Queremos uma cidade, afinal, para quê e para quem?

Daniela da Camara Sutti

Cada dia mais percebemos o desejo das pessoas em caminhar prazerosamente pelas ruas, pelas calçadas, pelo Centro, pelos bairros — principalmente nestas noites quentes de verão.

E de que forma podemos utilizar a cidade de maneira agradável e, principalmente, segura? Incentivando cada vez mais que as pessoas estejam nas ruas, que a cidade seja viva e dinâmica, que provoque a vontade coletiva de uso constante dos espaços públicos.

Neste sentido, importante se faz a discussão e a percepção de que cada vez mais, dia a dia, os espaços públicos para pedestres foram, ao longo do tempo, perdendo lugar para os carros. Esse conceito é insustentável e precisa mudar – essa foi a discussão colocada pelo Projeto Urbanismo Caminhável, desenvolvido em Jundiaí em 2015.

Parte deste projeto, dois Parklets foram implantados em 2015 e 2016, e propiciaram esta discussão sobre a cidade, sobre os benefícios de locais de encontro, descanso e bate papo, sobre a agradabilidade dos espaços públicos e os benefícios do desenvolvimento econômico que provocam.

Cidades com locais que induzem e qualificam a circulação de pedestres tem medições de elevada venda e consumo de seus produtos – os Parklets são minipraças, substituem-se duas vagas de veículos por um espaco de convívio, público, com qualidade, conforto e beleza.

E estes dois protótipos de Parklets foram testados com medições feitas antes e depois de sua instalação, definidos e projetados em conjunto com a população foram transformados em políticas públicas: desta forma, foi elaborado Decreto para que a iniciativa privada pudesse implantá-los, dentro das regras e experiência obtidas durante este experimento de cidade.

Essa iniciativa baseada na qualificação do desenho da cidade é bastante interessante, pois, com a participação da iniciativa privada, discute-se formas qualitativas de uso coletivo dos espaços públicos da cidade, tudo regulamentado.

O Plano Diretor vigente, discutido com mais de 11 mil pessoas, incorporou, por força deste olhar de uma cidade mais amigável ao pedestres, os conceitos do uso da cidade viva e caminhável, como Fachada Ativa e Fruição Pública (o primeiro, com uso de serviços no térreo dos empreendimentos; o segundo, com uso de “atalhos” para o pedestre, entrecortando miolo de quadras dos empreendimentos, com benefícios nos índices de ocupação) – tudo para estimular o uso agradável e seguro da cidade, qualificando o seu desenho urbano e ocupando naturalmente o seu espaço público.

Contudo, este conceito humanizado de cidade, amplamente eficiente e implantado em referências como Copenhagen e muitas outras, portanto, experimentos de Jan Gehl com resultados comprovados, é contraposto diante da recente discussão na cidade de Jundiaí, de projeto de lei aprovado pelos vereadores em dezembro último e relacionado ao fechamento de ruas da cidade.

Ao se utilizar de um conceito ineficaz e ultrapassado de constituição de segurança de uma cidade através de muros e guetos, tal projeto de lei repete fórmulas que não funcionam comprovadamente. Passa a equivocada sensação de segurança, enclausura a cidade e seus moradores – é exatamente o oposto do que se projeta onde os índices de violência na cidade são baixíssimos.   

Será que a pessoa prefere caminhar, à noite, por uma calçada ao longo de um muro de um condomínio ou passar por uma praça cheia de gente? Certamente, a segunda opção promove mais segurança – e bem estar!

Essa visão humanizada e ocupada da cidade busca retomar o Planejamento Urbano na escala da pessoa, do morador – o que, efetivamente, melhora a vida das pessoas.

A discussão deve continuar: queremos uma cidade, afinal, para quê e para quem?

Daniela da Camara Sutti é arquiteta e urbanista. Foi secretária da Planejamento e Meio Ambiente de 2013 a 2016. www.danieladacamara.com.br

Foto de abertura by Lucas Castroviejo

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