Show em homenagem a Venâncio Furtado lota o teatro do Sesc e renova baterias

Foram necessárias apenas 16 canções para demonstrar a atemporalidade do trabalho musical de Venâncio Furtado na história cultural de Jundiaí. Foram 13 composições próprias selecionadas do repertório criado na virada dos anos setenta para os anos oitenta, uma de outro compositor contemporâneo na cidade e dois clássicos nacionais para situar o cenário da época. O resultado no domingo (8) foi fabuloso. No palco estavam nove músicos – a “cozinha” percussiva com Marcola Nasser, Michel Danon e Paulinho Silva, os vocais de Telma Costa, Hamilton “Gariba” Ramalho, Tom Nando e Clarina Fasanaro e estes dois últimos nomes também nos violões, formando o grupo de cordas ao lado do baixo de Antunes Nasser e da guitarra precisa de Christofer Furtado. Na verdade, diversos trocaram funções ao longo do show, assumindo vocais, bandolins ou flautas. E, na verdade, havia ainda outro “músico” no conjunto que usava a sonoplastia e os efeitos de iluminação para destacar cada canção: Décio Scalli. Os clássicos das praças, dos bares noturnos e das cachoeiras foram desfilando pelo palco do teatro do Sesc. Primeiro o brado contra os abusos políticos em “Mister Poder”, encaixando com a atitude de “Alucinado”. Em seguida, a lembrança de não fazer ao outro o que não quer que façam a você, em “A Chave para Vencer”. E logo a presença da natureza em “Murmúrios do Mar”. A emoção já conquistava a todos no palco e no público quando uma pausa é feita com um toque de Alceu Valença no forrozinho de “Cabelo no Pente”, uma presença constante nas rodas de violão da cidade nos anos oitenta ao lado das canções de Venâncio. De volta ao trabalho do homenageado, as desilusões do amor aparecem quase em forma de gafieira em “Nó na Garganta”. Uma nova frente se abre com o grito ecológico e pacifista de “Guardião”, fechada com o ritmo marcado por palmas pelo público. A boa energia é aproveitada pelo existencialismo de “Coisa Sem Nexo”. Mais um grande clássico local, na letra surreal de “Lucineia” ainda ecoa a frase contra a ditadura que lembrava que a democracia é uma estreia, que esperamos todo mês. Depois de mais uma cutucada ecológica de “Natureza Ferida”, um novo salto de genialidade surge na releitura reggae da letra cantada inteiramente ao contrário de “Esetnis” (síntese). O sobrinho do homenageado, Christopher, assume o vocal na balada “Mercenário”, sobre aqueles que largavam e ainda largam tudo por um idealismo político. E a sequência vem ainda mais forte, com uma pitada quase country, sobre o sonho de ver o mal desaparecer em “Verdade Total”. Na boa energia criada pelos meses de ensaios intensos, a banda coloca um outro clássico da época (“Trem Azul”, celebrizado por Elis Regina) com muita naturalidade como outra referência do momento da obra retratada. Vem o que foi talvez o mais conhecido clássico de Venâncio e que inspirou o show, “Pelos Ares da Ilusão”. As equipes do estúdio de comunicação co.des, produtora do espetáculo, e do Sesc recebem agradecimentos pelo empenho na produção. A banda lembra que o momento da cidade contava também com outros compositores e emenda “Mágicos e Místicos”, de Ailton “Jujuba” Júnior. E o encerramento acontece com uma versão acelerada e dançante da própria “Pelos Ares da Ilusão”.  Como se boa parte dos presentes pudesse dizer junto: sou um visionário, eu não nego, sou daquela geração, irmão. Foto by Tati Silvestroni