Augusto de Franco pergunta: A Matrix existe?

Augusto de Franco se define como escritor e um – entre muitos – dos netweavers da Escola-de-Redes. Na verdade, ele não é só apenas um entre muitos, é o idealizar da Escola-de-Redes e um respeitado pensador do mundo interconectado em que vivemos. Nesse artigo ele questiona:

A Matrix Existe?

O título originalmente planejado para este texto era: “A Matrix Existe”. Abri até um grupo no Facebook, exatamente com esse nome, para reunir reflexões sobre o tema. À medida que o papo rolava lá no grupo fui sendo assaltado, porém, por muitas e crescentes dúvidas.

A tese central do filme – refiro-me não apenas ao primeiro filme, mas à trilogia completa dos irmãos Wachowski (1999-2003) – foi vista assim por alguns: “o que experimentamos como realidade é uma realidade virtual artificial gerada pela ‘Matrix’, o megacomputador acoplado às nossas mentes”. E, de certo modo, foi essa a visão que se generalizou. Mas eu não tinha tal apreensão da metáfora. Apreendia seu lado social, não o seu lado, por assim dizer, tecnológico. Inclusive porque achava (e continuo achando) que toda ‘realidade’ é virtual, em um sentido ampliado do termo.

Por outro lado, o filme passa também uma visão conspiratória. Como se existissem centros manipuladores responsáveis pela alienação massiva das pessoas. Também não penso assim. Não existe um Grande Irmão (humano ou extra-humano). Acho que a Matrix, se existe, só existe porque é replicada por nós, continuamente (como escrevi em 2009, no texto “Você é o inimigo”).

Então transformei o nome originalmente imaginado em uma pergunta, colocando-a como título desta introdução. A temática social (ou antissocial, em um sentido maturaniano do termo) permanece todavia. As pessoas continuam reproduzindo comportamentos muito semelhantes – que deformam o campo social – como se estivessem sob a influência de um mesmo sistema de crenças, valores, normas de comportamento e padrões de organização; ou como se rodassem um programa básico que foi instalado em suas mentes e acham que o mundo (ou ‘a realidade’) é assim mesmo. Ora, isso evoca a metáfora do filme The Matrix, no qual máquinas poderosas, com inteligência artificial, controlam a humanidade cativa e as pessoas vão vivendo suas vidas, monótonas ou frenéticas, em suas modernas colmeias humanas, sem saber disso, tomando a aparência pela realidade.

Há um paralelo que dá sentido à apreensão social da metáfora. Na Matrix realmente existente, as pessoas não veem que seu comportamento replicante deforma o campo social. Elas acham que o mundo social só pode ser interpretado por meio de um conjunto de crenças básicas de referência, que tomam por verdades evidentes por si mesmas, axiomas que não carecem de corroboração. Exemplos dessas crenças são as de que:

O ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo

As pessoas sempre fazem escolhas tentando maximizar a satisfação de seus próprios interesses materiais (egotistas)

Nada pode funcionar sem um mínimo de hierarquia

Sem líderes destacados não é possível mobilizar e organizar a ação coletiva

Essas crenças básicas são como parâmetros do programa que foi instalado nas pessoas. Então elas não se dão conta de que, ao agir com base nesses pressupostos (em geral não-declarados, mas sempre presentes), reproduzem a realidade social que foi deformada. Em outras palavras, elas não percebem a deformação porque todo mundo sabe que é impossível ser de outro modo.

Essas crenças comuns, que nada têm de científicas (embora sejam justificadas com base em verossimilhança científica) estão rodando – como um malware – na nuvem social que chamamos de mente. E estão tão profundamente instaladas no andar de baixo – ou fundeadas como pré-conceitos no subsolo das consciências (seja lá o que for isso) – que não podem sequer ser percebidas. Em geral as pessoas não sabem que estão agindo dentro do “horizonte de eventos” configurado por elas. Como na conhecida anedota daquele cara que ‘não sabia que era impossível, foi lá e fez’, as pessoas, em geral, não fazem nada diferente – que contrarie essas prescrições básicas de funcionamento do mundo social – porque sabem que é impossível.

Evidentemente estamos aqui tratando de cultura, quer dizer, de transmissão não-genética de comportamentos, de um programa que roda na rede social deformando o campo. Um software que modifica o hardware. Um hardware que, uma vez modificado, induz a replicação do software; ou seja, instala automaticamente o programa nas pessoas que a ele se conectam.

A cultura de que estamos tratando é aquela que vem se replicando há alguns milênios, desde que a rede social foi verticalizada com a ereção de instituições centralizadas. Alguns a chamam de cultura patriarcal ou guerreira. Na verdade seu surgimento coincide com o que chamamos de civilização (palavra que a argúcia de William Irwin Thompson traduziu corretamente por militarização).

Mas se trata apenas da cultura hierárquica. De um poder sagrado (hieros + arché), que instalou artificialmente a necessidade da intermediação por meio de separações, intervindo na rede social para excluir nodos (eliminar pessoas), apartar clusters (eliminar atalhos) e suprimir caminhos (eliminar conexões). Sem isso, diz-se (diz a cultura hierárquica), nada poderia funcionar: as pessoas não poderiam ser educadas, não aprenderiam a respeitar as regras que garantem a coexistência social e acabariam se entregando a uma guerra de todos contra todos (porque “a besta humana não seria domada”), as sociedades não evoluiriam, não teríamos a filosofia, a ciência, a arte, as técnicas, enfim… o progresso. Estaríamos ainda na idade da pedra. Na Matrix as pessoas acreditam nisso ou se comportam como se acreditassem, o que é a mesma coisa.

Segundo esse ponto de vista, portanto, a hierarquia é a Matrix realmente existente. Ao viver em sistemas hierárquicos você se transforma, em alguma medida, em um autômato e um replicante da Matrix (uma espécie de unidade borg).

Sim, nesse sentido alguma coisa que evoca fortemente a Matrix existe mesmo. Então resolvi chamar a coisa pelo nome.

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