

O Sound System é para todos. Os enormes “paredões” de som amplificam os envolventes gêneros da música jamaicana. As principais regras são o respeito e a diversidade. É possível ver – além dos fãs do gênero – rappers, punks, skatistas, entre outros, interagindo e dançando freneticamente cada tune.

A cena

Fortemente influenciado pelos grandes bailes e equipes de som de São Paulo, a galera do Favela Sound System está na ativa desde 2010 fazendo a cena acontecer. O sistema de som, formado por Natan “Puppa Nasty” Nascimento, Marciano “Black I” Araujo e Davidson “Dee I Dee” Cruz, conta com um acervo dos mais variados gêneros que compõem a música jamaicana.

Nestes sete anos de dedicação à cultura Sound System, muitos bailes foram organizados pelo coletivo em Jundiaí e região. O Favela Sound System foi o primeiro sistema de som da cidade.

“Comecei na lendária festa Cacilds, que rolava no Armazém da Cerveja. Nessa época eu tinha poucos discos, um PA pequeno e um notebook. Fazia os bailes com esses materiais”, revela Puppa Nasty. 

Favela Sound System no extinto SoulBar, em 2015 (Foto: arquivo FSS)

 

Após o fim do Armazém da Cerveja, Puppa Nasty resolveu se aventurar nos espaços públicos. “Comecei a fazer festas nas ruas, eram poucos que frequentavam. Ainda se chamava Armagedon Sound. Não tínhamos muitos adeptos dos rolês de rua”.

Em 2013, após a mudança de Armagedon Sound para Favela Sound System,  Black I e Dee I Dee foram recrutados para contribuir com a iniciativa.

O pioneirismo do Favela Sound System na cidade influenciou diretamente no surgimento de outros dois nomes importantes: o Union Lions Sound System, liderado por Cadu “Bronks” Moron e Green Selector Sounds, do seletor Leandro “Green Selector” Siure. Ambos já dividiram vitrola com o Favela.

Com o intuito de promover ainda mais a cena, o Favela Sound System também convidou nomes conhecidos da cena nacional para tocar na cidade.

“Tivemos o prazer de receber aqui na cidade grandes nomes do soundsystem nacional como Jurassic SS, África Mãe do Leão, High Public e Fresh Crew. Também recebemos Mad Professor, conhecido mundialmente por ter produzido para Massive Attack, Sade, Pato Banton, entre outros”, lembrou Puppa Nasty.

Passado e presente

Desde o início da década de 1950, o Sound System já vinha fazendo barulho nas áreas mais pobres de Kingston. Tudo começou como uma forma de entretenimento em pequenas reuniões entre amigos. O “Trojan Sound” de Duke Reid, e o “Downbeat” de Coxsone Dodd eram os pioneiros, anos mais tarde ambos se tornaram produtores. 

“As equipes de som não conseguiam trabalhar em grandes clubes e não podiam cobrar a entrada, o publico não tinha muito dinheiro. Os eventos eram nas ruas com a galera comendo e bebendo nos pequenos comércios liderados pelos donos do próprio equipamento de som”, explicou Puppa Nasty  que também é um grande pesquisador de música  e cultura jamaicana.

Nos início da década de 1960, após o “Studio One” colocar no mapa nomes como The Wailers, Toots and The Maytals e The Skatalites, muitos desses músicos, por questão de sobrevivência, resolveram se aventurar na Inglaterra. Com a crescente chegada de caribenhos na terra da rainha, a influência do Ska se espalhou.

Duke Reid foi um dos pioneiros dos sistemas de som

 

Houve mudanças ritmicas, apareceram o Rocksteady e o Early Reggae. A música  jamaicana estava no topo das paradas britânicas com Dave and Ansell Collins, Desmond Dekker e Max Romeo, que deixaram um terreno fértil para Bob Marley tornar-se conhecido mundialmente. E os Sound Systems acompanharam tudo isso. 

Mesmo com a ascensão da musical, que consequentemente gerou uma interação maior com os ingleses, os imigrantes jamaicanos, além de prestigiarem os músicos e as bandas, ainda organizavam os rolês de soundsystem em bairros como Brixtol, em Londres, no final dos anos de 60 e início dos anos 70. 

“Atualmente, a cultura soundsystem tem um papel fundamental na inclusão social, é a principal voz da resistência negra. Mas naquela época, para a maioria das equipes e frequentadores, o Sound System era uma diversão, uma forma de sentir-se um pouco mais próximos da Jamaica”, ressaltou Puppa Nasty. 

Durante a evolução dos soundsystems, surgem novos gêneros que misturam os ritmos mais antigos da música jamaicana com as modernidades digitais do início dos anos 80. Entre os principais formatos estão o Rub a Dub, que era basicamente os instrumentais de Ska “sampleados” e com vocais mais rimados; o Dancehall, o mais popular da atualidade, é um dos gêneros mais agitados da música jamaicana e ganhou grande notoriedade graças às produções de King Jammy. 

“Outros ritmos como o Steppa, o Ragga e até o Rap tiveram forte influência da música jamaicana e do formato soundsystem. Existem equipes que preferem seguir um direcionamento ritmico, e também existem aquelas que abrem espaço para todos os ritmos, como é o caso do Favela Sound System”, disse o seletor.

No Brasil 

O soundsystem também tem história em nosso país. Nos anos 70, no Maranhão já existiam discos de reggae circulando pela capital, São Luíz. O termo “Radiola” era utilizado pelos primeiros seletores daquela região. 

Em meados dos anos 2000, nasciam sistemas de som no que seguiam o formato inglês. Os principais sistemas dessa época eram Digitaldubs, do Rio de Janeiro, e Dubversão, de São Paulo.

Puppa Nasty afirma que os dois sistemas foram fundamentais no processo de evolução da cena nacional. “Eles foram responsáveis pelo surgimento de diversas equipes. Muitas equipes que são consideradas pioneiras em determinadas regiões, foram totalmente influenciadas por eles”.

 

Saiba mais:

Como surgiu a cultura Sound System

A História da Música Jamaicana

O Impacto da Cultura Sound System

Mapa do Sound System Brasileiro

Foto de abertura: Puppa Nasty em ação com o Favela Sound System – EF Fotografia