Sem Dentes e Botinada mostram que é preciso energia pra fazer acontecer

Por Flavio Gut e Bruno Galiego

O que ficou claro ao assistir do documentário Sem Dentes, que conta a história da Banguela Records, na quinta-feira, no Amplifica 2017, o Festival de Bandas Independentes do Sesc, é que pra fazer a coisa acontecer é preciso de alguém com vontade. Alguém ou muitos alguéns.

O que mais impressionou no documentário Sem Dentes é a capacidade do jornalista e produtor musical Carlos Eduardo Miranda de ousar. Ele é o verdadeiro banguela, o sem dentes responsável, por exemplo, pela revelação dos Raimundos.

Ele, a Warner e os Titãs, como fica claro pelo filme.

O selo Banguela Records abriu uma porta para as bandas da geração anos 90. Um período de riqueza musical e diversidade. Um tempo de Mundo Livre SA, Chico Science & Nação Zumbi, Little Quail e tantos outros.

Uma daquelas conjunções astrais que revelam o espírito de um momento.

O documentário mostra que através da coragem e da ousadia é possível encontrar novos modelos, novas formas de fazer o mesmo — ou nem tanto.

O Banguela Records foi o último dos selos do mundo ainda não digital. Depois disso, a conversa foi parar na internet com seus Facebooks, Youtubes e outros bagulhos.

O grito suburbano 

Logo após a exibição do “Sem Dentes”, voltamos 17 anos no tempo para entender as características e histórias da origem do Punk Rock no Brasil.

O documentário “Botinada – A Origem do Punk no Brasil”, lançado em 2006 pelo jornalista Gastão Moreira, foi exibido e trouxe detalhes os desse fenômeno (sub)cultural no país. 

Para elucidar o surgimento, desenvolvimento e legado da cena Punk, “Botinada” traz entrevistas, fotos, recortes de jornais, revistas e documentários produzidos entre 1978 e 1983.

Depoimentos de gente como Clemente Tadeu do Nascimento (Inocentes), João Gordo (Ratos de Porão), Fábio Sampaio (Olho Seco), Redson (Cólera), Ariel (Restos de Nada), Kid Vinil, entre outros, reforçam ainda mais o entendimento de que a cena Punk brasileira foi o primeiro grande movimento musical independente que foi reconhecido internacionalmente. 

“Faltava quem falasse do que acontece com você, falasse da sua realidade”, relata Clemente referindo-se à canções como “Anarchy in the U.K”, do Sex Pistols, e “Streets of London”, do Anti-Nowhere League, que abordavam a realidade da Inglaterra.

O músico explica no documentário que foi a partir dessa necessidade que surgiram as primeiras bandas: Restos de Nada, Condutores de Cadáver, Olho Seco e Cólera. 

Encabeçada pelo cooperativismo, a coletânea “Grito Suburbano”, que contava com Olho Seco, Cólera e Inocentes – que surgiu com o fim do Restos de Nada e Condutores de Cadáver -, foi lançada no ano de 1982. “O Olho Seco iria lançar um compacto e acabar a banda”, explica Fabio Sampaio em seu depoimento.

O vocalista do Olho Seco mudou de ideia ao perceber o surgimento de bandas e a necessidade de amplificar a cena. O resultado é que o disco, além de ter sido o primeiro registro de Punk Rock do Brasil e da América Latina, foi lançado na Alemanha em 1984 pela Vinnyl Boogie com o nome de Volks Grito. 

Coletâneas independentes com o mesmo formato cooperativo foram lançadas posteriormente. “SUB”, lançada em 1983, contou com Cólera, Ratos de Porão, Psykóze e Fogo Cruzado. 

O documentário também mostra os bastidores do festival “O Começo do Fim do Mundo”, organizado pelo escritor Antônio Bivar e Callegari, guitarrista do Inocentes na época.

Esse recorte mostra muito bem o quanto uma cena unificada pode alcançar níveis por muitas vezes inimagináveis, vale lembrar que isso aconteceu em 1982 com a ditadura militar no cangote. Mesmo assim, o festival rolou com cobertura da imprensa especializada internacional. 

Mesmo com as “polêmicas” envolvendo São Paulo e Brasília em relação ao surgimento do Punk no Brasil, as tretas de gangues de SP versus ABC, e todo o sensacionalismo que corroeu a cena Punk, o legado histórico dessa galera dura até hoje em qualquer gênero musical.

Atualmente, discos em formato split, coletivos musicais, festivais e tudo que remete ao faça-você-mesmo, carrega uma influência gigantesca dessa época.

Será que hoje teríamos o Amplifica 2017 no Sesc Jundiaí, um festival significativo para a nossa cena independente, se não tivesse rolado lá em 1982, no Sesc Pompéia, um “Começo do Fim do Mundo”? Fica a reflexão. 

Foto de abertura: Inocentes no festival “O Começo do Fim do Mundo”

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