Por que tanta gente gosta tanto de gatos?

Ruth Helena Bellinghini*

Diz a tradição, que quando Buda atingiu a Iluminação todos os animais se curvaram diante dele, menos o gato. De certa forma, todos nós nos curvamos diante do gato, que é hoje o animal de estimação mais popular do planeta.

Não é à toa que os posts sobre gatos, fotos de gatos, histórias de gatos e páginas de gatos são tão populares nas redes sociais.

Nos Estados Unidos, segundo a The Humane Society, são hoje 86,4 milhões de gatos (e 78,2 milhões de cães) vivendo em lares americanos. Isso significa que 33% das casas americanas têm pelo menos um gato e, destas, 52% têm mais de um.

Dado importantíssimo: 88% desses gatos são castrados. Vivem hoje no planeta Terra 500 milhões de gatos.

A lista de ailurófilos – sim, esta é a palavra para gateiros, gatófilos ou gatólicos – históricos é imensa. Noé teria levado um casal de Turkish Vans para livrar sua Arca da explosão populacional de roedores durante o Dilúvio.

O profeta Maomé teve vários gatos e uma preferida, Muezza. Certa tarde, Muezza dormia sobre a manga da rica túnica do profeta, que, atrasado para sua oração, tomou de uma tesoura e cortou sua roupa para não despertar a preciosa Muezza.

Também eram gateiros os papas Gregório, o Grande, Gregório XV, Leão XII e Pio IX; os presidentes americanos Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt e Bill Clinton, cujo gato Socks se fez fotografar no púlpito da sala da imprensa da Casa Branca sobre a inscrição The President of the United States.

O escritor Mark Twain era amante de gatos, assim como Colette e Ernest Hemingway e nosso Guimarães Rosa. Lenin tinha gatos assim como o primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

Os britânicos, aliás, são um capítulo à parte na ailurofilia. Tanto que a Downing Street número 10, residência oficial do primeiro-ministro, tradicionalmente tem também um primeiro-gato.

A tradição, segundo consta, nasceu com o Cardeal Wosley, durante o reinado de Henrique VIII. Humphrey, um frajolinha de pelo longo, acomodou-se na Downing Street em 1989, durante o governo Thatcher, serviu John Major e sumiu na gestão Tony Blair, cuja esposa Cherie é alérgica e odeia gatos.

O sumiço deu margem a todo tipo de rumores – inclusive de assassinato – e uma investigação foi aberta no Parlamento…Humphrey estava vivendo sua aposentadoria numa confortável casa no subúrbio londrino.

O atual primeiro-gato é Larry, escolhido no abrigo de Batttersea, que enfrentou os tablóides – foi manchete ao observar placidamente um rato sem erguer uma pata para detê-lo –, mas comprovou sua fama de caçador no final de abril, ao ser visto levando sua presa de presente para as secretárias. Com vida social intensa, Larry encontrou-se em agosto com Barack Obama.

A tradição diz que os gatos foram domesticados há 3.600 anos no Egito, onde foram transformados em deuses – e nunca se esqueceram disso.

Mas a ciência conta outra história. Em 2004, uma tumba foi escavada em Shillourokambos, em Chipre, com dois esqueletos lado a lado, o de um ser humano e o de um ser gato. O túmulo tem 9.500 anos e mostra que a amizade entre humanos e gatos é bem mais antiga do que se imaginava.

A domesticação dos gatos ocorreu na verdade no Oriente Médio, no Crescente Fértil, na época do nascimento da agricultura, ou seja, há 10 mil anos. De lá, os bichanos foram levados para o Egito e para Chipre. Do Egito, foram contrabandeados para a Europa.

O registro mais antigo que se tem de um gato na Europa é de um baixo-relevo numa tumba de uma garotinha romana do século I, mas acredita-se que desde a Idade do Bronze, pelo menos na Grã-Bretanha, eles andem por lá.

O esqueleto encontrado em Chipre é de um Felis silvestres lybico, o gato selvagem africano, do qual todos os gatos, Felis catus, descendem. Da mesma forma que nós, humanos, os gatos são originários da África.

E se todos nós descendemos de sete Evas africanas, todos os gatos descendem de cinco gatas africanas. O genoma do gato ficou pronto em 2007: eles têm 38 cromossomos (temos 46) e cerca de 20 mil genes (como nós).

O DNA sequenciado pertence a Cinnamon, uma abissínia tímida que hoje tem 9 anos. Gatos e humanos compartilham uma série de doenças genéticas.

Gatos foram perseguidos, executados e queimados vivos durante a Inquisição, quando sua companhia era associada à bruxaria. Há quem diga que a matança dos gatos foi tamanha que seu sumiço teria contribuído para a disseminação da Peste Negra, por causa da proliferação dos ratos.

Aventureiros, chegaram às Américas com os descobridores. Não havia navio que deixasse o porto sem seus caçadores de ratos.

Gatos desafiam definições e, talvez por isso, tenham se tornado tão populares. Dizem que detestam água, mas angorás, turkish vans e abissínios são famosos por gostar de nadar.

Dizem também que são independentes, mas algumas raças e alguns indivíduos (meu Osíris, por exemplo) detestam ficar sozinhos e acompanham seus humanos de estimação por toda parte.

Há gatos enormes, como os Maine coons, que podem pesar 13 quilos, e pequetitos como os Munchkins, de perninhas curtas. Há gatos de pelos longos, pelos curtos, pelos crespos e pelados como os Sphynx.

Calados como os persas e tagarelas como os siameses. Acredita-se, aliás, que gatos adultos não precisam falar para se entender com outros gatos, a linguagem corporal é o que basta.

O miado foi desenvolvido para a comunicação conosco, seres humanos de estimação, pouco inteligentes e que demoramos para entender o que significa cada posição do corpo felino.

Há gatos sociáveis, como minha Sophia, que dispensa tratamento vip a todas as visitas, e o Sphynx que conheci outro dia na Avenida Paulista enquanto andava de bicicleta com os pais, todo pimpão em sua cestinha, alheio à barulheira dos carros e disponível para dois dedos de prosa e um carinho.

Há gatos tímidos, como meu Osíris, que some depois de cumprimentar as visitas.

Parte da popularidade dos gatos se deve, creio, à facilidade de criá-los. Basta deixar a tigela com ração, a água – no nosso caso uma fontezinha com água corrente – e banheiro limpinho – sim, Osíris é bastante exigente nesse quesito, e faz questão da areia canadense fininha com perfume de lavanda.

E é aqui que acaba a tal independência do gato. Eles até toleram ficar sozinhos, mas, definitivamente, não gostam. Basta ver a cara que os meus fazem quando me preparo para sair, ou quando chego mais tarde que o usual. E haja colo, beijinho, cafuné para compensar a ausência.

É Sophia quem me bota para dormir, com duas delicadas lambidinhas nas minhas pálpebras naquele preciso instante que precede o sono. É Osíris quem me acorda de manhã, com vigorosas lambidas no rosto, sempre às 7 horas, menos aos sábados e domingos – não, não sei como ele conta os dias.

Sophia, que é mais reservada, tem outra peculiaridade: adora ópera. É ouvir Maria Callas que ela se derrete toda, senta em cima do som e ronrona alucinadamente. Não gosta de rock, não gosta de Caetano, mas adora Tom Jobim, Chico Buarque e Elis Regina. Definitivamente, Sophia é uma gata musical: o miadinho delicado dela já enganou muito passarinho.

Dizem que nosso amor por gatos vem, em parte, do fato de que eles têm o tamanho de um bebê. E que eles são a coisa mais selvagem que podemos ter dentro de casa sem correr perigo.

Mas eu fico mesmo com a definição de um gênio chamado Leonardo da Vinci: “O menor dos felinos é uma obra-prima.”

*Ruth Helena Bellinghini é jornalista e gatófila assumida. 

E pra completar, A História de uma Gata, na voz de Vanessa Da Mata

 

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