Um Carnaval que já começa na quarta-feira de cinzas

Por Gustavo Koch

O Carnaval deste ano vai ser um pouco mais cinza, mas isso não ter a ver com as peripécias do prefeito da capital. Aqui mesmo, na nossa terra querida, a polícia e a gestão municipal ditaram regras para a saída dos blocos nas ruas – sem contar o cancelamento do desfile das escolas de samba. O que me intriga é: a quem interessa que o povo não festeje nas ruas?

Não é de hoje que os movimentos culturais pautam a ocupação dos espaços públicos na cidade. A discussão ganhou força nos últimos anos e uma lei em 2015, onde são dados parâmetros para ativações culturais em ruas e praças – o que ainda é pouco, considerando o número crescente de expressões culturais ativas no município.

Jundiaí está se transformando e deixando o espírito de interior no passado, principalmente no que diz respeito à produção cultural local. Essas questões deverão ser observadas atentamente pelo Conselho Municipal de Política Cultural e ganharem corpo através do Plano Municipal de Cultura, previsto para ser escrito ainda neste ano.

É preciso garantir que os cidadãos possam ocupar os seus espaços na cidade, e isso não significa apenas estar presente em um local físico. É uma questão de identidade – coisa que não é definida somente pelas origens do seu povo, mas principalmente pelas maneiras que as pessoas ocupam os espaços públicos.

Nesse sentido, Jundiaí é uma cidade parcialmente encarcerada atualmente.

De maneira ampla, gente na rua significa mais igualdade social, mais segurança, mais saúde e preservação do patrimônio público. E esse tipo de coisa não acontece com praça cercada, muito menos com horário limite para manifestação popular – situações que acontecem quando não há interesse em diálogo e informação.

Logo, cabe à população desarmar a polícia e administração municipal de seus preconceitos (e conceitos) internalizados.

No que diz respeito à folia local, “bebidas alcoólicas em copos plásticos vermelhos e não alcoólicas em copos brancos” foi uma das determinações da Polícia Militar. A ideia é facilitar a identificação de menores de idade pelos agentes de fiscalização, mesmo que os tais copos vermelhos sejam vendidos abertamente, sem restrição de idade, em lojas e supermercados. Faltou lógica.

Outro ponto que desperta curiosidade é proibição do uso da Avenida 9 de Julho. O argumento apresentado defende que “é rota para dois hospitais, Corpo de Bombeiros, rodoviária e no futuro dará acesso direto à Anhanguera”, como se fosse necessária a interdição dos mais de 7 quilômetros da via (que, por sinal, é dupla). Espero que a medida também seja aplicada à outras manifestações políticas e religiosas que têm a ‘Nove’ como palco.

Apesar da falta coerência em algumas das imposições, outra merece compreensão, ainda que soe como censura disfarçada. A proposta afirma que os desfiles devem ser encerrados às 19h30 para que haja dispersão do público. O objetivo é que se cumpra a Lei do Silêncio – que geralmente é desrespeitada por grandes clubes e eventos particulares na cidade.

Do Carnaval proposto pelos blocos aos ‘rolezinhos’ (invisíveis para a maioria da população, mas que reúnem centenas de jovens semanalmente), é comum ver manifestações culturais e populares reprimidas por forças policiais sem que haja debate público prévio, bastando apenas a opinião de um grupo dominante. Assim, leis esbarram em códigos morais e favorecem ações agressivas, medidas incabíveis e opiniões pouco ou nada construtivas.

Se faz necessário que botemos nossos blocos na rua cada vez mais. Só assim as pessoas terão consciência das questões que cercam os espaços públicos e a Cultura, essa força indomável e que diz respeito a todos nós. Caso contrário, nos restará tomar cuidado para não cair das sacadas gourmets nos próximos carnavais.

Gustavo Koch é produtor e comunicador cultural, Conselheiro Municipal de Cultura e mantém um blog sobre a cena local.

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