Ser menina negra, amiguinhos, não é fácil

Mariana Janeiro

“Liberdade é um bairro que a alma quer visitar”

Black Power, um dos penteados mais famosos, em sua tradução literal significa “Poder Negro”. E eu só fui descobrir isso um bom tempo depois…

Aos que ficarem, vou abrir um pouco da minha história, que é raro eu contar. Mas acho que a ocasião faz jus.

Hoje sou mulher negra, resolvida. Mas já fui menina. Menina negra. E ser menina negra, amiguinhos, não é fácil.

Antes, uma breve história. Sou negra, filha adotiva de um casal de brancos e italianos, ambos. Por conta da cultura deles, nunca tiveram contato com a cultura negra.

Estudei em boas escolas e bons colégios. Quase sempre fui a única criança e, principalmente, menina negra. Sempre tive amigas brancas e nos demos muito bem até onde a minha memória alcança. Não tenho recordações de racismo. Acredito que no meio em que vivi, todos me trataram muito bem.

Achei até agora, vinte e um anos depois, ter ouvido um relato de um colega, também negro. Mas isso eu também falo mais tarde.

Ter sido menina negra não foi fácil. O meu problema não era a minha cor diferente. Muito pelo contrário, sempre gostei muito da minha cor! O problema também não era no corpo. O problema era no cabelo, um dos pontos de maior identidade da mulher.

Era um caos.

Meus pais não sabiam lidar, nunca tiveram contato e eu também nunca fui atrás. O problema foi grave, já deixei de ir pra escola por conta do cabelo. Fui transferida, convidada a me retirar e quase expulsa. Tudo por conta do cabelo.

Infância e parte da adolescência, vocês sabem, todos nós somos muito cruéis com os outros e conosco. Logo, o problema não era a zoação com o meu cabelo, já que eu fazia igual (quisá pior) com as outras crianças, por outras coisas. O problema era outro…

Eu não aceitava o meu cabelo. O cabelo ruim. A falta do cabelo liso.

A Barbie? Cabelo liso. A Xuxa? Cabelo liso. A Susi? Cabelo liso. A Eliana? Cabelo com um cacheado magnífico.

Muitas meninas negras se encontraram nas mil e uma técnicas de alisamento, progressivas, chapinhas, escovas e suas derivadas. Acho tudo válido, mesmo temendo pelo estado do cabelo no final dos processos, que fica bem castigado.

Pra mim a chapinha não foi o caso.

Por mais difícil que possa ser acreditar nisso, eu nunca pensei em alisar o cabelo. Nunca, em momento algum. Eu queria ver outras pessoas iguais a mim. Não me recordo de referências negras na minha época. Nem hoje, quando fui buscar um novo corte de cabelo, as referências visuais ainda são poucas, bem poucas.

Foi difícil. Mas no meio do caos capilar e da minha identidade se formando, achei as tranças! Um passo gigantesco!

Das tranças em diante, tudo ficou mais fácil. Fiz aplique, dread, fiquei quase careca e hoje tenho um cabelo que eu gosto, cuido muito e que me deixa feliz. Todo o meu processo capilar pode ser visto AQUI (aproveita e deixa um comentário por lá também, vai, rs…).

A relação com o meu cabelo foi e ainda é a minha relação com a liberdade! Quando me olho no espelho, hoje, me vejo finalmente mulher. A partir do momento em que eu me aceitei, minha vida fluiu muito melhor. Deixei de ter vergonha de mim mesma, vi que eu poderia andar sem medo, de cabelo solto.

Não discrimino quem usa qualquer tipo de química no cabelo. Mas eu sinto que o cabelo negro tem um poder que é só dele… Eu consigo me sentir carregando 500 e tantos anos de cultura em cada fio. Sinto orgulho.

Não me sinto mais inferior. Conquistei um grau social que eu jamais imaginaria conseguir. Não me sinto coitada ou diminuída por causa da minha cor ou pelo meu cabelo. Muito pelo contrário, me sinto forte. Tão forte quanto o meu cabelo.

Meu cabelo foi a trilha pra minha liberdade e para a formação da minha identidade. Acredito que hoje meu cabelo diz muito sobre mim. Ele chega antes de mim em qualquer lugar. Ainda bem!

Acho que meu cabelo sou eu: Forte, bonito, refinado. Mas dá trabalho, exige paciência, um certo carinho, dedicação. Sem falsa modéstia, rs. Meu cabelo não é liso. E não precisa ser transformado.

Black Power, literalmente, como eu disse no começo da nossa conversa.

Já em um âmbito geral, minha tristeza com o preconceito vem, especialmente, na cultura. Os negros são o berço de toda a humanidade. Não tem Grécia que chegue aos pés africanos. Música, filosofia, religião. Os exemplos são tantos, que não cabem aqui, infelizmente.

De um tempo pra cá, a cultura negra está em voga. Pelo menos parte dela. Vários projetos independentes e também alguns fortemente patrocinados estão sendo realizados.

Já o preconceito literalmente racial, acredito que seja falta de neurônios. Ou apenas um mau-caratismo. Alguns meses atrás sofri uma espécie de preconceito vindo de um colega também negro. Mal acreditei.

Durante o discurso, ele não aceitava muito bem os brancos na cultura negra. Colocava facilmente todo o nosso problema sócio-econômico-racial nos brancos. Para esse meu colega, fui enganada por todos vocês, todos esses anos. Branco não gosta de negro e ponto final.

Vivi quase um “Show de Truman” da pobre menina negra. Ainda bem que aprendi a abstrair muitas coisas durantes esses anos.

Gosto de acreditar na minha verdade, a de que conquistei o respeito que tenho por mérito e não por pena. Existem brancos que gostam de negros. E brancos que gostam de negras. E são muitos! Acreditem.

Esse meu colega, por exemplo, não aceitava ser chamado de moreno. Eu sou negra, mas você também pode falar que eu sou Afrodescendente. Não me ofendo quando me chamam de “morena”, do mesmo jeito que nunca me ofendi com “nega”, “neguinha”, “preta”…

Acho, salvo algumas exceções, uma reação muito pedante a de quem se ofende. Ultimamente, tudo tem virado ofensa. Deixemos disso. E não vou me aprofundar no assunto por que a questão não cabe aqui.

Não devemos isentar ninguém da culpa, uma vez que todos nós temos alguma parcela de culpa nesse impasse imenso.

Falta informação por todos os lados. Cabe a nós, comunicadores, preencher esse espaço. Jogar a culpa total nas costas de outras pessoas, que muitas vezes nós nem sabemos quem são elas, é sempre muito fácil.

E é isso!

Para as meninas negras que sofrem com os cabelos como eu sofri, deixo só um recadinho: Amem-se, respeitem-se e aceitem-se. Ninguém muda as raízes. As do cabelo sim, mas raízes genéticas são nossas, imutáveis. Amem-se com amor incondicional. Ninguém mais no mundo pode fazer isso por vocês.

Para mim, o dia de amanhã não deveria existir. Nossa história não se resume a apenas um dia, uma ideia remota e vaga do que fomos e do que ainda somos e representamos. Não há consciência sobre quase nada. Ninguém mais vive na nossa pele, literalmente, para saber.

Deixo aqui também minha homenagem a Seu Jorge, que, durante um show seu foi vaiado pela plateia ao recitar o poema/música de Mano Brown, “Nego Drama”. O caso foi descrito por Bruno Rico em seu blog.

Sou negra. Negra com orgulho, com vontade e mérito!

Na foto de abertura: Angela Davis, militante do Black Panther Party. 

 

Mariana Janeiro é fotógrafa profissional. Sabia mais a respeito do trabalho dela na página pessoal do Facebook
http://www.facebook.com/marianajaneiro

Ou na página profissional
http://www.facebook.com/marianajaneirofotografia

Ou ainda no blog cabelo bombril
http://cabelobombril.tumblr.com/

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