Prefeito Luiz Fernando, o grande ausente do Carnaval da cidade

Onde esteve o prefeito Luiz Fernando Machado durante os dias de Carnaval?

Eu não consegui essa resposta oficialmente — enviei um pedido de entrevista com ele e também solicitei a agenda.

Na última divulgação oficial no site da Prefeitura, antes do Carnaval, o prefeito aparece no Paço Municipal recebendo um grupo de crianças e adolescentes da Associação Cristão e Defesa da Cidadania. Depois disso, silêncio total.

Ele só foi reaparecer novamente em um post em seu perfil do Facebook na noite da quarta-feira de cinzas, ao lado do governador Geraldo Alckmin.

Nenhuma palavra sobre os tristes acontecimentos durante os desfiles de blocos do Carnaval. Para o prefeito, oficialmente, o Carnaval não existiu.

Coube apenas a Guarda Municipal, através de nota oficial, justificar a violência desmedida utilizada pela polícia ao término dos desfiles de diversos blocos. E à Unidade de Gestão de Cultura divulgar uma nota dizendo que “medidas de segurança foram necessárias para evitar atos pontuais de vandalismo após os desfiles. Ressalta-se que, nessas situações, a atuação da GM ocorreu, irrestritamente, em obediência aos ditames constitucionais”.

Sem entrevista. Sem perguntas. Apenas notas oficiais. A Polícia Militar nem isso fez. Mesmo com pedidos feitos através dos canais de comunicação da corporação nada foi dito.

Nem mesmo o manifesto dos 11 blocos de Carnaval (que nesta sexta-feira organizaram uma entrevista coletiva), as inúmeras reportagens em sites e tevês locais e, mais importante, o depoimento de feridos e imagens divulgadas pelas redes socias, foram suficientes para motivar o prefeito Luiz Fernando Machado a falar.

Crescimento do carnaval de rua exige correções, alertam blocos

Não se sabe, até o momento, se ele concorda com a atuação da Polícia Militar e da Guarda Municipal, se é solidário com as vítimas, como Flavia Faustino, que foi atingida na testa por uma bala de borracha (veja no post abaixo).

O fato de seu primeiro evento público pós-carnaval ter sido um encontro com o governador Geraldo Alckmin, seu aliado político, no entanto, pode dar uma alguma pista, uma vez que a Polícia Militar usou a mesma tática de dispersão na noite de terça-feira na Praça Roosevelt, em São Paulo.

A diferença, no caso de São Paulo, é que o secretário de Cultura de São Paulo, na gestão João Dória Jr, André Sturm, se pronunciou e lamentou os acontecimentos em uma entrevista à Rádio Jovem Pan.

Em Jundiaí, apenas notas oficiais.

Na quinta-feira (2), porém, a estratégia de mudar de assunto e buscar notícias positivas se revelou mais clara.

Além de nada dizer a respeito dos confrontos, o prefeito recebeu a visita do próprio governador Geraldo Alckmin. Segundo a comunicação da Prefeitura, foi uma visita de surpresa — mesmo diante do fato deles terem conversado no dia anterior no Palácio dos Bandeirantes.

De acordo com a versão oficial, Alckmin vinha de um compromisso em Campinas e decidiu passar em Jundiaí para visitar seu amigo e prefeito, Luiz Fernando Machado.

Aproveitou para anunciar a antecipação em alguns meses da entrega de parte das obras das míticas alças da Anhanguera — para as quais a Prefeitura ainda não tem recursos para bancar a parte que lhe cabe — e reafirmar o enviou de R$ 12 milhões ao Hospital São Vicente de Paulo.

A visita só não foi surpresa para o Jornal de Jundiaí. Os jornalistas de outros veículos não foram informados da visita oficial do governador do Estado ao município nem pela assessoria do governo do Estado nem pela assessoria da Prefeitura, algo realmente inusitado.

Da visita oficial, além da divulgação de mais do mesmo, muitas fotos. Alckmin andando pelas ruas da cidade e vistoriando obras acompanhado do prefeito, do deputado federal Miguel Haddad, do gestor de Governo e Finanças, José Antônio Parimoschi, homem de absoluta confiança de Alckmin e Luiz Fernando, e o presidente da Câmara, o jovem vereador Gustavo Martinelli.

Só no final da tarde da quinta, a visita foi revelada pelo site da Prefeitura. Tudo tranquilo, o governador veio a Jundiaí e não precisou enfrentar perguntas incômodas de jornalistas. Nem o prefeito teve que falar a respeito do Carnaval.

Uma coisa é importante ressaltar: o prefeito Luiz Fernando Machado tem todo o direito de passar o Carnaval onde bem entender. E é uma decisão particular se quer ficar com a família ou se pretende ou não se manifestar a respeito de qualquer assunto.

Bem como pode escolher o veículo de comunicação que achar melhor para comunicar suas ações. É  critério dele.

Mas como prefeito, a principal autoridade do município, do meu ponto de vista, precisa comunicar aos munícipes o que é que está fazendo e onde. Por isso jornalistas, como eu, insistem para que seja divulgada sua agenda de trabalho — caso fosse divulgada, o que não vem acontecendo, facilitaria o trabalho de cobertura da imprensa local.

E, como no caso dos confrontos do Carnaval, seria de esperar que ele viesse a público expressar sua opinião. Talvez ele tenha conversado com outros jornalistas mas, até o final da tarde desta sexta-feira (3) quando escrevo o artigo, não vi nada.

Um Carnaval com muitos pontos positivos

A gestora de Cultura, Vasti Ferrari, e os diretores da pasta acompanharam todos os blocos. E muitos dos diretores de blocos e outros jornalistas, inclusive eu que acompanhei diversos blocos, reconheceram o apoio e a capacidade de organização da Cultura.

E não só: também foi reconhecido o trabalho da Setransp e da Guarda Municipal e Polícia Militar durante os desfiles.

O que pegou, e isso precisa ser explicado, foi a violência desmedida na dispersão dos blocos. Bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, spray pimenta e balas de borracha para dispersar foliões? Que sentido há nisso? Mulheres e crianças intoxicadas por gases. Feridos.

E nenhuma palavra do prefeito Luiz Fernando Machado?

A Guarda Municipal divulgou uma nota oficial onde disse que cumpriu seu dever constitucional e agiu dentro do que é permitido pela lei e, em muitos casos para se defender de agressões.

Diz a nota que (…)”infelizmente o que se observou foram o uso de muitas substâncias entorpecentes, consumo de bebidas alcoólicas por toda a faixa etária, inúmeros casos de furtos e roubos em meio aos foliões e, para finalizar, o que seria uma festa, tivemos muitos atos de vandalismo, depredação de bens públicos, lojas, sinalização de trânsito e principalmente uma injusta agressão contra os integrantes dos diversos órgãos de segurança envolvidos no evento. Isso que obrigou a realizarem um proporcional uso da força, para controlar situação que poderia tomar outros rumos.”

Mas isso é verdade, em partes.

Alguns Guardas Municipais, segundo relatos divulgados pelas redes sociais, também usaram spray pimenta para dispersar jovens e violência contra alguns. Há diversas testemunhas. Basta que o comandante  Cláudio Ferigato investigue. E a Polícia Militar usou bombas antes mesmo de qualquer comunicação com os foliões. E usou balas de borracha também — há videos que mostram.

Isso é responsabilidade do prefeito também.

Uma das coisas que Luiz Fernando Machado precisa responder, para esclarecer as coisas é: se estava estabelecido que os blocos encerrariam suas atividades às 19h30, o que na maioria das vezes aconteceu, por que dispersar as pessoas pouco tempo depois? Não seria mais razoável esperar que cada um fosse para casa no seu tempo. E, caso alguém insistisse em perturbar a lei e a ordem, aí então agir?

O medo dos pancadões, no entanto, falou mais alto, e a ação da polícia alinhou pela base, tratando todas as pessoas como potenciais agressores da ordem pública. Faltou, como afirmam os diretores dos 11 blocos da cidade, uma ação mais efetiva da polícia antes dos desfiles, com o objetivo de impedir que as áreas destinadas aos blocos fossem tomadas por carros com potentes equipamentos de som.

E mulheres, crianças, idosos foram alinhados a jovens transgressores, bandidos e arruaceiros. A Polícia não teve capacidade de agir de forma seletiva, tranquila e garantindo a dispersão de forma natural.

E isso é também responsabilidade do prefeito Luiz Fernando Machado e do assessor especial de segurança (que na prática é o secretário de Segurança), Paulo Sérgio Giacomelli Stell, que também não se pronunciou durante esse período.

Ainda há tempo para que o prefeito dê satisfações à população. Que mostre seu posicionamento. E explique suas razões.

Eu estou esperando isso. E sei que muitos outros também.