“Vai no Zé hoje?”

Bruno Galiego

Nesta semana, perdemos uma das figuras mais marcantes da cidade. Após sofrer um mal súbito e receber diagnóstico de infarto, o comerciante de 59 anos, José Osmando Rodrigues, faleceu na tarde desta segunda-feira, 6. Na terça-feira, Zé foi sepultado no Cemitério Municipal Nossa Senhora do Desterro.

“Vai no Zé hoje?”

Nos últimos três anos, pelo menos para mim, ouvi essa pergunta inúmeras vezes. Após o expediente de trabalho ou após a sessão de Skate no Sororoca, sempre aparecia um camarada com uma sugestão para finalizar o rolê. E a sugestão era sempre a mesma: o Bar do Zé.

Localizado na Vila Municipal, o prédio número 74 da Rua Nicolau Coelho, em frente à praça, é um lugar emblemático, com ar juvenil e único. O botequim completa a praça e vice-versa. Lá se encontram skatistas, pixadores e músicos de diferentes gerações. Nas noites de quarta-feira e nas tardes de domingo, sempre tem os frequentadores que assistem o futebolzinho tomando muita cerveja.

No balcão do bar, o Zé. Palmeirense fanático, mas não histérico. Calmo, era considerado por muitos o tipo “casca grossa” e até “rabugento”. Para ganhar a confiança do cara, à ponto de garantir o copinho de vidro, caro custava. Paulo Henrique Silva, frequentador há cinco anos do pico, presente no cortejo fúnebre, foi um dos poucos que conseguiu tal façanha. “Cara, eu demorei uns dois anos para conseguir o copo de vidro”, lembra com bom humor e emoção.

Bem antes de Paulo Henrique, muitos outros vivenciaram situações inusitadas ao lado de Zé. No cortejo, portando uma camisa com o rosto do comerciante estampado, Adriano Martarelo, o Piri, frequentador do Bar do Zé há 18 anos, lembra que a camaradagem com o balconista era muito próxima e sincera. “Todas as garotas que eu namorei ele conheceu”, disse. Piri fez um breve relato sobre o amigo em sua página no Instagram. 

Muito emocionado no cortejo, Ricardo Luiz Silva, o Dudu, frequenta o local há 17 anos. Ele lembra de Zé com muito carinho. “Ele era um pai para todos nós, sempre estávamos ali no meio daquele monte de gente louca. Ele tinha que ser um pouco linha dura mesmo, mas todos nós sabíamos que dentro daquela casca grossa tinha um ótimo coração”, declarou.

Das inúmeras vezes que ouvi a pergunta, boa parte eu respondia com um “talvez”. Não tive muitas histórias no local. Eu entrava no bar, comprava uma coxinha e um suco e voltava para a praça. Mas, me lembro que ao ouvir uma sugestão de um amigo para fazer uma matéria sobre o local, fui falar com o Zé. Me apresentei e expliquei sobre o que seria a minha futura pauta, ele me olhou de canto de olho, deu um sorriso tímido e com certa desconfiança. Disse que não seria uma boa ideia.  

Ele não queria se expor. Ao olhar para a praça, ver a brisa noturna e lembrar algumas situações não muito agradáveis ocorridas na praça, entendi o lado dele. Dei um sorriso também, e pedi a tradicional coxinha de queijo e um suco.

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