Será que a Cultura vai ter espaço no ‘futuro’ de Luiz Fernando?

Por Gustavo Koch

Desde que assumiu o cargo de prefeito em Jundiaí, Luiz Fernando Machado (PSDB) vem demonstrando completa falta de tato e interesse pelos assuntos culturais da cidade. Os primeiros desmandos resultaram no rebaixamento da pasta responsável e no ‘novo formato’ dos desfiles das escolas de samba. A bola da vez é o cancelamento da Virada Jundiaí.

Organizada desde 2015 sem apoio do Governo do Estado, que enviava através do megaevento estadual um pacote de atrações pouco compatíveis com o perfil municipal, a Virada Jundiaí reaproximou da cidade grandes nomes da música brasileira, exaltou os artistas locais e gerou economia aos cofres públicos.

Em suas duas últimas edições (sic), o evento reuniu um público de mais de 100 mil pessoas – quase um terço do total de munícipes. Em 2016 foram mais de 115 atrações distribuídas por diferentes regiões da cidade, do Centro às comunidades periféricas, possibilitando o acesso cultural a uma parcela ainda maior da população.

E o que Jundiaí ganhou com isso? Vida.

Para além das importantes transformações sociais que o contato cultural provoca, uma virada leva as pessoas a criarem novos laços com espaços da cidade, estimula a valorização da produção artística local e, assim como qualquer outro evento de grande porte, aquece a economia em diferentes setores. Basta querer ver.

Adendo 1 – Tive a honra de trabalhar na Virada Jundiaí de 2016. Coordenar o palco principal não foi tarefa fácil – ‘lar’ de Oswaldo Montenegro e Ira! naquele ano –, mas poder conversar com a gente presente e sentir sua alegria por participar, algumas pela primeiríssima vez, de uma ação cultural grandiosa como aquela tirou das costas todo o peso da produção.

Mais cedo neste ano a virada cultural também foi tema polêmico na capital cinza Dória. O reizinho prefeito de São Paulo, do mesmo PSDB de Luiz Fernando, anunciou que o evento seria transferido para um lugar fechado e com difícil acesso à população, que logo se posicionou e fez pressão para a gestão voltar atrás em sua decisão.

Ainda que muito maior que a experiência jundiaiense, e com todos os problemas que uma ação dessa dimensão tem, a virada paulistana redefiniu o espírito da cidade e virou referência quando o assunto são eventos culturais que transformam a nossa relação com o espaço urbano. E é isso que devemos discutir aqui urgentemente.

Mas voltando à Jundiaí, por que a virada foi cancelada?

Segundo a prefeitura falta orçamento. A mesma desculpa foi dada durante o Carnaval, quando o desfile oficial foi cancelado e substituído por ações menores em alguns bairros – mas não poupou despesas na repressão policial. Contudo, logo foram anunciados cargos comissionados com custo de mais de R$ 7,8 milhões ao ano, algo estranhamente insensato para uma cidade em “caos econômico” como alega a gestão desde os primeiros dias de mandato.

A pergunta continua sem resposta e o Conselho Municipal de Política Cultural sem ser consultado. Criado no ano passado e resguardado por lei, o grupo é o canal da sociedade civil para discutir assuntos ligados à gestão cultural pública de Jundiaí e tem caráter consultivo e deliberativo, mas foi ‘achatado’ pelo rolo-compressor da decisão tomada pela administração municipal e deve se posicionar em breve sobre o cancelamento do evento.

Adendo 2 – Outro fato que merece atenção em meio ao furacão ‘anti cultural’ Luiz Fernando, mas que mereceria um texto inteiro, é a retirada da Casa da Cultura do espaço localizado na Rua Barão de Jundiaí, no Centro, sede da pasta responsável há alguns anos – a ex-Secretaria passará a atender no Complexo Fepasa, na Avenida União dos Ferroviários. A remoção do órgão da região central é a declaração da falta de interesse do governante para com os artistas e agentes culturais de Jundiaí e a participação destes nas decisões públicas.

O ‘futuro’ anunciado durante a campanha do atual prefeito ainda é incerto e um tanto assustador. Após o endosso da administração municipal aos ataques violentos com balas de borracha e bombas lacrimogêneas, parecia que o cenário não poderia piorar, mas vai. E muito.

Parece que estamos voltando ao tempo em que a melhor – e mais segura – opção cultural é embarcar em um Cometa para qualquer outro lugar.

Gustavo Koch é produtor e comunicador cultural, Conselheiro Municipal de Cultura e mantém um blog sobre a cena local. Foto dele mesmo na Virada Cultural de 2015.

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