Os filhos saudáveis do patriarcado

Por Mariana Janeiro

Eduardo Paulo da Silva, 31 anos e Jonatas Carvalho de Morais, 23 anos. Eles podem não ter nada em comum, mas em um aspecto são iguais: são os filhos saudáveis do patriarcado.

Eduardo, após uma discussão com a sua companheira, a atropelou enquanto ela ia para o trabalho, no bairro do Retiro. Não feliz em atropelar, ainda deu marcha ré e passou por cima do corpo mais uma vez.

“Crime passional” é o que dizem. De tão corajoso, Eduardo está foragido. Sua companheira, morta. Corre à boca miúda que ela estava grávida, o que torna tudo ainda mais sádico.

Jonatas agrediu a namorada, danificou o seu veículo e cortou os seus cabelos. Tudo isso porque não soube ouvir um “não”, porque não aceitou o fim do relacionamento. Quem o expôs nas redes sociais foi uma outra ex-namorada, também vítima de um relacionamento abusivo com ele.

E mais: Jonatas é um colecionador de boletins de ocorrência, onde a própria mãe, após ter uma das costelas quebradas, registrou queixa contra o próprio filho. Está detido? Não. Também corre à boca miúda que a advogada de Jonatas é sua parente.

A (agora ex) namorada de Jonatas teve sorte. A ex de Eduardo, não.
Ser mulher não pode apenas se resumir a “ter sorte” por estar viva.

Para grande parte das pessoas, esses dois homens que agrediram suas companheiras, são “monstros”, “doentes”, “agrediram por ciúmes”.

Se uma coisa precisa ficar clara essa coisa é que: ELES NÃO SÃO MONSTROS. Todo agressor, homicida, estuprador tem nome, endereço, carteira de identidade. Eles são exatamente como eu, você e as vítimas. Podem (e estão, no caso de Jonatas, funcionário público) sentado ao seu lado em um banco, no transporte coletivo. Pode estar te atendendo ou te dando aulas. Pode viver com você e dormir na sua cama. Pode ser socialmente aceito como um “cidadão de bem”. Costumam dizer que um “homem de verdade” não faria essas coisas. Pois eles fazem sim.

Fiz questão de começar esse texto com o nome completo dos agressores porque não podemos retirar a humanidade deles. Falo isso pois, retirando a humanidade, fazemos parecer que eles não pertencem mais à nossa sociedade, enquanto eles pertencem, sim.

Jonatas, inclusive, transitava nos mesmos espaços que eu, temos amigos em comum. E isso fez com que vários dos seus amigos começassem a relativizar as agressões, a questionar a vítima. Isso, na nossa “gíria local” chama-se “passar pano”.

Quão perigoso é passar pano para agressor e questionar a vítima? Quem faz esse tipo de coisa se torna co-autor da agressão. Ou seja, quem questiona (ou culpa) a vítima e enquanto passa pano pro agressor também é culpado.

“Culpado, eu? Só quero saber se realmente aconteceu…” Existe boletim de ocorrência, matéria em jornal, depoimentos de outras vítimas. Você realmente quer saber o que houve ou quer eximir o colega da culpa?

Você também é culpado, SIM. Culpado por perpetuar uma sociedade patriarcal onde a mulher vale menos que o homem. Culpado por culpar a vítima, não acreditar na mulher, julga-la pela roupa que estava usando, pelo lugar que estava frequentando, por ela não ter terminado o relacionamento antes. Culpado por nada ser feito a respeito da cultura do estupro por achar que ela não existe. Culpado por não colocar o seu amigo no devido lugar de agressor que ele merece ocupar.

É nesta sociedade que o agressores, homicidas e estupradores nascem, se criam e vivem, sendo um de nós.

E por viverem nessa sociedade, por serem um de nós, precisam sofrer as consequências e não apenas serem colocados no lugar de “monstros” em que nada se aplica a não ser o medo.

E o medo é o que acompanha nós, mulheres, todos os dias.

Segundo a ONU e o IPEA (em 2013), foi registrado que no brasil, ocorrem cerca de 5 mil mortes femininas por ano. “Mas morrem muitos mais homens do que mulheres!” Sim. Morrem. Mas o cerne do problema nas mortes femininas é que, em quase 88% dos casos (segundo a mesma pesquisa) as mortes femininas tem como algoz um homem.

A expressão máxima da violência é o óbito. E, diferente do que reproduzem os portais de notícias, os crime contra as mulheres não são “crimes passionais”. Crime contra a mulher tem um nome específico: FEMINICÍDIO.

Não há nenhum louco entre esses dois agressores que ilustram este artigo. E existem poucos “loucos reais” entre os agressores, estupradores e homicidas. Por isso, resistam à tentação de chamar qualquer um deles de monstro ou de doente pois, retirando a humanidade deles, retiramos também toda a responsabilidade deles por seus atos. E também retiramos a nossa responsabilidade por essa sociedade que se recusa a educar e a respeitar.

Monstros são facilmente reconhecidos. Agressores não.

As mulheres são agredidas (e morrem) não porque se submetem ao poder dos seus companheiros, mas porque resistem; porque não querem mais ser posse deles, porque querem ter direitos. Apanham e morrem porque manifestam seu desejo de terminarem um relacionamento. As mulheres apanham e morrem porque ousam viver a vida com mais justiça social. As mulheres apanham e morrem porque ousam ser livres.

As ações e os discursos feministas em todos os espaços são urgentes, porque o machismo MATA.

Mariana Janeiro é filósofa política e militante feminista

Artigo publicado originalmente no blog Jovem Jundiaiense e republicado aqui com autorização da autora.

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